Pietro Bartolo vê a visita do Papa Leão a Lampedusa "com muita confiança, muita esperança, para que a situação dos migrantes possa realmente mudar". Para ele, será um momento fundamental quando o Cais Favarolo, local onde desembarcam os migrantes resgatados, for dedicado ao Papa Francisco. De 1992 a 2019, ele foi responsável pelo Centro de Saúde e pelo Policlínico de Lampedusa, e essa experiência mudou-o profundamente: "vi tantas pessoas mortas, e este é um número que me causa muita dor; ainda hoje, quando falo nisso, sinto-me mal, devo dizer… porque são pessoas… Mulheres, homens, crianças… Quantas inspeções de cadáveres realizei! Quantos Alan Curdi vi (a criança curda de três anos encontrada morta em 2015 na Grécia, vítima de um naufrágio). Mas agora já ninguém se indigna".
Trata-se, portanto, de uma visita ao coração da rota central do Mediterrâneo, por onde passam todos os anos pelo menos 66 mil migrantes. "A sensibilidade deste Papa em relação às migrações, no que me diz respeito, é um reconhecimento do que Lampedusa e os seus habitantes têm feito. Será um momento que fará bem a todos. Devido à distância — diz Bartolo —, para nós sempre foi difícil ouvir o Pontífice. Por isso, pode imaginar-se a grande participação, porque para nós tudo o que vem do mar é bem-vindo".
Nas palavras desse médico, que viveu na própria pele o drama das migrações, ainda está viva a memória da visita do Papa Francisco a Lampedusa em 2013. Aquele foi um momento crucial que lembrou ao mundo inteiro que, por trás dos nomes daqueles que deixam África para vir para a Europa, há histórias, esperanças e dores.
Bartolo, após o término do mandato como deputado europeu, decidiu reforçar ainda mais o seu empenho em prol dos migrantes e fundou a Rede Lampedusa. Trata-se de uma união entre associações, movimentos e cooperativas com o objetivo de prestar assistência a todos aqueles que chegam à Europa em busca de ajuda, proteção e trabalho. "O Jubileu da Esperança — diz Bartolo — é o que nos deve sustentar. As coisas têm de mudar, não é possível continuar assim, criminalizando essas pessoas, mulheres, homens e crianças, porque se pudessem chegar de forma regular, todas essas mortes, todo esse sofrimento, todas essas tragédias seriam eliminadas. É certamente necessário falar com uma só voz, porque o objetivo principal da Rede Lampedusa é reunir todas as organizações, todas as associações do terceiro setor, cooperativas, que atuam precisamente no campo da migração, mas que também se ocupam das pessoas mais vulneráveis".
As razões que levam as pessoas a migrar são muitas. Existem cerca de 304 milhões de migrantes internacionais no mundo, de acordo com as estimativas das Nações Unidas. Esse número corresponde a cerca de 3,7% da população mundial, um valor que quase duplicou nos últimos 30 anos. A maioria desloca-se por motivos de trabalho ou, de qualquer forma, em busca de um futuro melhor para si própria ou para a sua família, mas cresce o número daqueles que abandonam o seu lar porque têm de enfrentar as alterações climáticas.
Bartolo parece não acreditar muito nas estratégias postas em prática pelas nações industrializadas. "Muitas vezes ouvi dizer 'vamos ajudá-los nos seus países', ou ouvi falar do Plano Mattei. São tudo promessas vazias e, com este projeto, com esta Rede Lampedusa em pequena escala, trazemo-los em total segurança, depois de termos estabelecido acordos com as empresas, com a indústria, com o comércio que precisam de todas estas pessoas, graças também a um percurso de formação. E talvez daqui a dois, três ou quatro anos, quando assim o desejarem, e depois de terem adquirido todo esse know-how, se quiserem, vamos ajudá-os a regressar e a abrir empresas e atividades econômicas nos seus países de origem".
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