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Laos, o país mais bombardeado do mundo

“Meu nome é Yeng-Chang Cheung-Wu. Venho da província de Xieng Khouang, no Laos, e trabalho para o Mines Advisory Group (MAG). O MAG é uma organização humanitária internacional que remov...

Laos, o país mais bombardeado do mundo

“Meu nome é Yeng-Chang Cheung-Wu. Venho da província de Xieng Khouang, no Laos, e trabalho para o Mines Advisory Group (MAG). O MAG é uma organização humanitária internacional que remove e destrói minas terrestres, bombas de fragmentação e outros artefatos explosivos não detonados em áreas afetadas por conflitos. Trabalhamos no Laos há mais de trinta anos para ajudar as comunidades a viver com segurança e construir um futuro melhor. Meu país ainda carrega as cicatrizes de artefatos explosivos não detonados (UXO) deixados para trás por uma guerra que terminou há mais de cinquenta anos.” O depoimento de Yeng-Chang Cheung-Wu ao Vatican News lança luz sobre um dos capítulos menos conhecidos da Guerra Fria — uma história marcada por pelo menos três paradoxos notáveis.

Primeiro, o Laos é o país mais bombardeado da história em relação à sua população, mas sua história permanece amplamente esquecida. Segundo, o conflito nunca foi oficialmente declarado. Incapazes de travar uma guerra abertamente contra um país reconhecido como neutro, os Estados Unidos realizaram uma campanha de bombardeio em massa que ficou conhecida como a “Guerra Secreta”. O terceiro paradoxo é o seu legado duradouro: milhões de bombas de fragmentação não explodiram. Estima-se que 80 milhões de pequenas bombas (submunições) não detonadas ainda estejam espalhadas pelo país; somente em 2024, esses artefatos causaram 48 vítimas, um lembrete de que, para muitos laosianos, a guerra nunca terminou de fato.

Para entender essa história, é preciso voltar a 1954, quando a derrota francesa em Dien Bien Phu, pelas mãos do Viet Minh, pôs fim a quase um século de domínio colonial na Indochina. Os Acordos de Genebra reconheceram a independência do Laos e do Camboja e os declararam estados neutros, enquanto o Vietnã foi temporariamente dividido ao longo do paralelo 17: o Norte comunista, sob o comando de Ho Chi Minh, e o Sul, apoiado pelos EUA, aguardando eleições que nunca ocorreram. O Laos, recém-independente, enfrentou dois desafios desde o início. Uma guerra civil colocou o governo real contra o Pathet Lao comunista, apoiado pelo Vietnã do Norte. Ao mesmo tempo, sua geografia tornava o país estrategicamente vital. Através das montanhas arborizadas de Annam passava grande parte da Trilha Ho Chi Minh, a rede logística usada por Hanói para transportar tropas, armas e suprimentos para o Vietnã do Sul. Embora partes da trilha também atravessassem o Vietnã e o Camboja, o Laos tornou-se seu principal corredor, transformando um país formalmente neutro em um campo de batalha fundamental da Guerra Fria.

Durante anos, a extensão do envolvimento dos EUA permaneceu amplamente oculta. Documentos desclassificados pelo National Security Archive em 2008 revelaram que pessoal contratado pela CIA participou de operações aéreas secretas e que, durante a crise do Laos em 1959, a Força Aérea dos EUA chegou a considerar o possível uso de armas nucleares. O presidente John F. Kennedy buscou inicialmente uma solução diplomática, em parte porque os recursos secretos dos EUA estavam fortemente empenhados em outras frentes — notadamente nos preparativos para a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba — e em parte para evitar a ampliação do confronto da Guerra Fria. Seus esforços culminaram no Acordo de Genebra de 1962, que reafirmava a neutralidade do Laos. O acordo, no entanto, rapidamente fracassou. Forças norte-vietnamitas permaneceram no Laos e, à medida que a Guerra do Vietnã se intensificava, Washington concluiu que interromper a Trilha Ho Chi Minh havia se tornado essencial. Em 14 de dezembro de 1964, os Estados Unidos lançaram a Operação "Barrel Roll", uma campanha de bombardeio não declarada que duraria quase uma década. Simultaneamente, a CIA organizou e financiou um exército secreto composto majoritariamente por combatentes Hmong, sob o comando do general Vang Pao, para combater as forças comunistas em solo. Entre 1964 e 1973, aeronaves dos EUA realizaram cerca de 580.000 missões aéreas sobre o Laos e lançaram mais de dois milhões de toneladas de bombas — uma média de uma missão de bombardeio a cada oito minutos, dia e noite, durante nove anos consecutivos. Registros desclassificados (mais informações em Victor B. Anthony, Richard R. Sexton, "The United States Air Force in Southeast Asia: The War in Northern Laos, 1954–1973", Center for Air Force History, 1993) também mostram que, durante a pausa nos bombardeios ao Vietnã do Norte no Natal de 1965, muitas missões aéreas dos EUA foram simplesmente redirecionadas para o Laos. Essa foi a Guerra Secreta: um conflito travado à sombra da Guerra do Vietnã, cujas consequências continuam a moldar a vida de milhões de laosianos até hoje.

