“O pastor parte, mas permanecem as sementes que lançou, as comunidades que fortaleceu, as vocações que acompanhou e, sobretudo, o testemunho de uma vida entregue ao serviço de Deus e do seu povo”. Com estas palavras, o Arcebispo de Maputo e Vice-Presidente da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), Dom João Carlos Hatoa Nunes, resumiu o legado do Cardeal Emérito Júlio Duarte Langa, durante a Missa exequial celebrada no Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, em Chongoene.
O segundo cardeal da história da Igreja Católica em Moçambique morreu na segunda-feira, 3 de agosto, aos 98 anos. Ao longo de décadas de ministério, serviu a Igreja e o povo moçambicano, tendo sido Bispo de Xai-Xai durante 28 anos, incluindo o período da guerra civil, e desempenhado diversas responsabilidades na Conferência Episcopal de Moçambique.
A celebração reuniu milhares de fiéis, sacerdotes, religiosos e religiosas, bispos e representantes das autoridades civis, numa expressão de gratidão pela vida de um pastor cuja influência ultrapassou os limites da sua diocese.
Na homenagem da CEM, lida por Dom João Carlos Hatoa Nunes, Dom Júlio foi apresentado como “um irmão no episcopado”, com quem os bispos de Moçambique partilharam a solicitude pelas Igrejas particulares e pela missão evangelizadora no país.
Durante largos anos, o Cardeal Langa participou activamente na vida da Conferência Episcopal, colocando a sua experiência pastoral, serenidade e sabedoria ao serviço do discernimento comum.
Entre outras responsabilidades, presidiu às Comissões Episcopais para os Migrantes e Refugiados e para a Saúde. Para a CEM, estes serviços revelam a atenção particular de Dom Júlio aos mais vulneráveis e a sua capacidade de reconhecer Cristo nos “pobres, nos doentes, nos migrantes, nos refugiados e nos deslocados”.
O seu ministério episcopal atravessou alguns dos períodos mais difíceis da história recente de Moçambique. Em tempos de guerra, pobreza e profundas transformações sociais, “Dom Júlio permaneceu junto do seu povo, anunciando o Evangelho e promovendo a esperança, a paz e a reconciliação”, afirmam os Bispos.
O Administrador Apostólico de Xai-Xai, Arcebispo Francisco Chimoio, O.F.M. Cap., recordou os últimos dias do Cardeal e a esperança de que pudesse se recuperar da doença que o levou ao hospital.
A notícia da morte, recebida nas primeiras horas de 3 de agosto, foi seguida por uma onda de mensagens de pesar provenientes de diversas partes do país.
Para Dom Chimoio, essas manifestações revelaram a profunda ligação do Cardeal ao povo: “Este homem foi conhecido, foi amado e soube deixar-se amar também”.
As celebrações realizadas nos dias seguintes, tanto em Maputo como em Xai-Xai, confirmaram essa dimensão do seu testemunho, com numerosas pessoas a expressarem gratidão pelo impacto que o pastor teve nas suas vidas.
Em representação do Presidente da República, Daniel Chapo, a deputada Verónica Macamo transmitiu uma mensagem de homenagem do Chefe de Estado.
O Governo moçambicano afirmou que se despede de “um grande pastor” que durante décadas educou, anunciou a importância da fé e ensinou, através da própria vida, o valor do serviço, especialmente aos mais necessitados.
“O mais importante é o que ele deixa: o legado”, afirmou, apelando para que a missão do Cardeal Langa continue através de um serviço concreto às comunidades e aos que mais precisam.
A representante presidencial agradeceu também à Igreja Católica pelo seu contributo para o país, descrevendo-a como “uma grande escola” onde as pessoas aprendem a tornar-se melhores e a servir a sociedade.
O legado do Cardeal Langa foi particularmente visível no acompanhamento das vocações.
A Irmã Clara Abílio, das Servas de Santa Maria do Cenáculo, recordou à Vatican News que conheceu Dom Júlio quando era ainda vocacionada. Foi ele quem a aconselhou e acompanhou no percurso até ao noviciado e à profissão religiosa, presidindo também à sua primeira profissão.
“Para mim, Dom Júlio foi pai e continuo a ser pai, mesmo lá na eternidade”, testemunhou.
A religiosa expressou a esperança de que o Cardeal continue agora, junto de Deus, a interceder pelas vocações e pelo crescimento das congregações religiosas nativas de Moçambique.
Na despedida, a Igreja em Moçambique confiou o Cardeal Júlio Duarte Langa à misericórdia de Deus, mas também recebeu o desafio de continuar as sementes que lançou durante a sua vida.
“Obrigado pelo vosso sacerdócio, obrigado pelo vosso episcopado, obrigado pelo serviço à Conferência Episcopal de Moçambique, obrigado pelo vosso amor à Igreja e ao povo moçambicano”, afirmou Dom João Carlos Hatoa Nunes.
E, sob o olhar de Nossa Senhora de Lourdes, no santuário onde agora repousa, pediu a sua intercessão pela Igreja e pelo país: “Para que nela prevaleçam sempre a paz, a reconciliação, a justiça e a fraternidade”.
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