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Burundi: Uma paz duradoura deve ser construída todos os dias.

O Burundi é como uma praia diante de um mar revolto. Ondas gigantescas de violência desabam periodicamente sobre este pequeno país. O ódio interétnico é o vento que sopra sobre as águas...

Burundi: Uma paz duradoura deve ser construída todos os dias.

O Burundi é como uma praia diante de um mar revolto. Ondas gigantescas de violência desabam periodicamente sobre este pequeno país. O ódio interétnico é o vento que sopra sobre as águas, desencadeando massacres que ceifaram milhares de vidas ao longo do tempo. Esses tsunamis, por vezes causados ​​pelo conflito entre as etnias Hutu e Tutsi, ocorreram em 1965, 1972, 1988, 1993 e 2015. Todas essas crises resultaram em milhares de mortes, na destruição de infraestruturas e em profundas tensões sociais.

Nesse contexto, a paz deve ser construída dia após dia, até se tornar um modo de vida. O Estado busca promover uma paz duradoura, inclusive por meio de acordos como os Acordos de Arusha, de 2000. Nesse cenário, a Igreja Católica desempenha um papel fundamental; movimentos de Ação Católica, em comunhão com a hierarquia eclesiástica, promovem a santidade da vida, os direitos humanos, a paz e a reconciliação. Para tanto, desde 2004, a Igreja no Burundi desenvolve um projeto de paz e reconciliação que envolve jovens, políticos, sacerdotes, religiosos e membros de outras denominações religiosas. Essa iniciativa é descrita por Dom Salvator Niciteretse, Bispo da Diocese de Bururi, no sul do país, região que abriga cerca de 900 mil católicos, ou 45% da população. Trata-se de uma Igreja que pagou um preço muito alto durante a violência e que, hoje, considera a reconciliação uma prioridade pastoral. Três missionários xaverianos, dois sacerdotes, uma leiga, milhares de fiéis e até mesmo o Núncio Apostólico foram mortos na diocese.

O bispo recorda como muitos cristãos esconderam pessoas do grupo étnico rival, arriscando a própria vida. O símbolo mais poderoso continua sendo o martírio dos 40 seminaristas de Buta. Em 1997, um grupo de rebeldes hutus invadiu o seminário e ordenou que os estudantes se separassem em hutus e tutsis. Os jovens recusaram-se, declarando-se simplesmente cristãos e irmãos em Cristo. A milícia abriu fogo, matando quarenta deles. Para a Igreja do Burundi, eles representam um dos maiores testemunhos da fraternidade evangélica. O processo diocesano de beatificação dos seminaristas, assim como o dos três missionários xaverianos mortos na diocese, já foi encaminhado ao Vaticano. A Ação Católica está presente em Bururi desde a década de 1960. "Mais do que um movimento único", explica Dom Niciteretse, "trata-se de uma constelação de associações unidas pelos quatro elementos característicos da Ação Católica: finalidade evangelizadora, comunhão com a hierarquia eclesiástica, organização estável e responsabilidade confiada aos leigos". Alguns movimentos, como o Xaveri, originaram-se na República Democrática do Congo; outros, na França; enquanto outros ainda foram fundados na África graças aos Missionários da África. Hoje, esses grupos reúnem mais de 90.000 membros apenas na diocese de Bururi. Crianças, jovens e adultos participam de programas de catequese, formação, animação litúrgica e engajamento social, com o objetivo de traduzir o Evangelho para a vida cotidiana.

Além da formação geral, há encontros dedicados à paz, à reconciliação e ao respeito pela vida, pelos direitos humanos e pelo bem comum. "Trabalhamos para criar uma cultura de paz e reconciliação", afirma o bispo. Por isso, a diocese está estabelecendo quatro centros de formação permanente, um dos quais já foi concluído, voltados para catequistas, líderes de movimentos, professores, voluntários, políticos, policiais, militares e outros leigos. O verão é um dos períodos mais importantes do ano. Grandes encontros ocorrerão em três locais da diocese, envolvendo cerca de 10.000 jovens, dos quais 90% pertencem a movimentos da Ação Católica. Ao longo de vários dias, eles alternarão entre oração, reflexão e formação centradas nas mensagens do Papa, na doutrina social da Igreja, na justiça, na liberdade e, sobretudo, na necessidade de superar as divisões étnicas.

Promover a paz também envolve o diálogo ecumênico e inter-religioso. Desde 2004, a diocese organiza marchas pela paz e iniciativas conjuntas com católicos, protestantes e muçulmanos para fomentar a compreensão mútua e evitar que tensões políticas se transformem em conflitos entre comunidades. Segundo Monsenhor Niciteretse, o problema não é a convivência entre hutus e tutsis. "As pessoas são capazes de conviver. São certos líderes políticos que alimentam divisões, explorando a discriminação, a exclusão política e a injustiça social para fortalecer o próprio apoio." Portanto, ele conclui, a paz nasce sobretudo da educação das novas gerações, chamadas a reconhecerem-se mutuamente como irmãos e irmãs antes de se identificarem como membros de um determinado grupo étnico.

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