"O cinema, quando autêntico, não se limita a consolar; desafia. Dá nome às perguntas que habitam em nós e, por vezes, até às lágrimas que não nos apercebíamos que precisavam de ser derramadas", afirmou o Papa Leão XIV numa audiência concedida, a 15 de novembro de 2025, a cerca de 200 personalidades da indústria cinematográfica, no Vaticano.
Estas questões que nos interpelam, trazem consigo outros temas, desafios quotidianos, a tentação, as lutas internas e a espiritualidade, bem como o sentido da vida e da morte. É em todas estas realidades que se inspira o produtor e roteirista marfinense, Jean Charles Bitty, para projetos cinematográficos dedicados à evangelização.
Filho do conceituado dramaturgo marfinense, Bitty Moro, Jean-Charles cresceu mergulhado no mundo do teatro e da realização cinematográfica antes de trilhar o seu próprio caminho na comunicação institucional e, mais tarde, no cinema. Hoje, aventura-se pelo mundo do cinema de evangelização católica em África, procurando pôr a arte cinematográfica ao serviço da fé e falar tanto a crentes como a não crentes — sobretudo aos jovens, aos quais o Papa Leão XIV incentivou a "construir a civilização do amor e a ser artesãos de paz no seio de sociedades tentadas a instrumentalizar a religião para pôr identidades umas contra as outras".
"Quando a fé se torna um alvo, a verdade torna-se uma arma". Este tema é evidente na obra do cineasta marfinense. Em entrevista aos meios de comunicação do Vaticano, ele fala da importância do cinema de evangelização numa sociedade sedenta do Evangelho, pois, como afirmou o Papa: "O cinema é muito mais do que apenas uma tela. É uma procura sensorial onde a luz rompe as trevas e a palavra falada encontra o silêncio".
Jean-Charles Bitty, o senhor é produtor, roteirista e promotor de cinema de evangelização. O seu primeiro filme, “Dans le viseur du diable” (Na Mira do Diabo), foi estreado no passado mês de junho. O que é que conta esta obra, criada por um cristão como o senhor, envolvido na vida da paróquia Notre Dame de la Tendresse, em Abidjan?
É uma obra literária adaptada ao cinema. A estreia teve lugar na Catedral de São Paulo, em Le Plateau. O filme narra uma história vivida por muitos jovens em África nos últimos anos. O enredo gira em torno de um jovem viúvo, desempregado e pai de dois filhos, que enfrenta uma situação difícil. Então, um dia, um encontro inesperado resulta numa oferta de emprego feita por um bilionário enigmático, que o introduz num mundo de opulência. Mas há um preço a pagar. Estará ele disposto a pagá-lo? O filme retrata a batalha espiritual entre as forças do mal e a graça de Deus.
O título “Dans le viseur du Diable” é particularmente sugestivo. Por que razão escolheu estruturar a sua história em torno do tema da batalha espiritual?
Todos nós estamos na "mira do diabo", sejam sacerdotes, leigos, crentes ou não crentes. Foi exatamente isso que me inspirou a destacar este tema. Os jovens de toda a parte, tanto em África, como na Europa, nas Américas ou na Ásia, enfrentam frequentemente as mesmas tentações. Isto acontece cada vez mais, especialmente com o aparecimento das redes sociais, onde nem tudo pode ser controlado. Muitos jovens sentem-se atraídos pela luxúria e pelo dinheiro fácil; é esta a realidade que quisemos evidenciar no filme, que estreou a 12 de junho. Muitos jovens em África vivenciam este tipo de situações, existindo inúmeros testemunhos a este respeito. Queremos sensibilizar tanto os jovens como as famílias. Creio que devemos ter muito cuidado com o fascínio que certas oportunidades podem oferecer, oportunidades que não vêm necessariamente de Deus. E nós, enquanto jovens ou agentes pastorais, temos o dever de nos envolver na evangelização.
Foi precisamente a realidade que descreve que o levou a fazer do cinema uma ferramenta de evangelização? Ou, na sequência dos seus trabalhos anteriores, como peças de teatro e a distribuição de filmes nigerianos de temática não religiosos, sentiu o chamamento a dedicar-se à promoção do cinema católico de evangelização em África?