Mais de cinquenta anos após o fim da guerra, equipes de remoção de artefatos explosivos continuam a limpar terras agrícolas, florestas e vilarejos em todo o Laos. Craig Guwuriro, gerente de programas da HALO Trust no Laos, disse ao Vatican News que a organização atua na província de Savannakhet desde 2012. "Ainda hoje, as pessoas cultivam terras sob as quais bombas não detonadas podem estar enterradas. Isso afeta a agricultura, o desenvolvimento econômico e a segurança cotidiana de comunidades inteiras. Embora o número de vítimas tenha diminuído significativamente nos últimos anos, pessoas continuam sendo mortas e feridas." Para a HALO, a limpeza é apenas parte da missão. "Alguns artefatos não detonados, especialmente as submunições de bombas de fragmentação, podem parecer inofensivos. Por isso, também trabalhamos com as comunidades locais, ensinando as pessoas a reconhecer o perigo e a relatá-lo com segurança." Durante uma visita ao distrito de Vilabouly, em maio passado, Guwuriro viu equipes de limpeza preparando terrenos para a agricultura e a pecuária. "Em alguns locais, nossas equipes encontraram até cem artefatos não detonados em um único dia. Cada um deles precisa ser localizado, escavado e destruído com segurança antes que a terra possa ser devolvida à comunidade." Ele acrescenta que esse trabalho é viabilizado pelo apoio de parceiros internacionais, permitindo que as famílias recuperem suas terras e construam meios de subsistência mais seguros.

A mesma missão impulsiona o Mines Advisory Group (MAG). "Além das operações de limpeza de áreas, oferecemos educação sobre riscos para ajudar as comunidades a conviver com segurança diante da ameaça de munições não detonadas (UXO) e atuamos sempre que itens perigosos são relatados", diz Yeng-Chang Cheung-Wu. "O impacto é tangível. Uma vez que a terra é limpa, as famílias podem voltar a cultivar, as comunidades podem construir escolas e estradas, e as crianças podem brincar sem medo. Venho da província de Xieng Khouang, uma das áreas mais fortemente contaminadas por munições não detonadas, e vi pessoalmente a diferença que esse trabalho faz. Cada item que removemos é uma ameaça a menos para uma família. Cada pedaço de terra que limpamos proporciona às comunidades mais segurança, confiança e esperança."

"Uma das muitas anomalias da Guerra da Indochina é que aqueles que mais sofreram foram também os menos ouvidos." Assim começa Vozes da Planície dos Jarros (Voices from the Plain of Jars), o livro no qual o trabalhador humanitário americano Fred Branfman levou ao conhecimento do mundo o testemunho de moradores de vilarejos laosianos que sobreviveram aos bombardeios. Branfman recorda-se de chegar ao Templo That Luang, em Vientiane, em setembro de 1969, onde o chão estava repleto de centenas de pessoas deslocadas. Sentado ao lado de um agricultor, perguntou se ele havia testemunhado o bombardeio. O homem abaixou-se, traçou a letra "L" na poeira com o dedo e apontou para um abrigo escavado na encosta da montanha. Ali, disse ele, ele e sua família viveram por meses, saindo apenas à noite para buscar comida e cuidar de suas plantações. Então vieram as palavras que Branfman jamais esqueceria: "Vivíamos como animais". E, em seguida, outra frase: "Não havia uma noite em que pensássemos que estaríamos vivos pela manhã, nem uma manhã em que pensássemos que estaríamos vivos ao cair da noite".

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