Padre José Inácio de Medeiros, CSsR - Instituto Histórico Redentorista
Entre tantos assuntos que já tratamos aqui nessa coluna, não poderíamos deixar de falar de uma das mais tristes páginas da história do continente aficano, com a imposição do apartheid ou Política de Segregação Racial imposta tantos anos sobre a população negra da África do Suk.
O termo apartheid que significa "separação" ou "identidade separada" serviu para designar o regime político da África do Sul que durante décadas, impôs a dominação da minoria ou aristocracia branca sobre grupos pertencentes a outras etnias, compostos em sua maioria por negros.
O termo apartheid não deve ser interpretado simplesmente como "racismo", porque foi um sistema constitucional de segregação racial que abrangeu as esferas social, econômica e política da nação sul-africana estabelecendo critérios para diferenciar os grupos e as pessoas.
A origem do apartheid remonta ao período da colonização da África do Sul. Os primeiros colonizadores que, vindos da Holanda, França e Alemanha, se estabeleceram na região entre os nos séculos XVII e XVIII, dizimaram a população nativa tomando suas terras. Os líderes dos colonizadores manipularam o preceito religioso cristão que a princípio estabelecia a segregação como uma forma de defender e preservar as populações tribais da influência dos brancos, em uma ideologia nacionalista que pregava a desigualdade e separação racial.
Os colonizadores se julgavam superiores e a cor e características raciais determinaram o domínio da população branca sobre os demais grupos sociais e a imposição de uma estrutura de classe baseada no trabalho escravo.
A política racial diferenciou então os europeus ou a população branca dos africanos. Até mesmo os grupos compostos por imigrantes asiáticos, em particular indianos, sofreram com a política de discriminação racial.
Esse domínio da população não-branca da África do Sul gerou inúmeros conflitos, uma vez que as populações tribais ofereceram resistência aos brancos.
O processo de modernização pelo qual a África do Sul passou no início do século XX, intensificou os conflitos entre brancos e não-brancos, mas a minoria branca também soube explorar os conflitos que existiam entre as tribos e entre os diferentes grupos étnicos, facilitando o seu domínio.
O apartheid havia sido estabelecido oficialmente na África do Sul em 1948 pelo Partido dos Nacionalistas que tomou o poder e bloqueou a política integracionista que vinha sendo praticada pelo governo central. O sistema de segregação racial atingiu então o seu auge com a abolição de alguns direitos políticos e sociais que ainda existiam em algumas províncias sul-africanas.
A segregação assumiu então enorme extensão passando por todos os espaços e relações sociais. Apopulação branca controlava cerca de 87% do território do país e o que sobrava compunha alguns territórios independentes deixados aos grupos sociais não-brancos.
Na década de 1970, o governo central da África do Sul tentou encontrar fórmulas que assegurassem certa legitimidade internacional, porém, tanto a ONU como a Organização da Unidade Africana, votaram inúmeras resoluções condenando o regime segregacionista.
Ao longo dos anos de 1970, a África do Sul enfrentou diversas revoltas sociais promovidas pela maioria negra, mas duramente reprimidas. Sob o governo de linha dura, liderado por Peter. W. Botha (1985-1988), tentou-se eliminar os opositores brancos ao governo,mas as revoltas raciais cresceram, sendo duramente reprimidas.
As revoltas sociais se intensificaram bem como as pressões internacionais e nesse contexto é que aparece a figura marcante do líder negro Nelson Mandela. Em 1989, Frederic. W. de Klerk, assumiu a presidência e a partir de 1990, conduziu diversas medidas que decretaram o fim do regime do apartheid. Neste mesmo ano, Nelson Mandela, que desde 1964 cumpria pena de prisão perpétua, foi posto em liberdade. Nas primeiras eleições livres, ocorridas em 1993, Mandela foi eleito presidente da África do Sul e governa de 1994 a 1999.
O fim do regime segregacionista realizado no papé, não significou, porém, o fim dos problemas e dificuldades. O país enfrenta hoje um cenário de profundos contrastes. Embora seja uma das economias mais industrializadas e desenvolvidas do continente africano, o país lida com altos índices de criminalidade, desigualdade socioeconômica e tensões sociais agravadas pelo desemprego. O país possui um ambiente de negócios sofisticado e um setor financeiro de nível mundial, contudo, é considerado um dos países mais desiguais do mundo, gerando impactos diretos na qualidade de vida da população.
A escassez de oportunidades tem impulsionado episódios de xenofobia e o crescimento de grupos anti-imigração com episódios direcionados especialmente a migrantes de outros países africanos.
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