Atualmente, mais de 50 milhões de pessoas mundialmente estão vivendo em situações de escravidão moderna. Além disso, aproximadamente 236 bilhões de dólares são gerados ilegalmente por conta de tráfico de pessoas e exploração.
Para contrastar essa realidade, nasceu a Rede Talitha Kum, criada pela União Internacional das Superiores Gerais (USG) e liderada por freiras e consagradas em todo mundo.
A Rede Talitha Kum, em 2025, teve um aumento de operação internacional, sendo 68 redes nacionais atuando em 113 países. Também, no mesmo ano, a Talitha Kum ajudou 1,2 milhão de pessoas no mundo todo, tendo assim um aumento significativo de 29,6% em relação a 2024, através de atividades preventivas, proteção e cuidado dos sobreviventes, iniciativas de acesso à justiça, esforços de defesa de direitos e parcerias internacionais
A prevenção é a maior área de atividade da Talitha Kum. Somente no ano passado, ajudou 928.972 pessoas, um aumento de 34,6% em comparação a 2024: 303.359 mulheres e meninas e 262.621 menores de 18 anos. Através de esforços para divulgar o assunto em diversos lugares, como por exemplo escolas, eventos comunitários, igrejas e clínicas, Irmãs e parceiros possibilitaram dados e ferramentas para reconhecer e evitar as ameaças do tráfico de pessoas.
Ademais, a iniciativa cuida também de proteção e cuidados para 27.329 sobreviventes através de abrigos seguros, auxílio médico e psicológico, parte jurídica, educação e capacitação profissional.
Para compreender melhor o projeto, a Irmã Neide Lamperti, brasileira, missionária Scalabriniana e coordenadora do Departamento de Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano da Conferência dos Bispos Católicos da África Austral (SACBC) e intregrante da iniciativa Rede Talitha Kum, concedeu uma entrevista ao Vatican News por ocasião do Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas.
Como a senhora descobriu a sua vocação, e como chegou até esse projeto?
Desde muito jovem senti o chamado de Deus para ser missionária e dedicar a minha vida ao serviço dos mais necessitados. Cresci em uma família que vivia fortemente os valores cristãos de solidariedade, respeito e compromisso com o próximo. Com o tempo, esse chamado foi amadurecendo, passou por um acompanhamento, discernimento e o ingresso na Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo – Scalabrinianas. Há mais de três décadas vivo a minha vocação religiosa, procurando testemunhar o Evangelho através da missão junto aos migrantes, refugiados e pessoas em situação de vulberabilidade.
A minha missão levou-me a diferentes realidades do Brasil e 17 anos no continente africano, sobretudo em Angola e África do Sul, trabalhando nas respectivas Conferências Episcopais, coordenando os Departamentos de Migrantes, Refugiados e prevenção do Tráfico Humano. O contato com migrantes, refugiados, pessoas deslocadas à força nestes países, fez-me compreender a urgência de defender a dignidade humana e promover os direitos daqueles que são forçados a deixar as suas terras, casas, famílias em busca de segurança e uma vida melhor.
Foi precisamente o trabalho nas Conferências Episcopais que me levou a integrar a Rede Talitha Kum. Vi neste trabalho uma oportunidade concreta de trabalho em rede e de fortalecer a proteção, a integração e a esperança de milhares de pessoas em mobilidade. Participar deste projecto é uma das formas de responder ao chamado vocacional, colocando a fé em ação por meio do serviço, da defesa dos direitos humanos e do acompanhametno pastoral das pessoas mais vulneráveis e vitimas do trafico humano.
Como é a realidade do tráfico humano na área em que a senhora está presente?
África do Sul compreende uma realidade de Tráfico Humano muito complexa e preocupante. O país é considerado um dos países de origem, trânsito e destino para pessoas traficadas na África Austral, devido à sua economia relativamente mais forte, às extensas fronteiras terrestres e elevados fluxos migratórios provenientes dos países vizinhos.
Os traficantes exploram não somente os estrangeiros, mas igualmente, os cidadãos sul africanos em situação de vulnerabilidade, somando o número maior para mulheres, crianças e jovens, embora em menor número, os homens. Estes últimos são vítimas da exploração laboral.
