Santa Missa e procissão da “Madonna del Lago” Igreja de Maria Santíssima do Lago Castel Gandolfo
é uma alegria para mim celebrar com vocês a Festa da Madonna del Lago, como já fizeram no passado alguns de meus Predecessores: São Paulo VI, que desejou e apoiou a construção desta igreja dedicada a Maria e a consagrou, e São João Paulo II, que aqui quis recordar essa memória e renovar sua mensagem.
A Liturgia da Palavra nos oferece textos que se harmonizam muito bem com este tradicional encontro.
Na primeira Leitura, o profeta Jeremias nos fala de sua necessidade irresistível de corresponder ao chamado que recebeu: «Tu me seduziste, Senhor – diz ele –, e eu me deixei seduzir […]. Havia em meu coração como um fogo ardente […]; eu me esforçava para contê-lo, mas não podia» (Jr 20,7.9). Deus lhe revelou que o havia conhecido e escolhido desde o seio materno (cf. ibid. 1,5), e que amava seu povo com amor eterno (cf. ibid. 31,3); falou-lhe de seu plano de salvação, e ele já não pode permanecer em silêncio. Sente um impulso incontível de levar a todos a sua mensagem, ainda que saiba que isso implicará dizer e fazer coisas que não agradarão a muitos, enfrentar sofrimentos e incompreensões, até tornar-se «objeto de zombaria todos os dias» (v. 7). Mas o amor o impele a agir pelo bem de seu povo, sem compromissos, até o fim.
É isso que Jesus também nos ensina no Evangelho. Há pouco, alimentou cinco mil homens com cinco pães e dois peixes (cf. Mt 14,15-21), e depois outros quatro mil, com sete pães e alguns peixinhos (cf. Mt 15,32-38). Agora, para além do sucesso alcançado com aqueles gestos, explica aos discípulos o sentido messiânico do que realizou: revela-lhes que deverá «ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos escribas, e ser morto e ressuscitar no terceiro dia» (Mt 16,21).
Explica como, depois dos muitos milagres realizados, manifestará definitivamente a sua glória: sacrificando livremente a própria vida (cf. Jo 10,17-18) e oferecendo-se a si mesmo na cruz como pão partido. E esclarece que o mesmo deverá fazer quem quiser continuar a sua missão: «Se alguém quer vir após mim – diz –, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me» (v. 24).
Jesus revela, assim, que somente o amor salva. O amor que Deus nos mostrou fazendo-se homem, morrendo e ressuscitando por nós e, como resposta, aquele com que também nós nos oferecemos humildemente a Ele e aos irmãos: na constância fiel da caridade de cada dia, assim como nos gestos mais extraordinários, até mesmo ao martírio, às vezes, como infelizmente acontece também hoje com muitos cristãos, em várias partes da terra.
Santo Agostinho dizia que «a alegria do ceifeiro […] demonstra a intenção do semeador» (Sermo 330, 2), e nós desejamos fazer nossos os seus sentimentos: com a ajuda de Deus, queremos espalhar por toda parte no mundo as sementes de sua caridade infinita, sem nos cansarmos, sem medida, para que hoje e sempre alguém possa alegrar-se ao recolher seus frutos.
Infelizmente, nem todos compreendem a beleza, a bondade e a concretude deste sonho do Criador; ao contrário, muitos pensam que seja uma utopia. Oferecer a outra face (cf. Mt 5,39) – dizem – é coisa de perdedores; dar diante da rejeição é ser ingênuo; perdoar sem limites (cf. Mt 18,21-22) é coisa de fracos. Não é de se admirar. Até para Pedro foi difícil aceitar esse modo novo e diferente de pensar (cf. Mt 16,22). Mas Jesus permanece categórico: somente o caminho do amor é o caminho da vida.
Não nos iludamos. O ódio e a violência não trazem nada de bom, mas apenas destruição e morte, sempre, mesmo quando são uma resposta às injustiças sofridas. Vemos isso todos os dias, desde o pequeno âmbito de nossa vida doméstica até o grande cenário do mundo. Tudo confirma aquilo que Jesus nos ensinou: «quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, vai encontrá-la» (Mt 16,25).
Queridos irmãos e irmãs, temos tanta necessidade de vida, de esperança, de serenidade, de paz, em nós mesmos, em nossas cidades, entre os povos e as nações. Por isso, seja qual for a ferida, seja qual for a ofensa, não permitamos que o mal desfigure nossa humanidade e nos corrompa o coração! Não nos conformemos com a mentalidade do mundo (cf. Rm 12,2). Continuemos a amar, a doar, a perdoar, oferecendo-nos «como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus» (v. 1), para preservar e fazer crescer, em nós e nos outros, a dignidade infinita da imagem divina que trazemos na alma. E não desanimemos se for difícil: nossa força está no Senhor, e com a sua ajuda tudo é possível (cf. Fl 4,13).
Recorda-nos isso também o rito da procissão pelo lago, que faremos daqui a pouco. Ele evoca outro milagre de Jesus, ocorrido pouco antes dos fatos que ouvimos, quando o Mestre, no Lago de Tiberíades, foi ao encontro dos discípulos amedrontados, caminhando sobre as águas, e os conduziu à margem, acalmando a tempestade (cf. Mt 8,23-27). Precisamente quando estavam mais assustados, à mercê dos ventos contrários, exortou-os a ter fé e a rezar, para reencontrar a paz e, juntamente com Ele, continuar navegando rumo à meta desejada.
Com esta fé, nesta noite, participamos da Eucaristia. Sobre o Altar oferecemos a nós mesmos, juntamente com o pão e o vinho. E o Senhor une as nossas ofertas à sua, consagra-as e nos devolve transformadas no seu Corpo e no seu Sangue, para que as partilhemos como alimento para o caminho. Depois, como os discípulos, deixaremos juntos a margem, levando conosco a imagem de Maria, nosso modelo e guia, para levar ao longo das margens do lago a bênção que recebemos.
São gestos simples, com os quais renovamos nossa confiança em Deus e nossa devoção filial à sua Santíssima Mãe. E são ainda mais evocativos porque se tornam possíveis – como gostava de recordar São Paulo VI – pelo cuidado com que a pequena comunidade que vive aqui conserva durante todo o ano este lugar de paz, para que, nos momentos solenes, todo o povo de Deus possa reunir-se aqui, assim como Maria, que acolheu em seu ventre e na casa de Nazaré o Filho de Deus feito homem, para que a todos pudesse chegar a sua salvação.
Assim, este lugar de devoção mariana torna-se também um sinal de como a Igreja se esforça, dia após dia, para fazer de todos nós um só corpo, na oração, nos sentimentos, nos propósitos, no desenvolvimento ordenado e unânime do nosso ser juntos, e um símbolo do amor com que o Senhor, por meio de sua Santíssima Mãe, quis aproximar-se de nós como um de nós, até se misturar com a grande multidão da nossa humanidade (cf. Homilia na Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, 15 de agosto de 1977).
Aproximemo-nos, então, nesta noite, de Jesus e de Maria, do Filho e da Mãe, para sermos, unidos, não somente no lago, mas em todas as noites do mundo, um reflexo sereno da presença de Deus e um eco irresistível do seu amor que convida a amar".
Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui.