«Unimo-nos em oração pelas almas das vítimas e por suas famílias, por nossa nação e por todos aqueles que exercem funções de serviço público. Rezamos pelo fim da retórica desumanizante, do preconceito racial e da violência, e por um compromisso renovado em reconhecer a dignidade intrínseca de cada pessoa como filho de Deus». Assim se conclui a reflexão pastoral divulgada na segunda-feira, 20 de julho, pelos bispos Daniel Elias Garcia e Brendan John Cahill, presidentes, respectivamente, da Subcomissão para a Promoção da Justiça Racial e da Reconciliação e da Comissão para a Migração da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. A referência é a “alguns confrontos recentes com as forças de segurança no âmbito da imigração que causaram a perda de vidas humanas”. Na realidade, trata-se dos enésimos homicídios causados por intervenções imprudentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), a agência federal de combate à imigração e à criminalidade que atua no âmbito do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos.
No dia 7 de julho, em Houston, no Texas, enquanto acompanhava de carro uma equipe de trabalhadores a caminho de um canteiro de obras, Lorenzo Salgado Araujo, de 52 anos, de origem mexicana, foi morto a tiros por não ter parado na blitz policial. O mesmo destino foi o de Joan Sebastián Durán Guerrero, de 25 anos, de origem colombiana, que perdeu a vida em Biddeford, no Maine, no dia 13 de julho, nas mesmas circunstâncias (ele também estava a bordo de um carro). Ambos os episódios, além da indignação e incredulidade dos familiares, provocaram manifestações de protesto das comunidades de imigrantes e não apenas delas, a ponto de o ICE ter suspendido temporariamente as blitzes rodoviárias e solicitado a ampliação do uso de câmeras corporais pelos agentes.
«Como católicos – escrevem dom Garcia e dom Cahill – acreditamos que todas as pessoas são criadas à imagem e semelhança de Deus e, portanto, nos entristecemos com toda situação em que a vida humana chega a um fim não natural. Esse é um ensinamento fundamental da nossa fé e nunca nos cansaremos de proclamá-lo como discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo». Os bispos fazem referência à Mensagem especial publicada em novembro passado pela Conferência episcopal para expressar sua consternação «quando vemos, entre nosso povo, um clima de medo e ansiedade em relação às questões da discriminação racial e da aplicação das leis de imigração». A discriminação racial, em particular, “não apenas viola a dignidade concedida por Deus, mas também causa um dano profundo a indivíduos, famílias e comunidades, alimentando o medo, minando a confiança e aumentando o risco de desfechos injustos e até mesmo trágicos”.
Na declaração, os representantes do episcopado dos Estados Unidos reafirmam que os atos que menosprezam ou ignoram a dignidade de qualquer pessoa ou grupo de pessoas “nunca deveriam ser normalizados em nossa sociedade”. Entre esses atos está, justamente, “a desumanização dos imigrantes, independentemente de seu status jurídico”. Embora continuem a afirmar o papel legítimo das autoridades civis na aplicação da lei de forma humana e no respeito aos direitos humanos fundamentais, incluindo o direito à vida e ao devido processo legal, os dois bispos exortam a que o poder do Estado seja exercido “sempre dentro dos limites da lei moral”. Para isso, pedem responsabilidade, transparência e justiça, bem como reformas significativas no sistema de imigração.
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