Na África do Sul, as formas mais encontradas de tráfico humano são para a exploração sexual, especialmente mulheres e meninas, o trabalho forçado em setores agrícolas, construção, trabalho doméstico, pesca, restauração e mineração. Há a mendicidade forçada, onde a exploração maior afeta as crianças. É possível encontrar casamentos forçados e outras formas de exploração associadas a práticas culturais ou criminosas para atividades ilícitas.
Para ter uma idéia, dados do Ministério da Justiça de 2024/2025 apresentam um total de 234 vítimas de tráfico humano que foram resgatadas e assistidas durante este período do ano financeiro, pelo governo sul africano. Destes, houve 23 processos de tráfico humano concluídos com decisão judicial e 11 processos com condenações, abrangendo um total de 146 acusações de tráfico de pessoas. Estas condenações resultaram em 34 penas de prisão perpétua, 8 condenados com 20 anos de prisão e 2 condenados com 10 anos de prisao. Já no ano financeiro 2025/2026 foram instaurados 32 novos processos envolvendo 57 acusados. Continuam em andamento 67 processos envolvendo 156 acusados e 428 acusações. (Fonte: https://www.gov.za/sites/default/files/gcis_document/202606/54758gon7540.pdf?utm_source=chatgpt.com )
Embora parece que o número é alto, organizações internacionais afirmam que são apenas uma fração da realidade, porque o crime é oculto, alimentado pela pobreza, migração irregular, desigualdade e redes criminosas organizadas. Há ainda muito por fazer em termos de prevenção. Identificação e proteção das vítimas.
Por acaso, a senhora poderia contar alguma situação que já aconteceu?
Há um caso de uma menina de seis anos que levou à condenação três pessoas por tráfico humano, para fins de exploração e rapto. Todos receberam prisão perpétua.
Em setembro de 2025, sete cidadãos chineses foram condenados a 20 anos de prisão cada um, por tráfico de pessoas, trabalho forçado e exploração de 91 trabalhadores malawianos, incluindo crianças, numa fábrica em Johannesburgo.
A polícia sul-africana desmantelou uma rede internacional que recrutava mulheres da Tailândia com falsas promessas de empregos. Ao chegarem aqui, os passaportes eram confiscados e elas eram obrigadas a prostituir-se para pagar as suas dívidas de viagens. Eu conheci algumas delas em um abrigo bem seguro, para pessoas traficadas. Nosso departamento ofereceu ajuda financeira para apoios necessarios de recuperacao e traumas vivenciados, enquanto aguardam os processos da corte serem finalizados e por fim poderem regressar aos seus paises de origem.
Quais são os principais desafios enfrentados pela Talitha Kum no combate ao tráfico de pessoas em diferentes contextos culturais, econômicos e políticos?
Em cada região as formas de exploração assumem características diferentes, devido aos contextos culturais, políticos e econômicos. Em alguns países predomina a exploração sexual, outros o trabalho forçado, outros o tráfico de crianças ou casamento forçado e assim por diante. Isto torna-se um desafio porque a prevenção, a proteção e a incidência política precisa acontecer de forma segura, em redes de solidariedade para que se consiga resultados mais eficazes e duradouros.
Outro desafio que a Rede Talitha Kum enfrenta é a prevenção, ou seja, é preciso enfrentar as causas estruturais que favorecem o tráfico de pessoas: ajudar a combater a pobreza, a desiguladade, discriminação de gênero, migração insegura e irregular, corrupção, impunidade e sistemas de proteção frágeis. A prevenção e a educação acerca da problemática do tráfico humano junto aos jovens, nas escolas, comunidades, especialmente as mais vulneráveis é a melhor forma de impedir que o tráfico aconteça.
Há o desafio de ter mais recursos financeiros para fortalecer continuamente a formação dos membros e parceiros da Rede, adaptar os programas às necessidades da comunidade onde atua, trabalhar em estreita colaboração com dioceses, congregações religiosas, organizações da sociedade civil, autoridades públicas, organismos internacionais e outras tradições religiosas.