A história moderna nos ensinou como a paz fundada na ameaça das armas não é uma paz sólida, mas um equilíbrio precário, vulnerável ao erro, à escalada e ao medo. A dissuasão promete segurança por meio da força; contudo, a realidade mostra que o acúmulo de armamentos tende a alimentar tensões, incidentes, conflitos por procuração e novas formas de instabilidade.
O Concílio Vaticano II descreveu a corrida armamentista como "um dos flagelos mais graves da humanidade" e afirmou que a paz não nasce do medo das armas, mas da confiança mútua, da justiça e do Estado de Direito. Na Pacem in Terris, São João XXIII clamou por uma redução simultânea e acordada dos armamentos, apontando a sua eventual eliminação como o objetivo necessário, pois a verdadeira paz não pode repousar sobre arsenais opostos.
Em sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026, o Papa Leão XIV escreveu que "a força dissuasiva do poder e, em particular, a dissuasão nuclear, encarnam a irracionalidade de uma relação entre os povos baseada não no direito, na justiça e na confiança, mas no medo e no domínio da força".
O conceito de dissuasão sustenta que possuir força militar suficiente para desencorajar um adversário evita a guerra. No entanto, os acontecimentos na Europa antes de 1914 demonstram o contrário: o rearmamento naval e terrestre em larga escala não impediu o conflito; pelo contrário, fomentou uma atmosfera de suspeita, rigidez estratégica e mobilização permanente que tornou a crise irreversível. Até mesmo a Guerra Fria, frequentemente citada como prova da eficácia da dissuasão, foi, na verdade, marcada por crises de alto risco que repetidamente levaram o mundo à beira de uma catástrofe nuclear.
O próprio Papa Leão XIV recordou recentemente um episódio revelador: em 26 de setembro de 1983, a decisão individual do oficial soviético Stanislav Petrov impediu que um falso alarme desencadeasse uma possível guerra nuclear global. Se a paz depende, assim, da capacidade destrutiva e de sistemas de armas mantidos em alerta máximo, um único erro técnico, acidente ou erro de cálculo é suficiente para lançar o mundo no abismo. Uma paz que depende de se evitar um erro por pouco não é uma paz garantida pelas armas, mas uma trégua ameaçada por essas mesmas armas.
Pesquisas empíricas também não oferecem fundamentos para afirmar que mais armas equivalem automaticamente a mais paz. Vários estudos quantitativos revelam uma ligação estatisticamente significativa entre o aumento das importações de armas e uma maior probabilidade de conflito interno em contextos frágeis, ainda que não demonstrem uma relação de causalidade necessária. Não obstante, as evidências disponíveis indicam que a dissuasão não constitui uma base historicamente confiável para a paz.
Norberto Bobbio, jurista laico atento às realidades históricas, reconhecia que "a maneira mais segura de eliminar a guerra seria destruir as armas"; contudo, considerava o processo politicamente complexo se deixado a cargo dos próprios Estados. A esse respeito, o filósofo, valendo-se de uma imagem pitoresca e paradoxal, comparou-os a um "congresso de bêbados" encarregado de proibir o álcool. No entanto, Bobbio não extraiu disso uma justificativa para a dissuasão; pelo contrário, via a necessidade de fortalecer instituições jurídicas supranacionais capazes de impor restrições reais à soberania armada dos Estados. Johan Galtung, o pai dos "estudos para a paz", argumentava que a "paz negativa", a mera ausência de guerra, é inerentemente instável, a menos que se enfrentem as estruturas subjacentes de violência e injustiça que a alimentam. Galtung insistia que a segurança baseada em armamentos gera apenas tréguas precárias; a "paz positiva" exige desarmamento progressivo, mediação de conflitos e a criação de instituições capazes de transformar disputas sem recorrer à ameaça da força armada.
Nesse ponto, o magistério mais recente tornou-se ainda mais explícito. O Papa Francisco descreveu a dissuasão nuclear como "inadequada" para as ameaças do nosso tempo e afirmou que a própria posse de armas nucleares é imoral.
O Papa Leão XIV aprofundou essa análise, escrevendo na introdução do volume "Disarmata e disarmante. La pace è un dono" (Desarmada e Desarmante: A Paz é um Dom): "Especialmente na era atômica, a verdade deve prevalecer: não são as armas atômicas que geram a paz, mas o desarmamento".
Na mesma Mensagem para o Dia Mundial da Paz, Leão XIV também observou que, em 2024, os gastos militares globais aumentaram 9,4% em relação ao ano anterior, atingindo 2,718 trilhões de dólares, o equivalente a 2,5% do PIB mundial. São números impressionantes; eles demonstram que o rearmamento não é uma anomalia, mas uma tendência estrutural, e confirmam um princípio fundamental do ensino da Igreja: todo recurso investido na corrida armamentista é desviado, pelo menos em parte, da educação, da saúde, da cooperação e do desenvolvimento humano. À luz dos documentos, dados e crises que marcaram a era moderna, a dissuasão não parece ser uma base segura para a paz, mas sim um mecanismo frágil que normaliza o medo e mantém a violência em constante prontidão. A conclusão mais realista não é a de que os arsenais salvam o mundo, mas a de que um mundo saturado de armas se torna mais instável, mais custoso e mais exposto a uma catástrofe irreparável. Além disso, o direito dos Estados à legítima defesa diante de uma agressão, reconhecido tanto pela doutrina social da Igreja quanto pelo direito internacional, não se confunde com a afirmação de que a dissuasão armada constitui o fundamento da paz.
Por isso, o desarmamento não é um sentimento abstrato, mas um imperativo histórico, moral e político. A tradição da Igreja, da Pacem in Terris e do Concílio até os ensinamentos de Francisco e Leão XIII, converge para um ponto preciso: a verdadeira paz não nasce do equilíbrio de ameaças, mas da confiança, do direito internacional, da diplomacia e de um paciente desarmamento material e espiritual.
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