Na entrevista conjunta da Renascença e da Agência Ecclesia, Pedro Carvalho, diretor do Departamento Nacional da Pastoral Juvenil em Portugal refere a participação dos jovens no processo sinodal e os caminhos de corresponsabilidade que estão a tentar empreender. O responsável responde aos jornalistas Henrique Cunha da Renascença e Octávio Carmo da Agência Ecclesia assinalando a realização de uma primeira assembleia de escuta e corresponsabilidade.
P: Historicamente, a Igreja tem muita facilidade em convocar os jovens para cantar, para animar, para tratar de logística, mas sente-se resistência em confiar responsabilidades de decisão e de execução autónoma. O que é que falta para que esta presença deixe de ser vista em tantos sítios como cosmética, como se fosse algo que é preciso para ficar bem na fotografia?
Primeiro temos de ser consequentes com aquilo que queremos e com os nossos objetivos. Nós já estamos a cumprir o quadro de referência que foi aprovado pelos bispos de Portugal. Que é o documento orientador da Pastoral Juvenil. Há lá uma coisa que são os órgãos de escuta.
E em Santarém, no Conselho Nacional, tivemos a primeira Assembleia Jovem de Escuta e Corresponsabilidade. Escuta, quer dizer que são só os jovens que estão a ser protagonistas dos temas e falam, numa sala ou no espaço aberto, dos temas que eles querem. E depois passam-nos a nós o seu pensamento e a partir daí prosseguimos com o nosso trabalho.
A Corresponsabilidade vem a seguir, e também é consequente, e isso significa que dois jovens desta Assembleia Jovem vêm trabalhar diretamente com o Departamento Nacional. E vão ser nossos assessores.
Isto é, vão trabalhar, perceber o trabalho que estamos a desenvolver, e depois fazer a ponte com os outros jovens de todo o país para percebermos as suas sensibilidades.
O que é que isto quer dizer? Nós temos de ser consequentes com os nossos pensamentos, temos de ser exemplo, e ser exemplo é dizer assim: Se queremos jovens protagonistas, eles têm de ser os protagonistas já. É isso que nós estamos a fazer neste momento, por exemplo, com esta Assembleia Jovem.
Também criámos o Laboratório de Liderança Jovem, em que 20 jovens de todo o país estão a capacitar-se, a empoderar-se em liderança sinodal, numa vertente de inovação, de inovação pessoal, inovação espiritual e também inovação para a liderança do impacto.
P: Essa mudança também é possível notá-la no processo sinodal? Os jovens estão envolvidos?
Os jovens estão envolvidos nas suas comunidades. Ainda vi há dias que em algumas dioceses, os jovens estão naquelas estruturas de sinodalidade.
No Departamento nós temos os jovens já a trabalhar connosco, porque sabemos que são eles que vão ser os jovens no futuro também a liderar. E vão ter que ser já os primeiros a ter projetos de liderança. E voltando a Seul, queremos pegar nesses jovens que fizeram este laboratório de liderança sinodal para que sejam eles os protagonistas nos projetos, ou atividades que venhamos a fazer.
Pedro Carvalho é diretor do Departamento Nacional da Pastoral Juvenil em Portugal.
Entretanto, a propósito do processo sinodal recordamos que a Igreja está a viver em todo o mundo a fase de implementação das conclusões do Sínodo que foram condensadas num documento publicado em outubro de 2024.
Em julho de 2025 a Secretaria Geral do Sínodo publicou um pequeno texto com o título “Pistas para a fase de implementação do Sínodo” do qual recordamos aqui o essencial.
Logo no primeiro ponto do documento é sublinhado que “crescer como Igreja sinodal exige um saber que se aprende só através da experiência e nos abre uma via para o encontro com o Senhor”.
A Secretaria Geral do Sínodo sublinha que esta “fase de implementação tem como objetivo experimentar práticas e estruturas renovadas, que tornem a vida da Igreja cada vez mais sinodal”.
E, em particular, destaca a fase de implementação como “uma oportunidade para manter vivo aquele intercâmbio de dons que faz crescer a comunhão”. Recorda a importância da “criatividade que inspira novas formas de praticar a sinodalidade”.
“O primeiro responsável pela fase de implementação em cada Igreja local é o bispo diocesano”, recorda o texto das Pistas para a implementação do Sínodo.
Assinala mesmo ser para os bispos “uma ocasião oportuna para praticar um exercício da autoridade em estilo sinodal”, tal como refere o DF: “Quem é ordenado Bispo não recebe prerrogativas e tarefas que deve desempenhar sozinho. Pelo contrário, recebe a graça e a tarefa de reconhecer, discernir e compor em unidade os dons que o Espírito derrama sobre as pessoas e sobre as comunidades”.
Procurando a unidade, “os bispos são chamados a inspirar e apoiar a participação no processo sinodal de todos os membros da porção do Povo de Deus que lhes foi confiada”, refere o texto das pistas para a implementação.
O documento assinala a importância das equipas sinodais como animadoras do processo sinodal nas igrejas locais. “São instrumentos fundamentais para a animação ordinária da vida sinodal das Igrejas locais”, pode-se ler.
O “método próprio de uma Igreja sinodal” é o “discernimento eclesial”, revelam as pistas para a implementação do Sínodo. O documento recorda que “para a realização de um bom processo de discernimento, é fundamental uma definição clara dos objetivos, garantindo que sejam realistas e proporcionais em relação ao tempo disponível, aos espaços utilizáveis e ao número dos participantes envolvidos”.
Sublinha ainda que “é fundamental que cada participante chegue adequadamente preparado e que o contexto favoreça um clima de oração e disponibilidade interior para ouvir e dialogar”.
A este propósito, salienta a importância da figura do facilitador, assinalando que os processos sinodais devem “contar com formas adequadas de facilitação” que permitam aos participantes a concentração “nas questões sujeitas a discernimento”.