Em Bunia, naquele primeiro dia de junho, voluntários carregavam o caixão de um homem morto por Ebola. Vestidos com trajes de proteção, luvas e máscaras, eles deveriam baixar o caixão em uma vala preparada e desinfetada para a ocasião. Mas, em determinado momento, algo que ninguém jamais poderia ter imaginado aconteceu: alguns membros da comunidade na capital de Ituri, província do nordeste da República Democrática do Congo que se tornara o epicentro do surto do vírus, atacaram violentamente os voluntários, que milagrosamente escaparam da morte. Familiares e amigos do falecido provavelmente não haviam aceitado os rigorosos procedimentos de sepultamento estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que, para evitar a propagação da infecção, estipulam que o corpo de uma vítima de Ebola não pode ser lavado, beijado ou tocado em uma despedida final, nem ser vestido com roupas escolhidas pela família, nem homenageado com ritos religiosos, muitas vezes com grande público. Essa quebra de tradição é insuportável não só para o povo de Ituri, mas também para a maioria da população das outras províncias de Kivu do Norte, onde o vírus ebola Bundibugyo se alastra descontroladamente, pois ainda não existe vacina nem tratamento eficaz.
Analisando os números divulgados na quarta-feira pelas autoridades congolesas, fica claro que a situação não está totalmente sob controle: mais de 2.000 contágios e 796 mortes. Mas a OMS alerta que a epidemia poderia estar ainda mais disseminada, com um número de duas a quatro vezes maior do que os números oficiais. A população que resiste aos voluntários e profissionais de saúde parece estar em crescimento, no mesmo ritmo da disseminação da doença.
O Dr. Mapendo Ndaliko Augustin é consultor médico da Diocese de Butembo-Beni, na região de Kivu do Norte, que registra novos casos confirmados todos os dias. Viajando de povoado em povoado, que visita regularmente a trabalho, ele notou que, durante todo o mês de junho, "tanto a população rural quanto a urbana continuaram a se opor às equipes de resposta, e alguns grupos de jovens ameaçaram incendiar hospitais envolvidos no combate à epidemia. Felizmente, uma trégua foi observada desde o início de julho. Mas é precária."
O Dr. Augustin revelou à Rádio Vaticano que ataques contra profissionais de saúde que investigam casos suspeitos de infecção também foram relatados na cidade de Beni. Ataques e ameaças, em muitas outras áreas de Kivu do Norte e Ituri, atingiram até mesmo membros da Cruz Vermelha da República Democrática do Congo, que foram forçados a suspender suas atividades humanitárias. "No geral - disseram-nos funcionários da Cruz Vermelha de Ituri, que estão constantemente envolvidos na luta contra o Ebola - grande parte da população coopera com as equipes de saúde quando entende os riscos associados à doença. Por outro lado, algumas comunidades ainda expressam preocupação, desconfiança ou cansaço diante das repetidas intervenções. Rumores, crenças locais e a disseminação de informações falsas podem dificultar o cumprimento das medidas de prevenção. É por isso que o diálogo com a comunidade continua sendo um elemento fundamental da resposta à epidemia."
Não são apenas os protestos contra sepulturas seguras, como aconteceu em Bunia, que estão causando preocupação. Há também violência contra profissionais de saúde, o que pode fazer parte da dinâmica complexa e multifacetada do longo conflito congolês. Embora quase todas as províncias com as maiores taxas de infecção estejam sob o controle das forças armadas do governo, essas mesmas províncias são cercadas por grandes áreas onde vários grupos rebeldes armados atuam, dificultando o deslocamento de médicos e outros profissionais, o rastreamento de infecções e o atendimento aos doentes que permanecem nos povoados e continuam a disseminar as infecções. Além disso, a falta de informações confiáveis e verificadas pode encorajar milícias armadas a espalhar desinformação, que se tornaria uma poderosa ferramenta de controle capaz de induzir e provocar reações violentas contra aqueles que tentam ajudar.
O consultor médico da Diocese de Butembo-Beni explica que alguns analistas temem que "membros de alguns desses grupos armados possam se infiltrar na população, incentivando a resistência popular contra a resposta de saúde e instigando o medo entre os trabalhadores humanitários. Isso representaria uma oportunidade para eles aumentarem o número de mortes na região, vendo o Ebola como mais uma arma para disseminar." A única maneira de os trabalhadores da Cruz Vermelha evitarem ataques é o que os líderes da organização em Ituri resumem da seguinte forma, embora estejam bem cientes de que essas precauções podem, por vezes, revelar-se ineficazes: "As nossas atividades são realizadas após uma análise constante da situação de segurança. As nossas equipas trabalham em estreita colaboração com as autoridades de saúde, o governo local e os líderes comunitários para garantir um acesso humanitário adequado. Apesar de tudo, os nossos trabalhadores enfrentam inúmeros desafios: restrições de viagens, acesso limitado a certos locais, riscos para a sua segurança, dificuldades logísticas, más condições das estradas e deslocamento populacional."
Solicitando anonimato, um voluntário que participa dessas missões nas áreas mais remotas e desafiadoras de Ituri nos conta que "durante uma atividade de conscientização, algumas pessoas se recusaram a nos ouvir, a mim e aos meus companheiros, porque achavam que tínhamos vindo para levar doenças. Passamos um tempo conversando com líderes comunitários e religiosos. Após várias trocas de ideias, os moradores aceitaram nossa presença e pudemos continuar nosso trabalho. Essa experiência nos mostrou que a escuta e o diálogo são essenciais."
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