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Santarém: fé e política, cidadania a serviço do bem comum, seminário regional

Aritana Aguiar - Arquidiocese de Santarém Regional Norte 2 da CNBB O encontro teve como objetivo fortalecer a articulação das escolas, promover a troca de experiências e refletir sobre...

Santarém: fé e política, cidadania a serviço do bem comum, seminário regional

Aritana Aguiar - Arquidiocese de Santarém Regional Norte 2 da CNBB

O encontro teve como objetivo fortalecer a articulação das escolas, promover a troca de experiências e refletir sobre a formação cidadã dos cristãos diante dos desafios da democracia, do bem comum e da realidade amazônica. A iniciativa foi realizada pela primeira vez na Região Norte e ocorreu no salão da paróquia São Raimundo Nonato, bairro Aldeia, em Santarém.

Para o arcebispo de Santarém e presidente do Regional Norte 2 da CNBB, dom Irineu Roman, o seminário foi uma oportunidade para aprofundar a formação política e humana dos cristãos em um contexto marcado pela polarização. “Fé e política são os dois elementos fundamentais que a gente procura trabalhar. Nós vivemos tempos de grande polarização. Às vezes, há quem incentive o ódio e faça guerra entre as pessoas por causa da política. Não é por aí. Como Igreja, nós queremos trabalhar a educação política e também a educação da fé, para que as pessoas trabalhem pelo bem comum, pelo respeito à dignidade da pessoa humana e em favor da democracia”, afirmou.

Dom Irineu destacou ainda a responsabilidade da Igreja diante dos desafios vividos na Amazônia. “Também é fundamental destacar a questão da proteção do meio ambiente, sobretudo porque estamos na Amazônia. A Amazônia é observada pelo mundo inteiro, e todos voltam seus olhos para esta região. Por isso, nós, lideranças vindas de diversas partes da Região Norte, nos reunimos neste seminário para promover a educação para a fé e a política a serviço do bem comum, da democracia, da dignidade humana e da vida. Nosso compromisso inclui ainda a proteção do meio ambiente, a defesa da Amazônia e de seus povos, para que possam exercer cada vez mais plenamente sua cidadania e contribuir para o desenvolvimento humano integral de toda a população”, ressaltou.

A coordenadora do CEFEP na Região Norte, Marilene Martins, ressaltou que o encontro esteve inserido na perspectiva da sinodalidade, proposta pela Igreja como caminho de escuta, participação e compromisso com a realidade do povo. “É preciso sair dos templos, dos ambientes fechados, e ir ao encontro do povo. A sinodalidade é isso: ir ao encontro do povo onde ele está. Falar de políticas públicas é falar de formação, é encantar a política e reconhecer a importância do leigo e da leiga no seu papel de cidadão, participando e se fazendo presentes nos conselhos de direito. Essa é a sinodalidade nossa amazônica”.

Segundo ela, um dos objetivos do seminário foi ouvir as experiências das escolas presentes na região para fortalecer sua atuação. “Estamos passando por um processo de escuta. A partir dessa escuta, vamos traçar metas, ver o que está dando certo, onde precisamos melhorar e o que precisa ser ampliado. Este encontro foi para ouvir as escolas, conhecer suas necessidades e pensar encaminhamentos para fortalecer essa caminhada”, explicou.

A formação política dos cristãos e a compreensão da política como instrumento de promoção do bem comum também estiveram entre os temas centrais do seminário. Para o secretário-executivo do CEFEP, Jardel Lopes, um dos desafios atuais é ajudar as comunidades a compreenderem que a fé possui uma dimensão social e política, em sintonia com a Doutrina Social da Igreja: “A fé tem uma dimensão política. A fé tem uma dimensão social. A fé tem uma dimensão profética. Então, o que envolve a vida do povo também deve envolver a Igreja”.

Segundo ele, ainda existe resistência quando temas ligados à participação social, à cidadania e à política são abordados nos espaços eclesiais. “Quando falamos de oração, espiritualidade e sacramentos, há uma aceitação muito boa. Quando falamos da vida do povo, das necessidades do povo e das questões políticas, econômicas e sociais que afetam a vida das pessoas, nós já temos uma rejeição maior sobre isso, associando diretamente a questão estritamente política, como se isso não fizesse parte do Evangelho. Faz parte do Evangelho”.

Nesse contexto, o CEFEP acompanha e colabora na articulação das diversas iniciativas de formação cidadã existentes no país: “Nós acompanhamos e colaboramos na articulação do conjunto das escolas que existem no Brasil. Fé e Política, Fé e Cidadania, Educação e Política, Educação e Cidadania; cada escola, às vezes, tem um nome diferente, mas, de algum modo, realiza o trabalho de formação cidadã e formação política das pessoas a partir das comunidades e paróquias", esclareceu Jardel Lopes. 

