A conversa destacou o impacto do trabalho comunitário e a transformação social promovida pela eletrificação de áreas remotas, cujo modelo pioneiro nascido em solo brasileiro antecipou em mais de uma década as metas globais da Organização das Nações Unidas (ONU).
A caminhada que transformou o panorama energético do país começou bem antes da fundação formal do instituto, em 1984. Naquela época, o cenário da exclusão elétrica no Brasil era alarmante:
"Essa era uma questão que chegava a 45% da população brasileira. Nós éramos em torno de 110 milhões, e 45 milhões dos brasileiros não acessavam energia", relembrou Fábio.
Trabalhando como secretário de Agricultura em Palmares do Sul, no Rio Grande do Sul, ele debruçou-se sobre o desafio de levar eletricidade para os produtores locais. O que era para ser a solução de um problema estritamente municipal acabou por revelar-se um modelo aplicável em escala global.
Seis anos após o início do projeto, o município estava 100% eletrificado. Fábio Rosa provou que a energia, mais do que acender lâmpadas, funciona como um vetor de desenvolvimento humano e econômico, capaz de arrastar comunidades inteiras do século XIX diretamente para o século XXI.
O sucesso do projeto atraiu a atenção do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em 1985. O banco constatou que a metodologia aplicada no Sul reduzia drasticamente os custos de instalação:
Custo tradicional médio da época: Cerca de U$ 8.000 por propriedade rural.
Custo do modelo IDEAAS: Cerca de U$ 400 com o mesmo resultado.
O segredo dessa economia substancial repousava em dois pilares:
Adequação técnica (Engenharia): Em vez de replicar as tradicionais redes trifásicas com grandes transformadores de 150 kVA para famílias que consumiam apenas 1 kVA, o projeto redesenhou a infraestrutura de forma compatível com a realidade do campo.
Organização comunitária: A própria população local participava ativamente das obras. Atividades simples, como escavar os buracos para a colocação dos postes, eram feitas em regime de mutirão pelos moradores, eliminando custos logísticos desnecessários.
Pioneirismo Brasileiro na Agenda Internacional
O impacto desse modelo foi tão profundo que acabou respaldando a criação da Lei 14.300 no ano de 2002, que reconheceu o acesso universal à energia como um direito de todos os cidadãos no Brasil. Com isso, o país tornou-se a primeira nação da era moderna a estabelecer legalmente e buscar a universalização energética.
Esse entendimento cultural e político antecedeu as próprias Nações Unidas. A ONU só viria a consolidar uma visão equivalente em 2012, com o lançamento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Hoje, a causa defendida pelo IDEAS há décadas corresponde exatamente ao ODS número 7: Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e acessível à energia limpa para todos.
Embora o avanço global tenha sido significativo, a exclusão energética ainda afeta uma parcela massiva da população mundial. Fábio Rosa corrigiu a estimativa antiga de que metade do planeta estaria às escuras, atualizando os dados:
Atualmente, calcula-se que entre 1,2 bilhão e 1,5 bilhão de pessoas no mundo ainda não têm acesso à eletricidade (excluindo os dados oficiais da China, que não são divulgados).
Desse total, cerca de 600 milhões concentram-se na região da África Subsaariana.
A Índia responde por cerca de 200 milhões de indivíduos sem energia.
No Brasil, o índice de atendimento já atinge 98% da população. O grande gargalo restante, onde o IDEAS ainda concentra esforços, localiza-se nas regiões mais isoladas e remotas da Amazônia, nas calhas dos grandes rios (como Tapajós e Amazonas), no arquipélago do Bailique (na Guiana Francesa), na região do Arapiuns e junto às fronteiras com a Venezuela e a Colômbia, englobando muitas comunidades indígenas.
Durante a entrevista, Fábio Rosa trouxe um depoimento emocionado sobre a dinâmica de atuação nessas fronteiras geográficas e humanas. Ele destacou que, nas localidades mais isoladas da Amazônia ou mesmo nos primórdios das colônias italianas, alemãs e polonesas no Sul do país, a estrutura do Estado frequentemente demorava a chegar.
"Em geral, antes do Estado, chegava uma ação comunitária da Igreja. Você encontra um centro comunitário, um serviço da Igreja nesses locais. E é o ponto de chegada onde se procura o apoio para poder chamar as pessoas e começar a desenvolver as coisas", relatou.
De formação jesuíta, Fábio reforçou que essa capilaridade histórica da Igreja cria uma rede de acolhimento e confiança fundamental para o sucesso de projetos humanitários, unida por um profundo sentimento de fraternidade e fé que, em última análise, conecta e irmana a todos.
Desde 1997, o IDEAAS atua na área de acesso à energia e de usos produtivos da energia para promoção do desenvolvimento sustentável. Com projetos por todo o Brasil, regiões da América Latina e da África, a área de atuação do IDEAAS envolve concepção, desenvolvimento e implementação de projetos em: - Sistemas de energia solar fotovoltaica - Modelos de negócio e de gestão para geração descentralizada - Sistemas de eletrificação rural de baixo custo - Uso de energias alternativas para o desenvolvimento rural e geração de renda - Tecnologias sociais de acesso à energia - Promoção da saúde, educação e cultura por meio do acesso à energia Conheça os projetos em andamento e já realizados.
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