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A inteligência artificial na medicina à luz de Magnifica humanitas

Padre Marcio Tadeu - Sacerdote na Diocese de Votuporanga (SP) Caminhos se cruzam em um ponto de importante reflexão para nossos dias: o debate ético sobre o uso da inteligência artifici...

A inteligência artificial na medicina à luz de Magnifica humanitas

Padre Marcio Tadeu - Sacerdote na Diocese de Votuporanga (SP)

Caminhos se cruzam em um ponto de importante reflexão para nossos dias: o debate ético sobre o uso da inteligência artificial na Medicina. Na primeira encíclica do pontificado de Leão XIV, o pontífice lança um olhar cuidadoso sobre os maravilhosos avanços e os usos da inteligência artificial. Não discorre diretamente sobre as ciências médicas e as possibilidades de diagnósticos mais rápidos, triagens automatizadas ou consentimentos livres e esclarecidos pressionados por algoritmos obscuros. Trata, sim, da importância de continuarmos humanos, mesmo quando a técnica se desenvolve para fazer por nós aquilo que sempre foi nossa responsabilidade.

Na conhecida metáfora bíblica de Babel, a torre erguida pelas forças humanas, sem espaço para Deus nem para a pluralidade, o Papa alerta para o risco de o poder forjado pelas IAs silenciar as vozes dos vulneráveis e comprometer a responsabilidade compartilhada pelo desenvolvimento ético da humanidade. A encíclica não trata simplesmente de aceitar ou rejeitar as tecnologias. A questão é: qual modelo de humanidade estamos construindo a partir delas?

Nas ciências médicas, essa pergunta se aprofunda, pois um sistema de apoio à decisão clínica ou uma ferramenta de diagnóstico é mais um instrumento nas mãos de quem já carrega a responsabilidade de cuidar. Contudo, pode transformar-se em Babel quando a eficácia do sistema passa a decidir sozinha e faz do médico aquele que apenas assina. O problema não está no algoritmo em si, mas em quem continua no centro da decisão.

Isso se conecta diretamente com algo que a encíclica trata com uma clareza que eu não esperava encontrar em um documento sobre inteligência artificial. Ao descrever as IAs, o Papa afirma que elas imitam funções da inteligência humana, superando o ser humano na velocidade dos cálculos, mas permanecem limitadas ao tratamento que se dá aos dados. Ou seja, uma inteligência artificial não tem corpo, não sente dor nem alegrias, não amadurece pela relação entre pessoas e, sobretudo, não possui consciência moral. Por isso, não pode assumir sobre si o peso das consequências de uma decisão que venha a produzir algum mal.

Um algoritmo pode até simular empatia, mas não pode se responsabilizar pela decisão tomada na vida de um enfermo. Esse é um ponto crucial da Bioética aplicada às IAs: a responsabilidade final pelo diagnóstico e pela conduta clínica permanece com o profissional, mesmo diante de toda a ajuda que a inteligência artificial possa oferecer.

A encíclica adverte para a grave relação com os algoritmos e para o risco de confundir a simulação com o real. Pensemos, por exemplo, nos novos vulneráveis digitais em uma triagem de telemedicina, na qual o classificador que antes seria operado por um enfermeiro passa a ser uma inteligência artificial. Quando a tecnologia deixa de apoiar e passa a ser o “ente” da ação, o encontro entre quem sofre e quem cuida se perde no processo. Perde-se também uma dimensão fundamental do cuidado em saúde: o próprio encontro pode curar, muitas vezes antes mesmo do remédio.

Uma das soluções mais promissoras para conciliar o avanço das inteligências artificiais com os princípios da Bioética é o modelo conhecido como physician in the loop, no qual a IA atua como instrumento de apoio, e não como substituta da decisão médica. Nesse modelo, a inteligência artificial pode analisar grandes volumes de dados, auxiliar na identificação de padrões, sugerir diagnósticos ou indicar possibilidades terapêuticas, mas cabe ao médico interpretar essas informações à luz da história, das necessidades e da singularidade de cada paciente. Assim, preserva-se a responsabilidade humana diante da decisão clínica e evitam-se os riscos de transformar uma recomendação algorítmica em uma verdade absoluta.

É possível que todos os avanços que a inteligência artificial promete à Medicina e a outras áreas do conhecimento sejam benéficos, desde que não obstruamos o pertencimento humano à arte do encontro que sustenta o cuidado. Trata-se de uma conclusão promissora, simples em sua elaboração, mas complexa em sua implantação, pois qualquer hiato nas relações do homem com o homem acrescenta mais um andar à torre de Babel.

Padre Marcio Tadeu Reiberti Alves de Camargo – Sacerdote na Diocese de Votuporanga(SP), Pároco, Professor, Pós-graduado em Bioética pela Cátedra da UNESCO e Apresentador na Rede Vida.

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