Se o fator humano não foi totalmente perdido na chamada crise de Ceuta, isso se deve em grande parte à Igreja, que, com palavras claras e ações concretas, trouxe à tona essa característica essencial quando se trata de pessoas: a humanidade.
Após o desembarque maciço de migrantes, o padre Fernando Redondo Pavón, diretor do Departamento de Migração da Conferência Episcopal Espanhola - depois de expressar profunda preocupação com o que quer que estivesse por trás desses movimentos em massa -, reiterou imediatamente a necessidade de respostas baseadas em direitos e que levem em conta a dignidade humana. "Os migrantes - disse ele - não devem ser objeto de exploração política. A dignidade não conhece fronteiras e ninguém a perde por ter cruzado uma."
Essas palavras foram seguidas pelas do colombiano scalabriniano Carlos Andrés Méndez, que atua na diocese de Cádiz e Ceuta há dois anos, que declarou à revista Vita Nueva que "o respeito fundamental que todo homem merece, como filho de Deus, é um direito inalienável e não pode ser negado por motivo algum no mundo".
Méndez trabalha na Casa de Acolhida Santo Antônio, um centro de assistência a migrantes que se define como "uma mão amiga que acolhe a todos como família, pela assistência, formação e integração".
A Diocese de Cádiz-Ceuta também disponibilizou suas instalações de acolhimento às autoridades e aos migrantes, enquanto as paróquias da cidade de Ceuta destinaram as ofertas recolhidas durante as celebrações eucarísticas para apoiar e acompanhar os que chegam à cidade. "A reação da Igreja é motivo de grande orgulho", afirma o sacerdote missionário comboniano Enrique Bayo Mata, diretor da revista missionária espanhola Mundo Negro. "Nós vemos nossos irmãos e irmãs antes de vermos tratados e fronteiras. A prioridade é cuidar das pessoas que estão sofrendo, algo muito mais importante do que Schengen. Diversas organizações católicas agiram imediatamente para oferecer a melhor acolhida possível aos que retornavam; a Cáritas, os Scalabrinianos e a diocese fizeram tudo o que puderam para ajudar. O Centro Santo Antônio, administrado pelos Padres Scalabrinianos, tem capacidade máxima para 10 pessoas; agora abriga mais de 40. A Igreja se colocou a serviço sem se envolver em questões políticas, mas se concentrou inteiramente em acolhê-los; o fator humano é o mais importante."
"Nos dias que se seguiram ao desembarque em Ceuta e até hoje, encontrei muitas crianças", explica Soraya Aybar Laafou, jornalista e colaboradora do Mundo Negro, que trabalha atualmente em Ceuta. "Algumas têm 13, 14, 25 anos, no máximo. Em seus olhos e palavras, senti muita decepção e raiva, não por causa de como foram tratadas — nenhuma reclamou de abuso —, mas porque foram enganadas.
Nas semanas que antecederam o desembarque, vídeos, mensagens e fotos, todos criados com inteligência artificial, circularam nas redes sociais, oferecendo uma imagem completamente distorcida da Europa e dos europeus. Elas se sentiram cruelmente enganadas." A jornalista relata então ter ouvido muitos jovens, ao retornarem, alertarem outros do outro lado da fronteira para não partirem, porque "é tudo mentira, parem enquanto podem, não arrisquem suas vidas à toa".
Na parte espanhola de Ceuta, continua, "permanecem centenas de migrantes, alguns dos quais aguardam há algum tempo a análise de seus pedidos de asilo, incluindo muitos sudaneses, mas também palestinos, iemenitas, sírios e marroquinos. Um dos principais problemas é que eles não têm mais telefones porque os perderam durante a travessia ou não conseguem recarregar as baterias e, portanto, não conseguem se comunicar com suas famílias, que não sabem se eles estão entre os mortos."
Segundo a jornalista, "existe um grande desequilíbrio na raiz de tudo. Um emprego no lado espanhol de Ceuta paga oito vezes mais do que no lado marroquino, uma disparidade enorme e paradoxal, visto que a distância entre um lugar e o outro é de apenas alguns quilômetros. É a desigualdade entre África e Europa, e essa é a raiz de tudo. Se não refletirmos sobre como abordar, ao menos parcialmente, essa desigualdade, se não tentarmos corrigir o desequilíbrio, a migração será sempre uma questão premente. Um mundo mais justo e fraterno é a solução, certamente não a militarização das fronteiras e dos Estados."
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