Dom Oriolo - Bispo da Igreja Particular de Leopoldina MG
Xenófanes de Cólofon (570–480 a.C.), filósofo e poeta da Grécia Antiga associado à tradição eleática ao lado de Parmênides e Zenão de Eleia, expressava seus ensinamentos por meio da poesia. Ele argumentava que o homem é um criador que inventa as divindades à sua própria imagem e semelhança, projetando nelas características humanas, físicas e imperfeitas. Por isso, Xenófanes rejeitava a ideia de que a divindade possui aparência, desejos ou forma física, criticando essa atribuição de traços humanos ao divino como antropomorfismo.
O texto bíblico mais antigo que atribui a Deus a criação do homem e das coisas criadas é a narrativa javista, assim como consta no livro do Gênesis. É o inverso do pensamento de Xenófanes. Essa descrição vai além, manifestando que o ser criado por Deus é constituído de um princípio material, espiritual e vital. É um ser material porque Deus o modelou com a argila do solo e espiritual e vital, porque Deus soprou em suas narinas um hálito de vida, tornando-se um ser vivente (cf. Gn 2,7).
Ao criar o homem, Deus lhe concedeu a capacidade do conhecimento do bem e do mal. O conhecimento do bem e do mal era algo reservado somente a Deus. O autor javista deixa a situação bem explícita: “podes comer de todas as árvores do jardim” mas da árvore do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer” (Gn 2,16b-17)
Desse modo, o cuidado divino, o seu zelo e sua providência em relação às necessidades do ser humano, requerem a sua adesão. Essa adesão permite que a manifestação do verdadeiro amor divino seja fonte de autêntica amizade com Deus. (cf. Gn 2,17; Gn 3,8-9).
Reconhecemos, assim, que a faculdade do conhecimento foi concedida por Deus a todos nós, manifestando‑se na própria criação, a qual se realiza pela graça divina. Em contrapartida, o homem, criou a máquina que tem impactado a vida dos seres criados.
Esse princípio fundamental demonstra que a faculdade do conhecimento, como dom divino, está intrinsecamente ligada à responsabilidade moral do homem e à sua cooperação com a providência divina, exigindo, assim, um livre exercício da razão ao serviço do amor e da verdade.
No entanto, partindo da concepção antropomórfica dos deuses, denunciada por Xenófanes, até a narrativa bíblica do homem criado à imagem e semelhança do criador, percebe-se um verdadeiro upgrade. O ser humano deixa de ser mero inventor de mitos e etiologias à sua imagem para se tornar um ser dotado de razão, inteligência, vontade, conhecimento, vida e responsabilidade moral recebidas do próprio Deus. Destarte, é a partir dessa herança divina que a humanidade, nas últimas décadas, assume um novo papel criador ao conceber máquinas capazes de pensar e agir racionalmente. Contudo, o desafio contemporâneo reside em saber se essa Inteligência Artificial se espelhará nos deuses imperfeitos inventados pelos homens ou refletirá a sublime capacidade de raciocínio, discernimento e busca pela verdade concebido pelo Deus da Bíblia ao ser humano.
Entre a crítica de Xenófanes à projeção humana sobre os deuses e a afirmação bíblica de que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus, podemos perceber duas concepções distintas da relação entre o humano e o divino. Se, para Xenófanes, o homem tende a projetar suas próprias características sobre aquilo que denomina divino, a narrativa de Gênesis inverte essa lógica ao compreender o ser humano como criatura dotada de vida, inteligência, razão, liberdade e responsabilidade. O conhecimento, nesse horizonte, não se reduz à capacidade técnica, mas implica discernimento moral e abertura à verdade (cf.MH 97-105).
Como síntese conciliadora, a reflexão do papa Leão XIV, no parágrafo 233 da encíclica Magnifica Humanitas, ilumina a era da Inteligência Artificial quando afirma que: “em Cristo compreendemos que o homem é chamado a ser colaborador na obra da criação, em vez de espectador resignado de processos tecnológicos que restringem a sua liberdade e responsabilidade. A dignidade que o Espírito Santo grava em cada um de nós reconhece-se também na capacidade de refletir de modo crítico, de escolher e de amar gratuitamente, de estabelecer relações autênticas”. (...) mesmo quando as máquinas se destacam pela eficiência, o centro da história continua a ser o rosto humano que pede para ser olhado.
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