A história de padre Roberto Landell de Moura, sacerdote e inventor brasileiro, convida-nos a refletir sobre como grandes contribuições científicas podem permanecer esquecidas ou pouco reconhecidas. No final do século XIX e início do século XX, o sacerdote realizou experiências pioneiras com a transmissão da voz e de sinais sem fio, antecipando princípios que seriam fundamentais para o desenvolvimento das telecomunicações e do rádio. Sua trajetória revela não apenas a criatividade de um homem movido pela fé e pela ciência, mas também as dificuldades enfrentadas por aqueles que inovam antes de seu tempo e não encontram o devido apoio ou reconhecimento. Resgatar sua memória é, portanto, reconhecer uma parte importante da história da ciência brasileira e refletir sobre a necessidade de valorizar os talentos que, muitas vezes, permanecem à margem da história oficial.
Dando continuidade a sua série de reflexões sobre este sacerdote gaúcho, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje "O inventor brasileiro não reconhecido":
"Frente à tantos inventos de nossos tempos e a posição da Igreja a respeito da tecnologia, estamos resgatando uma história que precisa ser resgatada para fazer jus à memória daquele que foi um gênio esquecido, porto-alegrense, gaúcho e patriota do seu país, não incentivado em sua época. A Igreja sempre foi cautelosa também no uso e na aprovação dos inventos que aconteciam. Conta-se um fato, em tom engraçado, na época da Invenção do cinema, sobre a posição da Igreja, nos seus representantes da época. A história do cinema nasce com o desenvolvimento de uma forma de arte visual criada com tecnologias cinematográficas que teve início no final do século XIX. O surgimento do cinema como expressão artística não é claramente definido. Houve exibições cinematográficas "primitivas" como a primeira apresentação de imagens em movimento em tamanho real em 1894, em Berlim, por Ottomar Anschütz, no entanto, a exibição pública e comercial de dez curta-metragens dos irmãos Lumière em Paris, em 28 de dezembro de 1895, pode ser considerada o marco inicial do cinema. Os primeiros filmes eram em preto e branco, com menos de um minuto de duração, sem som gravado e consistiam em um único plano a partir de uma câmera fixa.
Conta-se, em tom de anedota, que no inicio do Cinema, a Igreja pensou que era uma “coisa do diabo” aquelas imagens em movimento. Tal como Pe. Landell de Moura foi acusado de bruxo e satânico em seus geniosos inventos. Quando a Igreja viu que o cinema não era coisa do diabo, então já era coisa do Diabo, ou seja, o cinema já estava sendo usado para fins fora da ética, da moral e dos bons costumes. Não precisamos aqui falar da indústria mais lucrativa que é a pornográfica nos cinemas e nas redes sociais.
Sigo aqui no aprofundamento do invento do Rádio no Brasil, tentando fazer justiça a uma história mal contata, ou ainda a ser recuperada, tendo a fonte no livro de Ernani Fornari, “o incrível Pe. Landell de Moura – História Triste de um Inventor Brasileiro”, Editora Globo – Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo, 1960.
O autor descreve assim em seu livro que é uma pesquisa de décadas. Deixamos no texto descrito, junto à publicação do áudio, também a forma de escrever da época do livro: “Quantas e que amargas decepções experimentou, ao ver que o Govêrno e a Imprensa de seu País, em lugar de o alentarem com o aplauso, incentivando-o a prosseguir na carreira triunfal, fizeram pouco ou nenhum caso de seus notáveis inventos! Se o Rev. Padre Landell houvesse nascido na Inglaterra, Alemanha ou Estados Unidos, tão logo as suas tentativas de telefonia sem fio demonstraram o bom caminho em que o sábio inventor havia colocado os têrmos resolutivos.
Com a bondade angelical que caracteriza Pe. Landell, e com a expansão franca e cordial tão peculiar aos filhos do Rio Grande do Sul, mais ou menos nestes termos contextou:
— “Não, meu amigo, não é de todo certa a apreciação do naturalista, e ainda menos aplicando-a no meu caso pessoal. Asseguro-lhe que não só o Brasil é grande pelas galas e riquezas que Deus lhe deu, mas também seus filhos o são. Acontece que os brasileiros, com raras exceções, não têm tôda a capacidade científica necessária para me acompanhar nas diversas fases que reveste o estudo e a resolução dos complicados problemas que tenho nas mãos. É óbvio que aquêles que não me compreendam bem uma razão científica não possam enquadrá-la em seu justo mérito, nem tampouco aplaudir-me e ajudar-me com recursos para prosseguir no estudo e no trabalho. Com certeza, supõem que vivo sonhando entre utopias científicas de utilidade aparente. Tenho, entretanto, a consoladora esperança de que, em curto interstício, minhas obras científicas brilharão como o sol do meio-dia, em virtude da sorte de outros inventores que, mais afortunados do que eu, irão descobrindo os meus próprios inventos, concebidos e executados por minhas próprias mãos no silêncio de minha pobre e reduzida oficina, onde a ciência manda e a experiência executa, antes de os sábios da Europa e da América darem forma tangível, útil, e aplicação pública a obras iguais ou similares às minhas. Bem sei que, em coisas de ciência, o que avança em relação à sua época, não deve esperar justiça dos contemporâneos. O que desejo é que o fruto de meus estudos se traduza em proveito e glória de minha Pátria, e em holocausto ao Deus Supremo, que me inspira em minhas investigações e me ilumina com suas divinas luzes para penetrar e ordenar, à minha maneira, êsses fatores interessantíssimos da Criação, que nos ligam aos outros planêtas, estabelecendo comunicação entre as esferas mais remotas e as entranhas da terra que pisamos. Só por isso, dou-me por bem recompensado das pesadas vigílias, do contínuo trabalho e das infinitas penúrias que me custam as invenções que você e alguns íntimos amigos conhecem pormenorizadamente, e o público sòmente por alto.”
Julgue o Brasil, agora, seu eminente filho e avalie suas notáveis obras.
Ainda que a pessoa e a fama do Padre Landell de Moura — fama um tanto confusa e lendária, diga-se em tempo — não nos fôssem desconhecidas, a leitura dêsse artigo deixou-nos vivamente impressionados, e, ao cotejá-lo com o texto do telegrama inicialmente transcrito, sentimo-nos sùbitamente assaltados por um pensamento inquietante: Estariam o Padre Landell de Moura e o Brasil sendo furtados em sua glória?"
Pe. Gerson Schmidt* – Jornalista, mestre em comunicação, sacerdote, pároco e munícipe da Barra do Ribeiro (RS) responsável último por sete comunidades locais católicas do município.
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