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Síria, onde a paz explode debaixo dos pés

Antes eram os combates e os bombardeamentos indiscriminados que causavam vítimas entre a população civil; agora, são as minas e os engenhos explosivos não detonados, herança de uma guer...

Síria, onde a paz explode debaixo dos pés

Antes eram os combates e os bombardeamentos indiscriminados que causavam vítimas entre a população civil; agora, são as minas e os engenhos explosivos não detonados, herança de uma guerra que já dura mais de uma década. Uma realidade dramática documentada pela organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), que publicou um relatório sobre a situação na província síria de Deir ez-Zor, uma das zonas mais contaminadas do país.

Os dados recolhidos por MSF em colaboração com a Direção de Saúde local, relativos ao período compreendido entre abril de 2025 e abril de 2026, revelam um quadro alarmante. Ao longo do ano, o serviço de urgências do hospital nacional de Deir Ez-Zor, apoiado pela organização humanitária, prestou assistência a mais de 215 pessoas feridas por minas, engenhos explosivos não detonados e resíduos de guerra. Quase metade dos doentes eram crianças. Vinte e quatro pessoas morreram devido aos ferimentos sofridos, enquanto 58 doentes foram submetidos a amputações traumáticas.

De acordo com o relatório, esses números revelam apenas uma parte do problema. A contaminação do território continua, de fato, a afetar civis envolvidos nas suas atividades quotidianas. Agricultores, criadores de gado e apanhadores de trufas que entram em áreas ainda perigosas por necessidade econômica, enquanto muitas famílias tentam regressar às suas casas ou recuperar terrenos agrícolas que permaneceram inutilizados durante anos.

Também as crianças estão expostas a riscos extremamente elevados: brincam ao ar livre, exploram edifícios abandonados ou apanham objetos sem saber que estes podem explodir. As informações recolhidas sobre as circunstâncias dos acidentes confirmam essa realidade. Entre os casos documentados, 46 crianças ficaram feridas enquanto brincavam. Outros 70 doentes, entre adultos e menores, foram atingidos durante atividades indispensáveis para o sustento das famílias, como o pastoreio do gado ou a colheita de trufas, uma das poucas fontes de rendimento disponíveis em algumas zonas rurais.

 A contaminação por engenhos explosivos tem consequências que vão muito além do momento do incidente. Muitos feridos têm de enfrentar longas viagens desde aldeias remotas até às unidades de saúde, muitas vezes sem poder contar com um serviço de ambulância. Os atrasos no socorro reduzem as hipóteses de sobrevivência e aumentam o risco de amputações ou complicações permanentes.

O relatório destaca ainda as dificuldades do sistema de saúde local em responder à emergência. O hospital nacional de Deir Ez-Zor constitui um ponto de referência para um território muito vasto, mas tem de lidar com a escassez de pessoal especializado, equipamentos limitados e serviços insuficientes para a fase pós-internação. A reabilitação, o fornecimento de próteses, o apoio psicológico e a reintegração social continuam, de fato, gravemente deficientes, comprometendo as possibilidades de recuperação dos sobreviventes. As consequências são particularmente graves para quem sofre amputações. Para além das limitações físicas, muitas pessoas perdem a capacidade de trabalhar e de sustentar a sua família, entrando num círculo vicioso de pobreza que, paradoxalmente, pode levá-las a expor-se novamente aos perigos nas zonas contaminadas, apenas para encontrar meios de subsistência.

O relatório documenta também episódios que envolvem famílias inteiras. Num dos incidentes mais graves, ocorrido em fevereiro de 2026, oito membros da mesma família ficaram feridos após a explosão de uma mina ao longo de uma estrada. A maioria das vítimas eram crianças e duas delas morreram, incluindo um recém-nascido com apenas 45 dias de vida. Acontecimentos desse tipo demonstram como os engenhos explosivos não detonados continuam a representar uma ameaça indiscriminada para a população. O impacto da contaminação não se limita apenas à saúde das pessoas. As minas e os resíduos de guerra também dificultam o acesso a serviços essenciais e retardam a recuperação do território. Algumas estruturas de saúde, infraestruturas hídricas e áreas residenciais continuam contaminadas, dificultando tanto a mobilidade das comunidades como as atividades das organizações humanitárias que atuam no terreno.

Perante esta realidade, Médicos Sem Fronteiras lança um apelo à comunidade internacional para que intensifique os esforços no sentido de dar início às operações de remoção de minas e de desativação de engenhos explosivos nas zonas mais críticas do país. A organização humanitária apela ainda a investimentos na traumatologia de emergência, sobretudo nas zonas mais isoladas, e no desenvolvimento de serviços completos de assistência às vítimas, desde a reabilitação física até ao apoio psicológico.

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