O Secretário - executivo do CEFEP destacou que o seminário regional possibilitou a troca de experiências e o fortalecimento da caminhada desenvolvida pelas escolas nos diversos estados amazônicos: “Esse foi o primeiro encontro das escolas da Região Norte. Foi um momento muito oportuno para partilhar a caminhada das escolas, os desafios e as experiências. A riqueza está justamente nessa troca, nesse intercâmbio de ideias, propostas e experiências”.

Além da partilha de experiências, o encontro também refletiu sobre os desafios enfrentados pela Amazônia. Jardel chamou atenção para os impactos que a exploração das riquezas naturais provoca na vida das populações da região. “Acredito que a Região Norte, por ser uma região com muitas riquezas naturais, vive um momento em que há uma investida muito grande do capital sobre as riquezas naturais e sobre os bens naturais. E isso afeta diretamente as comunidades, afeta diretamente os mais pobres, mas também afeta toda a população e, consequentemente, o planeta.”

A experiência das escolas também foi compartilhada pelos participantes do encontro. Representando a Escola de Fé e Política da Diocese de Macapá, Vinícius de Freitas destacou a importância do seminário como espaço de formação, convivência e fortalecimento da missão desenvolvida pelas escolas da região. “Esse encontro em que a Arquidiocese de Santarém nos abraçou e nos acolheu foi um momento de partilha, de convivência, de conhecimento e de renovação da nossa identidade enquanto escola. A expectativa que eu tenho é poder me aprofundar em conhecimento, conhecer novas realidades e renovar a vocação e o chamado para essa vida política. Não necessariamente partidária, mas uma vida política voltada para o bem comum, como o Papa Francisco coloca”.

Ao falar sobre a realidade vivida em sua diocese, Vinícius ressaltou que um dos principais desafios é abordar o tema da política nas comunidades eclesiais. “Falar de política não é fácil. Hoje, você chegar a uma Igreja Católica e falar a palavra ‘política’ é algo complicado. A gente vive uma divisão muito grande na sociedade, e a Igreja também não está separada disso. Existem preferências políticas e partidárias. Então, nós tentamos falar de política no sentido de conscientizar o leigo católico da necessidade de utilizar a política para o bem comum, dentro dos valores que a Igreja propõe”.

Apesar das dificuldades, ele destacou que a caminhada tem avançado graças ao apoio recebido na Diocese de Macapá. “Graças a Deus, temos o apoio do bispo e dos padres na compreensão da importância dessa formação. Existe a dificuldade, como em qualquer lugar, de fazer com que as pessoas participem dessas formações, mas seguimos caminhando na graça de Deus”.

O coordenador da Escola de Fé e Política “Santo Oscar Romero”, da Arquidiocese de Santarém, Thiago Rocha, ressaltou a importância de a Igreja Local sediar o encontro regional e reforçou o papel da formação política na missão evangelizadora da Igreja. “Falar de fé ligada à política é coisa de cristão. É fundamentalmente da alma do cristão conectar essas duas dimensões”.

Thiago também relacionou o trabalho das Escolas de Fé e Política à caminhada da Igreja na Amazônia, inspirada pelo Documento de Santarém, elaborado pelos bispos da região em 1972 e reafirmado nas comemorações de seus 40 e 50 anos. Segundo ele, a formação dos cristãos para o compromisso com a vida pública faz parte de uma missão assumida pela Igreja há décadas. “A Escola de Fé e Política cumpre esse papel que a Igreja vem procurando realizar há mais de 50 anos e que também é reforçado pelas novas diretrizes da CNBB. Uma das tarefas da Igreja é a formação do povo de Deus no que diz respeito à fé e à política. Como é que a gente compreende a arte de fazer o bem comum, de construir políticas públicas, como uma arte do cristão? Não é politicagem, não é partido A ou partido B. O detalhe é como a gente vive a vida política, seja no conselho de direitos, em um partido ou em um sindicato, à luz do Evangelho. Como é que eu posso ser sal e luz nesse lugar?”, salientou.

Ao final, Thiago destacou que a missão da Igreja é contribuir para a formação crítica dos cristãos diante da realidade. “É difícil em um ambiente polarizado, porque quando tratamos dessas questões, começamos a ser acusados. Mas esse é o nosso papel: possibilitar ao cristão e à cristã fortalecer sua mentalidade crítica e construir mais Reino de Deus aqui mesmo”.

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