"Lélia Gonzalez - Um notável legado por um mundo mais justo e harmonioso" é o título que Filinto Elísio deu à crónica realizada para a emissão semanal, "África em Clave Cultural: personagens e eventos" do Programa Português da Rádio Vaticano, recentemente dedicada à figura desta intelectual, autora, ativista, professora, filósofa e antropóloga brasileira. Escrevia ele:
Lélia Gonzalez foi uma referência nos estudos e debates de género, raça e classe no Brasil, América Latina e pelo mundo, sendo considerada uma das principais autoras do feminismo negro brasileiro, tendo sido pioneira em pesquisas sobre Cultura Negra no Brasil. A filósofa, feminista e anti-racista americana Ângela Davis, numa plateia afirmara: "Por que os brasileiros. precisam buscar uma referência nos Estados Unidos? Eu aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês comigo", reafirmando o peso de Lélia Gonzalez nos estudos sobre a africanidade e o situacionismo do racismo no mundo.
Nascida Lélia de Almeida no dia 1 de fevereiro de 1935 na cidade de Belo Horizonte, era filha do ferroviário negro Acácio Serafim d’Almeida e da empregada doméstica e indígena, Orcinda Serafim d’Almeida. Era a décima-sétima filha de 18 irmãos. Na vida adulta, adotou o apelido do marido Luiz Carlos Gonzalez, passando a chamar-se Lélia de Almeida Gonzalez.
No início da sua vida no Rio, ela trabalhou pela primeira vez como babá. Seguiu os seus estudos em escolas públicas e em 1954 concluiu os estudos no Colégio Pedro II, sempre como aluna excecional. Depois, licenciou-se em História e Geografia pela Universidade Estadual do Guanabara, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro e, mais tarde, em Filosofia, pela mesma instituição, trabalhando como professora da rede pública de ensino.
Como professora de Ensino Secundário no Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira, nos anos sessenta, fez de suas aulas de Filosofia um espaço de resistência e crítica político-social, marcando definitivamente o pensamento e a ação de seus alunos. Fez o mestrado em Comunicação Social. Durante o seu doutoramento, especializou-se em Antropologia Política e Social dedicando as suas pesquisas à temática de gênero e etnia.
Com os diplomas universitários, tornou-se professora de importantes estabelecimentos de ensino superior cariocas, públicos e privados, lecionando Cultura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. O seu último cargo na instituição foi de chefia do departamento de Sociologia e Política. Lélia Gonzalez chegou também a estudar Psicanálise e fez estudos no campo psicanalítico, aprofundando os estudos sobre as obras do psicanalista francês, Jacques Lacan. Em 1976, tornou-se professora na Escola de Artes Visuais do Parque Lage e lecionou o Curso de Cultura Negra.
Colaborou com o Grémio Recreativo de Arte Negra e com a Escola de Samba Quilombo ao lado do mestre Candeia. Gonzalez participou também da formação do Colégio Freudiano, no Rio de Janeiro, criado em 1975 por Magno Machado Dias e Betty Milan. Mais tarde, ela assessorou o cineasta Cacá Diegues no seu filme Quilombo (1984). Ela pertenceu a um terreiro de Candomblé no Rio de Janeiro e festejou o fortalecimento dos blocos afros e afoxés em Salvador, na Bahia. Ela ajudou a fundar instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N'Zinga, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Olodum. Ademais, atuou na mobilização de negros e negras rumo ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), na resistência à ditadura, na luta de negros brasileiros contra o Apartheid na África do Sul, na formulação de mulheres negras nas políticas públicas, a partir do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), no qual atuou de 1985 a 1989, e na formulação de um pensamento que articulava gênero e raça, sobretudo no contexto latino-americano.
Ela teve uma importante presença tanto na academia quanto no mundo político, sobretudo durante a ditadura militar brasileira, de 1964 a 1984, e depois, com a restauração da democracia. Através dos seus estudos e pesquisas, sobretudo das suas publicações e das suas palestras. Lélia Gonzalez dedicou-se à desmontagem do mito da "democracia racial", defendida pelo sociólogo Gilberto Freire, do patriarcalismo, do sexismo e da desigualdade da sociedade brasileira e de muitas sociedades da América Latina e um pouco por todo o planeta. Autora de conceitos fundamentais como amefricanidade e pretuguês, ela revolucionou a forma de compreender as contribuições das matrizes africanas e indígenas para a formação da identidade brasileira e latino-americana.
A estreia de Lélia Gonzalez no mercado editorial aconteceu nos anos sessenta com a tradução de textos filosóficos como o volume II da coletânea "Compêndio Moderno de Filosofia". Entretanto, o seu primeiro livro foi "Lugar de Negro", publicado em 1982, em parceria com Carlos Hasenbalg. Em 1987, no livro "Festas Populares", Lélia Gonzalez mapeou a diversidade das manifestações culturais brasileiras.
Lélia de Almeida Gonzalez morreu no dia 11 de julho de 1994 aos 59 anos, na sua casa no Cosme Velho, na cidade do Rio de Janeiro. O seu legado tornou-se numa referência internacional em diversas universidades e nas Nações Unidas. Na verdade, o legado de Lélia Gonzalez amplia as fronteiras da palavra como instrumento de transformação social e da busca de um mundo mais harmonioso.
A obra e o pensamento de Lélia Gonzalez estarão no centro da Festa Literária Internacional de Niterói deste ano. Inspirada na intelectual mineira, filósofa, antropóloga e uma das maiores referências do feminismo negro brasileiro, a edição deste ano propõe o tema “Territórios das Palavras” e reúne alguns dos principais nomes da literatura e da cultura negras contemporâneas numa programação que convida o público a refletir sobre memória, identidade, território, ancestralidade e pertencimento.
Por Filinto Elísio - Rosa de Porcelana Editora.
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