Há poucos dias, num domingo, final de missa, um jovem me afirmou: padre eu acredito em Deus, tenho minha espiritualidade, só não vejo sentido em obedecer a regras de uma instituição que às vezes nem pratica o que prega. Alguns outros que estavam perto olharam assustados. Mas, entendi ali, mais uma vez, que não estava diante de rebeldia. Estava diante de um jeito novo de crer que já não é tão novo assim.
Embora prefira do termo “customizar”, os sociólogos da religião dão outros nomes para este efeito. A francesa Danièle Hervieu-Léger, no livro O peregrino e o convertido: a religião em movimento, descreve o fenômeno da “bricolagem de crenças”, quando a pessoa deixa de se filiar inteira a uma tradição e passa a recolher pedaços de várias, montando um mosaico próprio de fé. Ela usa a figura do peregrino, alguém em trânsito espiritual permanente, em contraste com o praticante, que vive a fé de forma regular e comunitária. Já a britânica Grace Davie, em seu estudo sobre religião na Inglaterra pós-guerra, cunhou a expressão crer sem pertencer (believing without belonging) para descrever quem mantém a fé viva, mas corta o vínculo institucional. Não é exagero, é diagnóstico sociológico consolidado.
Não vou tratar isso como pecado a ser condenado da Mesa da Palavra, seria fácil demais, e sinceramente, desonesto. Por trás de muita gente que monta a própria fé existem feridas reais. Uma Paróquia fria, um padre que maltratou, uma comunidade que excluiu em vez de acolher, moralismos disfarçados de doutrina. Isso aconteceu, continua acontecendo, e, nós, que somos Igreja precisamos admitir isso antes de exigir qualquer coisa daqueles que saíram.
Já que Doutrina não se negocia, precisamos mudar a postura, a maneira de anunciar, isso sim precisa mudar sempre, em cada geração. O Papa Francisco, na homilia da Missa do Crisma de 2013, pediu que os padres fossem pastores com o cheiro das ovelhas. Isso não é imagem bonita para cartão de ordenação. É exigência concreta de presença, de proximidade, de sujar a veste talar no meio do povo em vez de administrar sacramento à distância.
Paróquia que só cobra dízimo e participação em escala não forma comunhão, forma clientela. Padre que só sabe repreender do altar sem nunca se sentar do lado de quem sofre não está formando discípulo, está afastando ovelha. Isso eu digo porque sou padre há quase duas décadas, já errei nisso mais vezes do que gostaria de admitir.
Nós também precisamos parar de tratar quem nos questiona como inimigo. Pergunta não é ataque. Muita gente que hoje monta a própria fé só queria ter tido, em algum momento, alguém disposto a sentar e escutar a dúvida inteira antes de despachar uma resposta apologética pronta. Escutar primeiro, responder depois. Isso vale para o confessionário, vale para sala de aula, vale para qualquer conversa depois da missa.
Fé cristã nunca foi projeto de uma pessoa só. Desde o início, o livro dos Atos dos Apóstolos mostra os primeiros cristãos perseverando juntos no ensino, na fração do pão e nas orações, partilhando até os bens (cf. At 2, 42-45). Não existe relato de cristão isolado inventando sua própria versão do Evangelho no quarto de casa. São Paulo, na primeira carta aos Coríntios capítulo 12, compara a comunidade a um corpo, onde cada membro depende dos outros para funcionar. Um corpo não escolhe quais partes vai manter conectadas e quais vai descartar porque incomodam.
Então, uma nova evangelização precisa mostrar a quem hoje customiza a fé que a fé recebida não é fé inferior, afinal a fé pessoal harmoniza-se com a fé oficial (relação fides qua, fides quae). Devemos apresentar a tradição no sentido mais literal da palavra, algo entregue de mão em mão, de geração em geração, e ninguém inventa sozinho aquilo que só faz sentido recebido de outro. Isso exige grande humildade, a mesma humildade de aceitar correção, de tolerar imperfeição alheia, de permanecer numa comunidade mesmo quando ela decepciona, porque toda comunidade humana decepciona em algum momento, inclusive a sua própria família, e ninguém por isso deixa de ser filho.
Customizar a fé dá a ilusão de controle. Comunhão exige o oposto, exige entrega, exige aceitar que o outro, com todos os defeitos dele, também é lugar onde Deus fala.
O Papa Leão XIV, na Magnifica Humanitas, logo nos primeiros parágrafos, retoma a imagem da torre de Babel para falar do risco de qualquer construção humana, por mais grandiosa que pareça, quando nasce da absolutização do humano e da sua pretensão de autossuficiência. Ele não só está falando de tecnologia, pois quantas vezes a fé que a gente monta sozinho nasce do mesmo impulso, a vontade de chegar ao céu pelas próprias mãos, sem precisar receber nada de ninguém.
Tem outra ideia da encíclica que se encaixa aqui. O Papa insiste que nenhuma tecnologia é neutra, porque ela carrega o rosto de quem a projeta, financia e usa. A fé que a gente customiza sozinho também não é neutra. Ela carrega só o meu rosto, os meus gostos, o que me agrada ouvir, e não necessariamente o rosto de Cristo revelado nas Escrituras e guardado pela tradição da Igreja.
E há ainda o ponto talvez mais direto para o nosso tema. O Papa lembra que nenhuma tecnologia substitui aquilo que pertence ao coração da experiência humana, coisas como a compaixão, a amizade e a comunhão com Deus. Se nem a tecnologia mais avançada substitui isso, muito menos substitui uma espiritualidade que a gente edita sozinho no quarto, sem o atrito necessário de outras pessoas reais, com rosto, nome e limitação.
Concluindo, não escrevo isso para ninguém se sentir cobrado, nem para ninguém se sentir absolvido. Escrevo porque acredito que dá para sair dessa separação entre Igreja que precisa mudar e indivíduo que precisa mudar, como se fossem dois times em disputa. Os dois lados precisam se mover na mesma direção, que é a comunhão, porque foi para isso que fomos chamados desde o princípio.
A porta continua aberta. Não para enquadrar ninguém em fileira, mas para receber cada um do jeito que está, como fez Jesus, com a fé inteira ou com a fé em pedaços, contanto que essa fé volte a caminhar com outras pessoas rumo ao Caminho, Verdade e Vida.
*Padre Marcio Tadeu Reiberti Alves de Camargo – Sacerdote na Diocese de Votuporanga(SP), Pároco, Professor, Pós-graduado em Bioética pela Cátedra da UNESCO e Apresentador na Rede Vida.
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