A Igreja Católica em África deu um passo inédito no compromisso continental com a educação. Pela primeira vez, o Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (SECAM) reuniu bispos, educadores, responsáveis de universidades e escolas católicas, religiosos, leigos, jovens e parceiros para uma Conferência Continental sobre Educação Católica, realizada em Adis Abeba, de 5 a 8 de agosto.
O encontro culminou, a 7 de agosto, com a adopção da Declaração de Adis Abeba sobre a Educação Católica, que apresenta a educação como uma dimensão essencial da missão evangelizadora da Igreja e como instrumento privilegiado para o desenvolvimento integral das pessoas e dos povos africanos.
Para o Presidente do SECAM, Cardeal Fridolin Ambongo Besungu, OFM Cap, a iniciativa responde a uma necessidade fundamental da missão da Igreja.
“Não podemos falar de evangelização sem educação”, afirmou o Cardeal à Vatican News, sublinhando que a evangelização implica também o desenvolvimento integral da pessoa humana. “Para fazer isso, precisamos de educação. Precisamos de formação.”
O Cardeal Ambongo considerou a conferência “muito importante”, precisamente porque a educação constitui um dos grandes desafios que a Igreja enfrenta actualmente no continente. Expressou igualmente a esperança de que os frutos do encontro possam acompanhar as Igrejas locais no regresso aos seus respectivos países e ajudar a traduzir as reflexões em iniciativas concretas.
A dimensão integral da educação esteve também no centro das palavras do Arcebispo Brian Ngozi Udaigwe, Núncio Apostólico na Etiópia. Para o representante pontifício, o actual sistema educativo africano precisa de ir além da obtenção de diplomas e preparar jovens capazes de aplicar concretamente os conhecimentos adquiridos.
“Não se trata apenas de obter diplomas, mas de diplomas que sejam práticos”, afirmou à Vatican News, questionando por que razão os países africanos formam engenheiros e outros profissionais, mas continuam muitas vezes a recorrer ao exterior para realizar grandes projectos de infra-estruturas.
O Arcebispo Udaigwe destacou a visão de uma educação holística promovida pelos últimos dois Papas, Francisco e Leão XIV, e defendeu que as escolas católicas devem ser um exemplo dessa abordagem. A educação, explicou, deve tocar “o coração, a cabeça e a mão”: formar intelectualmente, humanamente e espiritualmente, mas também preparar para a prática e para o serviço.
Esta formação integral, acrescentou, deverá também capacitar os católicos para assumirem responsabilidades na sociedade, incluindo na política. “Não devemos ter medo”, afirmou,
Para o Bispo Joaquim Nhanganga Tyombe, da Diocese Católica do Uíje, a importância da primeira conferência continental está também na possibilidade de criar um espaço permanente para que a África pense a sua própria educação.
“Espero que se consolidem estes tipos de encontros que recolhem contributos de diferentes partes de África em termos de pensar a própria educação”, disse à Vatican News.
Mas, segundo o bispo angolano, o processo não pode permanecer apenas a nível de ideias, reflexões ou pesquisas. É necessário passar à implementação e encontrar uma síntese entre as novas perspectivas educativas e a riqueza das tradições africanas, de modo a formar pessoas “africanas no verdadeiro sentido da palavra”.
Dom Joaquim Tyombe, que tem uma longa experiência no campo educativo, salientou ainda a importância de colocar ao serviço deste processo a experiência prática, a reflexão académica e as experiências pastorais, contribuindo para uma educação católica “efectiva e eficaz” no continente.
A necessidade de uma colaboração mais estreita entre a Igreja e as instituições continentais foi igualmente destacada pelo Dr. Gaspard Banankimbona, Comissário da União Africana para a Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação.
Considerando a conferência “há muito esperada” do ponto de vista da educação católica, o responsável recordou o papel histórico da Igreja Católica no desenvolvimento da educação formal em África.
“É uma oportunidade para a Igreja Católica desempenhar um papel ainda maior a nível continental”, afirmou à Vatican News, garantindo a disponibilidade da União Africana para caminhar e cooperar com a Igreja na realização dos objectivos da Agenda 2063 – “A África que Queremos”.
A Declaração de Adis Abeba reconhece a educação católica como “um ministério essencial da Igreja, um instrumento privilegiado de evangelização e uma força poderosa” para a formação do carácter e o desenvolvimento humano integral.
Entre os compromissos assumidos estão o reforço da identidade católica das instituições educativas, a excelência académica aliada à formação espiritual, moral, social e ecológica, a formação contínua dos educadores, a salvaguarda de crianças e pessoas vulneráveis, e a ampliação do acesso à educação de qualidade para os pobres, deslocados e marginalizados.
O documento convida ainda a investir nas novas tecnologias e no uso ético da inteligência artificial, a promover a investigação, inovação, empreendedorismo e desenvolvimento de competências, e fortalecer a colaboração entre escolas, universidades, seminários, congregações religiosas e Conferências Episcopais.
Um dos passos propostos é a criação de uma Comissão Episcopal do SECAM para a Educação Católica, encarregada de desenvolver um quadro continental, promover mecanismos de colaboração e avaliação e incentivar cada Conferência Episcopal a elaborar planos nacionais de implementação.
Ao concluir a Declaração, os participantes confiaram este caminho à intercessão de Maria, Sede da Sabedoria, renovando o compromisso de formar “discípulos fiéis, profissionais competentes, líderes éticos, empreendedores inventivos e cidadãos responsáveis”.
A partir de Adis Abeba, a Igreja em África procura assim transformar uma primeira conferência continental num processo duradouro: uma educação que não se limite a transmitir conhecimentos, mas que forme pessoas capazes de servir, criar, liderar e contribuir para um futuro de maior justiça, paz e esperança no continente.
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