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Maria Madalena e o amor que diz “eu vou buscá-lo”

Padre Robson Antonio da Silva -  doutor em Teologia sistemática, Diocese de Ourinhos As mulheres que aparecem no Evangelho não são figurantes na história da salvação. Elas participam at...

Maria Madalena e o amor que diz “eu vou buscá-lo”

Padre Robson Antonio da Silva -  doutor em Teologia sistemática, Diocese de Ourinhos

As mulheres que aparecem no Evangelho não são figurantes na história da salvação. Elas participam ativamente do caminho de Jesus, acolhem sua Palavra, servem sua missão, permanecem ao pé da cruz e tornam-se as primeiras testemunhas da Ressurreição.

Entre essas mulheres, Maria Madalena ocupa um lugar singular. Ela é uma das figuras mais luminosas do Novo Testamento. Sua presença junto ao túmulo vazio, descrita especialmente no Evangelho de João, revela uma força espiritual admirável. Ela chora, procura, permanece e ama. E, no centro dessa cena, encontra-se uma frase de extraordinária intensidade:

“Dize-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo” (cf. Jo 20,15).

Essa frase pode parecer simples, mas contém uma teologia inteira do amor. Maria Madalena não sabe onde está Jesus. Não compreende ainda o mistério da Ressurreição. Pensa que alguém tenha levado o corpo do Senhor. Mesmo assim, ela se dispõe a procurá-lo. Não pergunta se terá força suficiente. Não mede o peso do corpo. Não calcula os riscos. Não se intimida diante da impossibilidade. Ela apenas ama. E porque ama, diz: “eu vou buscá-lo”.

Essa é a força feminina que o Novo Testamento revela: uma força que nasce do amor fiel, que não se rende diante da ausência, que não foge diante da dor e que não aceita a morte como última palavra.

1. As mulheres no Novo Testamento: presença fiel na vida de Jesus

O ministério de Jesus é marcado por uma profunda valorização da mulher. Num contexto cultural em que a voz feminina frequentemente era silenciada, Jesus acolhe, escuta, cura, perdoa, envia e confia missões às mulheres.

No Evangelho de Lucas, lemos que algumas mulheres acompanhavam Jesus e os Doze:

“Os Doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com seus bens”

Esse texto é muito importante. Ele mostra que as mulheres não estavam apenas à margem, observando de longe. Elas participavam concretamente da missão. Ajudavam, serviam, sustentavam, caminhavam com Jesus. Entre elas aparece Maria Madalena, já apresentada como alguém profundamente tocada pela misericórdia do Senhor.

A expressão “da qual haviam saído sete demônios” indica uma libertação radical. O número sete, na linguagem bíblica, pode indicar totalidade. Maria Madalena é, portanto, a mulher profundamente restaurada. Sua vida foi tocada por Cristo de maneira plena. Ela conheceu a noite, mas também conheceu a luz. Conheceu a opressão, mas também conheceu a liberdade. Conheceu a ferida, mas também conheceu a cura.

Por isso, sua força nasce da experiência da misericórdia. Quem foi levantado por Cristo sabe permanecer com Ele. Quem foi encontrado pelo amor de Deus aprende a procurá-lo até nas horas mais escuras.

As mulheres aparecem também no momento da cruz. Quando muitos discípulos se dispersam, elas permanecem:

“Estavam ali muitas mulheres, olhando de longe; tinham seguido Jesus desde a Galileia, prestando-lhe serviços” (Mt 27,55).

“Estavam ali também algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago menor e de José, e Salomé. Elas o seguiam e serviam quando ele estava na Galileia”

E João recorda a presença feminina aos pés da cruz:

“Junto à cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena” (Jo 19,25).

Aqui aparece uma das dimensões mais profundas da força feminina no Novo Testamento: a capacidade de permanecer quando tudo parece perdido. As mulheres não conseguem impedir a crucifixão, mas permanecem. Não têm poder político para salvar Jesus, mas estão ali. Não podem retirar os cravos, mas sustentam com presença, lágrimas e amor.

A força delas não é barulhenta. É uma força de presença. E há situações em que permanecer é o maior ato de coragem.

2. Maria Madalena: a mulher que foi curada e permaneceu

Maria Madalena não pode ser compreendida apenas a partir da cena do túmulo vazio. Para entender sua grandeza, é preciso recordar que ela é uma mulher que fez um caminho com Jesus. Ela foi libertada, acompanhou o Mestre, esteve junto à cruz, viu onde o corpo foi colocado e voltou ao túmulo.

O Evangelho apresenta Maria Madalena como alguém que não abandona o Senhor. Ela está presente na paixão, na sepultura e na manhã da Ressurreição.

Em Marcos, ela vê onde Jesus foi colocado: “Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde ele era colocado” (Mc 15,47).