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Dom Gazzera: a Igreja continua semeando paz na República Centro-Africana

“O assassinato do Padre Crépin Martial Monga é uma tragédia que não deve deter o Evangelho, tampouco a esperança. Seu sacrifício deve suscitar um doloroso momento de reflexão, onde o el...

Dom Gazzera: a Igreja continua semeando paz na República Centro-Africana

“O assassinato do Padre Crépin Martial Monga é uma tragédia que não deve deter o Evangelho, tampouco a esperança. Seu sacrifício deve suscitar um doloroso momento de reflexão, onde o elemento da paz deve continuar a ser importante": foi o que disse Dom Aurélio Gazzera, bispo titular de Bangassou, ao falar do vigário da paróquia de São João Batista, em Zémio, na mesma diocese, no sudeste da República Centro-Africana, fronteira com o Sudão do Sul e o Congo. O jovem sacerdote, de pouco mais de 30 anos, ordenado há cinco anos, foi assassinado no último dia 29 de junho. Pertencente à Sociedade das Missões Africanas, ele retornou à diocese onde nasceu, uma área de conflito muito problemática. O bispo destacou ainda: "Durante o último ano, de modo particular, houve combates, fortes tensões entre um grupo rebelde, soldados do governo e as tropas russas do Grupo Wagner, que apoiam o governo. O Padre Crépin trabalhou arduamente para acolher os refugiados internos. Na nossa missão, chegamos a acolher cerca de 3.000 pessoas. Depois, há muitas pessoas, cerca de 35 mil, que fugiram do país, atravessando o rio, e se refugiaram no Congo".

“Padre Crépin Martial Monga, - diz o prelado - também foi um grande mediador, porque tentava manter contato com os vários líderes rebeldes, as autoridades e a população, a fim de tentar limitar os danos e encontrar soluções para os problemas existentes. Naquela área, abandonada há pelo menos 30 anos, as estradas são terríveis, mas o Estado faz pouco ou nada". E Dom Aurélio Gazzera acrescenta: “A região fronteiriça, caracterizada por uma forte identidade étnica, conta com a presença de rebeldes do Exército de Resistência do Senhor (LRA), liderado por Josef Kony. Trata-se de um grupo rebelde conhecido por sequestrar crianças para transformá-las em soldados e por praticar violência sistemática contra civis”. O Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão contra o seu líder, por mais de 30 acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. “Foram anos de massacres; - afirma Dom Gazzera - depois, em 2013-2014, houve uma onda de violência, por parte de outra aliança de grupos rebeldes, Seleka, que causou também mais massacres, sempre sob o olhar atento do Estado e da comunidade internacional, que nada fizeram".

Após a terrível onda de violência, grupos de jovens se armaram para libertar as aldeias dos rebeldes e dos homens de Kony, chegando até a conseguir seu objetivo, a ponto de o governo decidir a recrutá-los, criando uma tropa com os russos do Grupo Wagner, que, no entanto, gerou outros graves problemas. Hoje, a situação tornou-se realmente dramática, por vários motivos, como explica Dom Gazzera: “Um dos problemas são as estradas em péssimo estado. Por exemplo, um saco de cimento que custa 15 euros em Bangui, em Zémio custa entre 75 a 80 euros. Isso dá uma ideia aproximada do preço de outros produtos, do açúcar ao petróleo, que torna a exportação e a venda impossíveis. Tudo isso sufoca a região: de um lado, o problemático elemento econômico; de outro, a questão dos grupos rebeldes, as tensões com o governo e a sua incapacidade de tratar, com seriedade, os problemas subjacentes”. Por outro lado, diz ainda Dom Gazzera: “Nós, bispos, escrevemos sobre esta situação, em maio do ano passado, quando eclodiram os primeiros confrontos.  Desde então, falamos de dois caminhos: diálogo e desenvolvimento, duas palavras-chave para garantir a paz na região. No entanto, até agora, estamos muito longe de atingir este objetivo. A Igreja, apesar dos pesares, continua a semear a paz”. Mas, o bispo afirma ainda: “Duas paróquias, em particular, Zémio e Obo, estão no ‘olho do furacão’; mas, graças, sobretudo, ao trabalho do pároco e dos sacerdotes, grande parte dos rebeldes depôs as armas e busca seguir outra estrada. Este é um fato positivo e queremos continuar trabalhando neste sentido".

Durante o rito de exéquias, Dom Aurélio Gazzera afirma: “Padre Crépin Martial Monga não morreu por acaso, - citando os testemunhos das pessoas que diziam que os assassinos o procuravam. - Não sabemos quem está por trás de tudo isso, mas vamos tentar descobrir. Não estamos acusando ninguém, em particular, porque não temos provas concretas". No entanto, a impressão geral é que, com o ataque ao sacerdote, eles queriam interromper o processo de paz, enviando um sinal forte dizendo: "Não queremos nenhum tipo de discussão e devemos continuar a guerra". Porém, a obra dos que querem a paz não vai cessar, nem mesmo com o sacrifício do sacerdote, conclui Dom Gazzera, que optou por celebrar as exéquias, na última quarta-feira, 1º de julho, com os paramentos de cor vermelha e não roxa ou branca, porque na sua opinião, “o sacerdote é um mártir desta obra de paz”. E concluiu sua homilia, dizendo: “Não devemos desanimar, mas assegurar que o sacrifício do padre Crépin possa produzir frutos de paz, reconciliação e perdão".

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