Padre José Inácio de Medeiros, CSsR - Instituto Histórico Redentorista
Eu começo o texto e o programete com uma pergunta: Você sabe quantos países existem na África hoje?
Entre as décadas de 1950 e 1970, o continente africano viveu uma das maiores ondas de libertação da história moderna. Após séculos de colonialismo europeu, povos de todo o continente disseram basta e iniciaram lutas diplomáticas, movimentos populares e guerras de libertação para conquistar sua autodeterminação.
Gana foi o primeiro país e em 1957, liderou o caminho sob Kwame Nkrumah, tornando-se o primeiro país africano subsaariano independente. Depois vieram o Congo (1960), a Argélia (1962), após uma das guerras mais sangrentas contra a França, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau (1974-75), através de longas lutas armadas contra Portugal, sobretudo, depois da Revolução dos Cravos acontecida no país lusitano.
Zimbábue também se tornou independente (1980), após forte resistência à colonização branca. Em relação à África do Sul, sua última grande libertação política, se deu com o fim do Apartheid em 1994 e tivemos ainda, em 1990, a Namíbia festejando sua independência.
Alguns processos de independências foram negociados, acontecendo de forma um pouco mais pacífica, outros foram conquistadas com sangue. Mas, tirando alguns elementos específicos de cada nação, todas tiveram algo em comum: a profunda vontade de conseguir a liberdade, pondo fim a séculos de dominação colonial.
Infelizmente a liberdade adquirida não colocou um fim aos problemas e, ainda hoje, mesmo independentes, a maioria dos países africanos enfrentam enormes desafios herdados do colonialismo como fronteiras geográficas artificiais, dependência econômica e forte influência externa.
Para que o processo de independência se concretizasse, houve uma somatória de esforços, inclusive com a colaboração de inúmeros pensadores nativos do próprio continente.
Grandes pensadores africanos, desconhecidos do resto do mundo, desafiaram o mundo, pois nem todas as batalhas são travadas com espadas. Algumas são lutadas com ideias e foram essas que moldaram o destino de todo o continente.
Quando o egípcio Ptahhotep, há mais de 04 mil anos, escreveu o seu “Ensinamento”, já falava de ética, justiça e equilíbrio social, princípios que muito antes de Sócrates ou Confúcio, já orientavam governantes africanos.
Séculos depois, Ibn Khaldun, nascido em Tunis, em 1332, revolucionou o pensamento histórico, sendo o primeiro a explicar que as civilizações crescem e caem por causas sociais e econômicas, muito antes de Karl Marx sonhar em nascer.
No coração da África Ocidental, Cheikh Anta Diop do Senegal, no século XX, ousou afirmar que o Egito antigo era uma civilização africana negra, uma tese que desafiou o eurocentrismo histórico e mudou para sempre o debate sobre as origens da humanidade.
E no mundo moderno, Amílcar Cabral, Kwame Nkrumah e Frantz Fanon provaram que pensar também é resistir. As suas ideias libertaram nações, armas intelectuais contra o colonialismo e a dominação mental.
Portanto, a história africana não começa na escravidão, mas no pensamento. E cada um desses nomes é prova de que o saber também é uma forma de luta.
Como já dissemos acima, apesar da independência conseguida a duras penas, a África continua pagando um alto preço pelo seu passado colonial. Nos últimos anos, o continente tem sido palco de uma nova onda de golpes de Estado, especialmente na região do Sahel. Países como Mali (2020-2021), Guiné (2021), Burkina Faso (2022), Níger (2023) e Gabão (2023) viram os seus governos civis serem derrubados por militares, muitas vezes com aplausos populares. No início vai tudo bem, mas aos poucos a maioria desses governantes acabam se transformando em ditadores e buscam se perpetuar no poder, como já se viu também no passado em Uganda, Congo e outros países.
Mas por que tantos golpes acontecem nos séculos XX e XXI?
Entre as principais razões apontadas são citadas a fadiga com governos corruptos e eternizados no poder, a falta de desenvolvimento e desemprego crescente, a interferência estrangeira, sobretudo, da França e dos Estados Unidos e a insegurança generalizada causada por grupos terroristas e milícias armadas.
Curiosamente, alguns desses golpes são chamados de “golpes anticoloniais”, pois os militares afirmam querer libertar os seus países da influência ocidental, tendo como exemplo: Burkina Faso. Ali, o Capitão Ibrahim Traoré, de apenas 34 anos, tornou-se um dos líderes mais jovens da África após derrubar o governo em 2022. Rapidamente ganhou apoio popular ao expulsar tropas francesas e aproximar-se da Rússia e outros países não-ocidentais.
Na maioria das vezes o golpe em vez de se tornar uma solução acaba se transformando num retrocesso, pois afasta o apoio e as alianças estrangeiras e leva ao empobrecimento generalizado da população. Enquanto alguns analistas veem os golpes como uma espécie de “reset” necessário para que a história possa ser recomeçada, outros alertam, pois sem instituições fortes e educação política, o ciclo vai se repetindo indefinidamente.
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