Crianças desaparecem sem deixar vestígios da ilha africana de Madagascar. Como se fossem sugadas por dentro, pela areia e pelas vielas estreitas das aldeias pobres, na Costa Dourada do Oceano Índico. Os pequenos correm grande risco, e o terror do tráfico de órgãos volta a se espalhar.
Desaparecem de dois em dois, às vezes em pequenos grupos, às vezes sozinhos. Os pais não os veem mais voltar para casa: o terror os assalta. Desaparecem da capital, Antananarivo, mas também do paraíso de águas cristalinas de Nosy Be, a ilha dentro da ilha, onde os resorts são refúgios para turistas que pagam 2 mil dólares por semana. “O alarme é cíclico e, infelizmente, está acontecendo novamente”, confirmam, do extremo sudeste da ilha, padre Luca Fornaciari e padre Francesco Meloni, missionários fidei donum, respectivamente, em Manakara e Analavoka.
“Os sequestros de crianças e jovens são uma ferida: a confirmação vem das investigações sobre o tráfico internacional de órgãos; esse é o motivo dos desaparecimentos”, explica-nos por telefone de Manakara o padre Luca, que realizou um sonho: abrir um campus universitário para oferecer um futuro de verdade aos jovens da região. A polícia malgaxe, em seu último relatório, fala de 172 pessoas desaparecidas em um ano, sendo 91 delas crianças. Assassinatos seletivos e, em seguida, o horror. Os números crescem mês a mês e, de junho até hoje, os sequestros tornaram-se quase diários. A última vez aconteceu há poucos dias, justamente em Nosy Be: duas meninas de 8 e 13 anos não foram mais encontradas.
“Confirmo que isso aconteceu em uma das aldeias da ilha de Nosy Be. Minha mãe, que mora lá, testemunhou que as duas meninas foram levadas por alguém. E isso é algo frequente: as famílias estão com medo”, explica-nos do extremo sul de Madagascar um agente humanitário e cooperante local, Claudio Orange, que trabalha com a ONG italiana “Support and Sustain Children”.
Dom Jean Pascal Andriantsoavina, bispo de Antsirabe, se pronunciou sobre esse horror: “Não podemos ficar meros espectadores diante da trágica realidade dessas ondas de assassinatos que ocorrem aqui e ali e cujos culpados continuam impunes”, afirmou.
A Conferência Episcopal de Madagascar se pergunta quem se beneficia com tudo isso. Os militares golpistas no poder, que assumiram o governo do presidente Andry Rajoelina após a revolta popular da Geração Z em outubro de 2025, parecem ineficazes. Não conseguem conter o horror. Na capital, Antananarivo, mobilizaram 1.500 policiais para patrulhar ruas e becos, dia e noite. Mas o resto da ilha (exceto as áreas fortificadas, destinadas aos turistas ocidentais) está desprotegido. “Quando as pessoas percebem que as investigações não avançam com rapidez suficiente e que os responsáveis por esses crimes não são identificados, ou se tornam cada vez mais descarados, o medo cresce muito além dos casos individuais”, comenta Ketakandriana Rafitoson, da Transparency International, em entrevista à Radio France Internationale. De fato, por trás do comércio e da retirada ilegal de partes do corpo, bem como do terrível desaparecimento de crianças, está o vácuo de um Estado ausente. Que alguns dizem ser conivente. As promessas feitas aos jovens em revolta hoje parecem destinadas a cair no vazio.
Em Madagascar, tudo “muda para não mudar nada”, confirmam nossos missionários. “O povo é tranquilo, sempre sofreu as opressões dos poderosos e, em outubro passado, encontrou forças para levantar a cabeça e derrubar um déspota”, dizem eles. Mas, evidentemente, a confiança depositada nos militares foi mal colocada. A pobreza, a falta de eletricidade, a água racionada, as noites passadas no escuro e com pouca comida no prato são uma constante.
“Tudo segue como antes dos levantes, até pior do que antes”, explica-nos Arianna Martini, fundadora da ONG “Support and Sustain Children”. O golpe não altera nem um pouco o destino dos jovens. O paradoxo da ilha cobiçada é que os pobres vivem sem água e sem luz, enquanto toda a água é canalizada para os resorts dos sonhos, equipados com spas e todo o conforto. É por isso que todo projeto voltado para sair do atoleiro do desemprego vale ouro.
“O que conseguimos fazer foi um milagre e também um grande esforço econômico graças à CEI, Conferência Episcopal Italiana: criamos uma universidade católica chamada A.L.B.A. — um acrônimo —, onde se estuda principalmente agronomia”, explica ainda padre Luca Fornaciari. A nova universidade de Farafangana surgiu da reforma do Seminário Menor, graças aos recursos do “8 por mil” italiano. O próximo desafio é transformá-la em um polo de estudos e pesquisas sobre a economia do mar: para que a ilha possa ser realmente uma fonte de desenvolvimento e crescimento, não mais ligada aos horrores do tráfico de pessoas, gerados por injustiças e extrema pobreza.
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