Tudo decorre de uma moratória de 1997 sobre todas as novas explorações de combustíveis fósseis. O apelo partiu de um grupo de organizações não-governamentais, que decidiu apresentá-lo no encontro de cúpula sobre o Clima em Quioto. No documento, lê-se: “A combustão de petróleo, gás e carvão é a principal causa humana das mudanças climáticas. É preciso introduzir uma moratória e acabar com todas as formas de subsídios pela extração de combustíveis fósseis”. O texto exige também que todos os projetos energéticos atuais e futuros sejam avaliados “de acordo com as comunidades mais envolvidas, a fim de respeitar seus direitos de bloqueá-los”; o reconhecimento da dívida ecológica, sobre o impacto dos combustíveis fósseis, a ser incluído nas negociações climáticas, e a introdução da obrigação por parte dos responsáveis de restaurar as áreas afetadas pela exploração de petróleo, gás e carvão. Enfim, as ONG pedem aos governos que utilizem fundos públicos para fontes limpas e renováveis, que poderiam servir aos mais de 2 mil milhões de pessoas, que não dispõem de energia suficiente.
Transcorreram pouco menos de 30 anos daquela moratória. Dia 24 de abril, a cidade colombiana de Santa Marta foi sede da I Conferência internacional para a transição de combustíveis fósseis, organizada pela Colômbia e pelos Países Baixos. O evento referia-se à necessidade comum de fazer progressos, diante de outros encontros de cúpula estagnados, como as várias Conferências da ONU sobre o Clima. A I Conferência começou depois da “COP 30” em Belém, no último mês de novembro, que terminou sem nenhuma referência explícita à “transitioning away” ("fase de transição"), ou seja, à fuga dos combustíveis fósseis, que, ao invés, foi o resultado histórico da “COP 28” em Dubai.
A cidade colombiana de Santa Marta foi lugar de discussão, quando se decidiu organizar uma II Conferência em 2027, tendo Tuvalu e Irlanda como coorganizadores, estabelecendo um grupo de coordenação, composto pelos países líderes das várias alianças e pelos coanfitriões das duas edições, em conexão com o Grupo de Ativação da COP30. Na ocasião, foi anunciado o nascimento do “Painel Científico para a Transição Energética Global” (Spget), para ajudar os Estados a superar obstáculos legais, financeiros e políticos para transição rumo ao objetivo de 1,5°C.
Num contexto de crise de preços e tensões no Médio Oriente, que evidenciaram os riscos da dependência energética, - uma vez que muitas nações dependem de combustíveis fósseis de 75-90% do seu cabaz energético, - mais de 170 organizações religiosas, que representam mais de 33 milhões de europeus, lançaram um apelo à União Europeia, por ocasião do início da Presidência irlandesa do Conselho da UE, para que os grandes poluidores tenham que pagar e que se passe a uma transição justa e rápida para além dos combustíveis fósseis. A iniciativa, denominada "Europa, seja fiel à nossa Casa comum", reúne uma coalisão ampla e transversal do mundo católico e cristão europeu: Aliança Europeia das Organizações de Mulheres Católicas (Andante), Comitê Central dos Católicos Alemães (ZdK), Como o Movimento Laudato Si', Caritas Europa, Cidse, Jesc, Justiça e Paz Europa, Pax Christi International, Conferência Internacional do Escotismo Católico, Trócaire, Christian Aid Ireland, Acli, Action Catholic e Focsiv.
O pedido das organizações cristãs à EU refere-se, essencialmente, a quatro ações imediatas, tendo em vista a abertura das negociações sobre o novo “Quadro Financeiro Plurianual”: eliminação gradual, rápida e justa dos combustíveis fósseis; taxa permanente sobre os lucros extras das empresas de petróleo e gás, para financiar a transição energética; investimentos maciços em energia limpa, eficiência energética e eletrificação, no respeito dos direitos das populações indígenas e das comunidades locais e inclusão estrutural do financiamento climático no orçamento da UE.
O apelo das organizações cristãs é acompanhado de números alarmantes: as seis maiores empresas europeias de petróleo e gás teriam registado, juntas, lucros de 22 bilhões de dólares, só no primeiro trimestre deste ano de 2026, um valor trimestral mais elevado desde 2022. Um estudo da “Global Witness” estima também que as emissões resultantes da produção das empresas petrolíferas da EU, provenientes do Acordo de Paris, causarão cerca de US$ 1,5 trilhão em prejuízos climáticos globais. A diretora executiva do Movimento Laudato Si', Lorna Gold, associou estes dados às ondas de calor, que já afetam a Europa, enfatizando que o problema tende a piorar se não for controlado; mas observou também que poderia haver soluções se os políticos escolherem o caminho da coragem e do bem comum. Esta mobilização não é isolada, mas faz parte de uma reflexão teológica católica mais ampla, desenvolvida em vista de uma iniciativa internacional, conhecida como “Tratado sobre Combustíveis Fósseis” (TCF), projeto apoiado também pelo Movimento Laudato Si', CAFOD (Agência Católica para o Desenvolvimento Ultramarino), CIDSE (Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e a Solidariedade), Caritas International e Jesuítas.
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