Em conversa com Vatican News, após participar na Cimeira 2026 da Rede Africana Caminhos para a Liberdade (PFAN), realizada em Abuja, Nigéria, o Bispo de Aliwal (África do Sul), Dom Joseph Mary Kizito, descreveu o tráfico humano como “uma ferida da humanidade” que exige uma resposta continental unida envolvendo a Igreja, os governos, líderes empresariais e as comunidades.
A cimeira, organizada pela Comissão Justiça, Desenvolvimento e Paz da Arquidiocese de Abuja juntamente com o GrowEdo Support Group UK, reuniu delegados de toda a África, do Reino Unido e da Irlanda sob o tema: “Estratégias Inclusivas para Acabar com o Tráfico Humano: Alcançando os Mais Marginalizados”.
Os participantes incluíram representantes da Nigéria, África do Sul, Gana, Benim, Quénia e outros países africanos, bem como delegados das Conferências Episcopais Católicas da Inglaterra e do País de Gales.
Na entrevista de 27 de maio, o Bispo Kizito explicou que a iniciativa dá continuidade ao trabalho iniciado pelo Grupo Santa Marta, lançado sob a inspiração do falecido Papa Francisco em 2014 para combater o tráfico humano e a escravidão moderna.
“A Igreja não pode trabalhar sozinha”, afirmou o bispo. “Precisamos da polícia, das agências de aplicação da lei, das autoridades de gestão de fronteiras, das organizações da sociedade civil e do setor empresarial, se quisermos realmente desmantelar as redes de traficantes.”
Segundo o Bispo responsável pelo gabinete para Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano da Conferência de Bispos católicos da Africa Austral (SACBC), a cimeira de Abuja destacou a importância de construir parcerias capazes de responder ao tráfico de forma coordenada e prática. Os delegados discutiram como os traficantes operam através de redes transnacionais organizadas e como os países africanos devem reforçar a colaboração para fechar as lacunas exploradas pelas organizações criminosas.
O Bispo Kizito sublinhou que o tráfico é frequentemente impulsionado pelo desespero económico, especialmente entre os jovens a quem são prometidos empregos e oportunidades no estrangeiro.
“O tráfico humano é um negócio baseado na exploração”, afirmou. “Se os jovens tiverem oportunidades, emprego e esperança nas suas próprias comunidades, tornam-se menos vulneráveis aos traficantes.”
Um dos temas centrais da cimeira foi a inclusão de pessoas com deficiência nas campanhas contra o tráfico humano e nas estratégias de prevenção.
O Bispo Kizito observou que as pessoas com deficiência são frequentemente alvo de traficantes e muitas vezes ignoradas nos programas de sensibilização e nos mecanismos de proteção.
O encontro em Abuja procurou, portanto, garantir que as iniciativas contra o tráfico humano se tornem mais acessíveis e inclusivas, incluindo através de interpretação em língua gestual, locais acessíveis e participação direta de pessoas com deficiência.
“Não devemos apenas responder depois de as pessoas terem sido prejudicadas”, afirmou o Bispo Kizito. “Devemos incluir as pessoas vulneráveis desde o início e trabalhar juntos para protegê-las.”
Um tema recorrente ao longo da cimeira foi a necessidade de iniciativas de empoderamento económico dirigidas especialmente aos jovens e às mulheres.
O Bispo Kizito destacou uma iniciativa-piloto agrícola na Nigéria que oferece aos jovens oportunidades na agricultura e no desenvolvimento comunitário, ajudando a reduzir a tentação de migrar irregularmente ou cair nas redes de tráfico humano.
O programa, inspirado no anterior projeto GrowEdo criado em 2018 para mulheres sobreviventes do tráfico no Estado de Edo, concentra-se na restauração da dignidade através do acesso à terra, formação profissional e meios de subsistência sustentáveis.
“Quando as pessoas têm trabalho e conseguem sustentar-se, torna-se muito mais difícil para os traficantes explorá-las”, explicou o bispo.
O Ordinário Local da Diocese de Aliwal também relacionou estas discussões com os esforços em curso na África do Sul, onde organizações da Igreja estão a capacitar jovens mulheres vulneráveis através de hortas comunitárias, projetos agrícolas e formação de competências.
Durante a cimeira de Abuja, o Bispo Kizito foi convidado a abordar a atual situação migratória na África do Sul, onde os sentimentos anti-imigrantes e as preocupações com a migração indocumentada se intensificaram nos últimos anos.
Ele reconheceu as frustrações vividas por muitos sul-africanos, especialmente os jovens desempregados que enfrentam pobreza, falta de oportunidades e fraca prestação de serviços.
“Os jovens estão desiludidos”, afirmou. “Não há empregos, não há oportunidades suficientes, e muitos tornam-se frustrados e vulneráveis.”
Ao mesmo tempo, o Bispo Kizito alertou contra a tendência de transformar os migrantes em bodes expiatórios e sublinhou que as redes de tráfico prosperam em ambientes marcados por fraca gestão das fronteiras, corrupção e desespero económico.
“A África do Sul tornou-se um terreno fértil para os traficantes porque as fronteiras estão sobrecarregadas e muitas pessoas estão desesperadas por emprego e recursos”, explicou.
O Bispo Kizito também elogiou a Conferência dos Bispos Católicos da África Austral por ter emitido recentemente uma declaração pastoral abordando as crescentes tensões em torno da migração e da xenofobia.
Ao longo da entrevista, o Bispo Kizito insistiu que a Igreja na África Austral continua a desempenhar um papel ativo no combate ao tráfico humano e no apoio às vítimas.