Dada a natureza sinodal da Igreja, é importante que os leigos assumam também o seu papel. Como leigo comprometido, enveredamo-nos peloo cinema de evangelização. Creio que a Igreja precisa de ocupar o seu lugar nesta esfera em África. O cinema é uma das novas formas de evangelização que devemos abraçar de todo o coração para chegar ao maior número de pessoas possível, cristãos e não cristãos. Sou filho de um cineasta; estou imerso no cinema africano há muito tempo. Não pretendo de modo nenhum julgar o trabalho dos outros, mas posso garantir que, se existe um grupo de pressão empenhado em propagar valores contrários aos nossos, ele fará pressão para que os promova. Mas eu decidi fazer filmes de evangelização para falar de paz, de amor e da importância de nos voltarmos para o Senhor em todas as circunstâncias; para falar de tolerância e de todos os valores ensinados por Cristo e pela Sua Igreja. O cinema cristão deve ocupar o lugar que lhe é de direito.
O seu desejo ardente de evangelizar através do cinema é palpável. Isto talvez explique a escolha do Padre Abekan, da Arquidiocese de Abidjan, como ator neste filme. Aliás, não é a primeira vez que ele faz isto, não é?
Ele é uma pessoa muita aberta ao mundo da arte e compreende as realidades enfrentadas pelos jovens, como de resto pelos leigos também. Ele é inteligente e perspicaz e tem e capta facilmente a evolução das coisas. É muito conhecido em África, profundamente amado e admirado pelo seu empenho, pelo seu trabalho e por tudo o que faz pela Igreja. Posso garantir que aqueles que viram a sua atuação apreciaram o seu talento. Para além de o papel refletir a sua experiência real do dia-a-dia (enquanto padre exorcista), interpretou-o de forma magnífica. É uma das sequências mais icónicas do filme.
A obra trata de realidades espirituais. Ela centra-se num bilionário que utiliza poderes místicos para controlar tudo e causar danos. Foi precisamente por isso que foi necessário trazer um exorcista. E, graças a Deus, conseguimos o exorcista da Diocese de Abidjan, que demonstrou realmente que este é o seu trabalho diário. De salientar que o Padre Abekan teve a autorização dos seus superiores para atuar.
Gostaria de sublinhar que o Bispo da Diocese de Abidjan, Cardeal Ignace Bessi Dogbo, tem sempre apoiado as iniciativas ligadas à Nova Evangelização, nomeadamente através da criação de um Secretariado Executivo Diocesano para o Laicado e de um Secretariado Diocesano para a Cultura. O seu significativo envolvimento permitiu-nos percorrer as paróquias para lançar o projeto e promover o filme. Como ele próprio afirmou: "A evangelização através do cinema é um meio que vai ao encontro das expectativas da Nova Evangelização. É fundamental que a abracemos para que o Evangelho possa chegar a lugares onde a homilia não chega. Elogio esta maravilhosa iniciativa do nosso irmão, Jean Charles Bitty; ele está a abrir novos caminhos e, tal como Cristo incentivou Pedro a lançar as redes, ele está também a lançar as suas redes em águas profundas".
A evangelização através do cinema exige grande sacrifício e recursos significativos. Isto comporta grandes dificuldades para si?
O projeto foi autofinanciado. Não tínhamos capital inicial, mas conseguimos realizá-lo. Posso garantir que não recebemos ajuda nem subsídios; apoiamo-nos uns aos outros financeiramente, como amigos, para produzir um filme de alta qualidade. Além disso, cada um de nós enfrentou provações espirituais durante este período, pelo que recorremos muito à oração. Posso confirmar que a evangelização através do cinema exige recursos substanciais e sacrifício. Convidamos todas as pessoas de boa vontade, e todas as organizações que desejem apoiar o cinema orientado para a evangelização, a não hesitarem em fazê-lo. Certamente não foi fácil. Mas precisávamos de acreditar em nós mesmos e ter fé em Jesus Cristo, pois é para Ele que estamos a criar este cinema de evangelização.
Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui.