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Fábio Tucci: O Pilar da Cidade Celeste

A pouco mais de 300 quilômetros da capital espanhola, a quinta maior cidade do país guarda uma das relíquias mais misteriosas – e significativas – da Igreja. Em 10 de outubro de 1984, o...

Fábio Tucci: O Pilar da Cidade Celeste

A pouco mais de 300 quilômetros da capital espanhola, a quinta maior cidade do país guarda uma das relíquias mais misteriosas – e significativas – da Igreja. Em 10 de outubro de 1984, o então papa João Paulo II visitou a Catedral-Basílica de Nossa Senhora do Pilar e beijou uma pequena porção visível de pedra, atrás da capela mais concorrida do imponente santuário. Os atuais peregrinos podem repetir o mesmo gesto de devoção. Segundo um relato do século XVIII, aquela pequena porção de pedra faz parte de uma coluna de 1,77 metro de altura (1). A parte superior, coberta por uma camada de prata, quase sempre oculta por um manto, é exibida na Santa Capela. Sobre ela, resplandece uma escultura de Nossa Senhora com o Menino Jesus, medindo aproximadamente 39 centímetros. Aos milhares de fiéis que acorrem ali, aquela imagem sobre o misterioso pilar se confunde com a primeira aparição da Virgem Maria no mundo – não propriamente uma aparição como em Lourdes ou Fátima, quando Nossa Senhora já havia ascendido aos céus. Na realidade, uma bilocação, já que, naquele momento, ela ainda peregrinava por esta terra, possivelmente em Jerusalém. Para entender o que aconteceu ali, precisamos seguir os passos de um dos apóstolos mais próximos a Cristo.

Momentos antes de voltar ao Pai, elevando-se e desaparecendo atrás de uma nuvem, Ele confiou uma missão aos seus: “e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (3). Naquela época, um promontório rochoso no extremo ocidental da Hispânia marcava a fronteira do mundo conhecido. Não à toa, havia sido batizado de Finis Terrae – Fim da Terra – pelos romanos. O apóstolo Tiago Zebedeu, irmão de João, se lançaria em uma árdua jornada para espalhar a Boa Nova até aqueles confins do mundo. Mas as agruras da terrível viagem e o aparente fracasso da pregação se abateram sobre o outrora Filho do Trovão. Com poucos discípulos, ele se prostrou às margens do Rio Ebro, na próspera Caesaraugusta… E justamente ali, algo transformou um discípulo abatido em um ardoroso missionário, com ímpeto para desbravar terras hostis e enfrentar o martírio na volta para casa – ele seria o primeiro dos Doze a partir ao encontro do Senhor. Qual era a única pessoa no mundo que poderia ter encorajado Tiago Maior?

Em “A Vida da Virgem”, obra tradicionalmente atribuída a São Máximo, o Confessor, após a ascensão de Cristo Nossa Senhora teria tido um papel fundamental na Igreja primitiva. A Virgem Maria tornou-se um pilar para os apóstolos enviados em missão aos rincões mais distantes da civilização:

“E os santos Apóstolos tomavam-na por guia e mestra e lhes notificavam quaisquer problemas que se apresentassem. Dela recebiam as ordens e o bom conselho, e aqueles que estavam próximos de Jerusalém retornavam até lá só para vê-la... Desde que tinham partido para terras longínquas, faziam questão de voltar a Jerusalém todos os anos durante a Páscoa e de celebrar com a Santa Theotókos a festa da Ressurreição do Cristo. E cada um deles relatava sua pregação entre os pagãos e as perseguições que encontrava por parte dos judeus e gentios hostis. E, depois, reequipados com as preces e a doutrina de Maria, partiam para cumprir a obra da pregação”(3).

Confiada ao discípulo amado ao pé da Cruz, a Virgem Maria tornou-se mãe para todos os discípulos, a Mãe da Igreja. E em Jerusalém, segundo São Máximo, ela seguiria encorajando os apóstolos que acorriam a ela. E exortando-os com os ensinamentos do próprio Senhor. Em Caesaraugusta, a milhares de quilômetros de Jerusalém, o apóstolo Tiago não podia buscar a ajuda da mãe. Mas a mãe não o deixaria desamparado. Apesar da distância, ela foi em socorro do filho – sem dar um único passo. A façanha pode ser explicada pelo fenômeno místico conhecido como bilocação: uma pessoa se faz presente, ao mesmo tempo, em lugares distintos. Não é preciso ir tão longe para se deparar com esse dom extraordinário. No século XX, o padre Pio de Pietrelcina se fazia presente em mais de um lugar ao mesmo tempo, fenômeno testemunhado por inúmeros leigos e religiosos. A bilocação de Nossa Senhora teria contado com poucos testemunhos. Apenas no século XII, a tradição seria registrada. No século XVII, a mística espanhola María de Jesús de Ágreda, na obra “Mística Cidade de Deus”, pintou em cores vivas essa manifestação mariana. Era 2 de janeiro do ano 40 d.C.:

“Manifestou-se a Tiago a Rainha do céu desde a nuvem e do trono em que estava, rodeada pelos coros dos anjos, todos de admirável formosura e resplendor, embora a grande Senhora excedesse a todos em tudo. O bem-aventurado apóstolo prostrou-se por terra e, com profunda reverência, venerou a Mãe de seu Criador e Redentor...

Prosseguiu a Rainha do céu e disse: ‘… Em nome do Todo-Poderoso, prometo-lhes grandes favores e bênçãos e a minha proteção e amparo, pois aqui há de ser templo e casa minha… Em testemunho desta verdade e promessa, ficará aqui esta coluna – onde será colocada a minha imagem. Neste lugar onde edificareis o meu templo, ela perseverará e durará com a santa fé até o fim do mundo’”(4).

Antes de seguir viagem, o apóstolo teria obedecido a ordem da mãe e erguido ali uma singela capela, tradicionalmente a primeira do mundo dedicada à Maria, o embrião da atual e imponente Catedral-Basílica de Nossa Senhora do Pilar. Em nossa era, milhares de peregrinos acorrem ali anualmente em busca da ajuda da mãe de Jesus, da Mãe da Igreja. No início deste ano, tive a graça de estar entre eles, providencialmente em 2 de janeiro, quando a Igreja celebra a bilocação da Virgem. Costumo chamar as relíquias de Janelas para o Paraíso. Aos meus olhos, aquele misterioso pilar revelaria uma das vistas mais privilegiadas…

Para descortiná-la, porém, voltei os olhos a uma simples questão: Por que Nossa Senhora apareceu a São Tiago em Caesaraugusta? A escolha daquela cidade para receber visita tão ilustre não teria sido fortuita, mas cuidadosamente preparada pela divina Providência. Fundada em 14 a.C., a cidade fora batizada em homenagem ao imperador César Augusto. O homem mais poderoso do mundo merecera uma menção no Evangelho de São Lucas:

“Naqueles dias, apareceu um édito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado… E todos iam se alistar, cada um na sua própria cidade. Também José subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, para a Judeia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser da casa e da família de Davi, para se inscrever com Maria, desposada com ele, que estava grávida. Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, e ela deu à luz seu filho primogênito”(5).

O imperador César Augusto havia se transformado em um instrumento involuntário nas mãos de Deus para o cumprimento da profecia messiânica. Segundo Miquéias: “Mas tu, Belém de Éfrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que sairá para mim aquele que é chamado a governar Israel”(6). Nos séculos seguintes, Roma massacraria brutalmente os cristãos até se render ao verdadeiro Rei, nascido em um vilarejo quase esquecido de uma província oriental. Aquela visita de Nossa Senhora a Caesaraugusta não era casual. Era uma mensagem profética. No coração de Roma, a Igreja católica se tornaria o pilar visível do Reino acima dos reinos, triunfando sobre as ruínas de qualquer império mundano e conduzindo os súditos de Cristo ao Paraíso. E nessa empreitada divina, Nossa Senhora, a Mãe da Igreja, cumpriria até o fim dos tempos a missão que o Filho havia lhe confiado: encorajar e consolar seus discípulos – e lhes entregar os tesouros guardados em seu coração.

Aquele pilar de pedra teria resistido no lugar da aparição por quase dois milênios. Teria assistido à prosperidade e ao declínio de Caesaraugusta. E após a invasão muçulmana, no início do século VIII, teria seguido como um testemunho sólido da Fé católica até a Reconquista Cristã, no século XII, quando Saraqusta foi rebatizada de Saragoça, de onde deriva o nome atual. Já no século XX, durante a guerra civil espanhola, algumas bombas lançadas sobre o primeiro santuário mariano do mundo não explodiram – um recado de que a soberba dos homens não consegue alçar altos voos.

Elevada à basílica em 28 de maio de 1948, o santuário passou a acolher cada vez mais peregrinos, desejosos em se aproximar da mãe que o Senhor nos confiou ao pé da Cruz. Sobre o pilar, a singela imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus recorda a humildade da mulher que carregou Deus em seu ventre e deu à luz o nosso Salvador, na época em que César Augusto dominava o mundo. Em dois mil anos, as rédeas do poder passaram por milhares de mãos, mas o verdadeiro Príncipe da Paz segue em seu trono. Enquanto César Augusto se tornou uma figura distante, quase esquecida, Cristo Rei é adorado por mais de um bilhão ao redor do planeta. Segundo a Venerável María de Jesús de Ágreda, a pedra daquele pilar poderia ser jaspe(7), cujo simbolismo, na Bíblia, remete tanto à Glória de Deus(8) quanto ao fundamento da Jerusalém Celeste(9). Independentemente do rigor da classificação mineral e de que boa parte da relíquia esteja encoberta, basta se aproximar com humildade daquele lugar sagrado para alcançar uma altura colossal. Com os olhos do coração abertos, é possível vislumbrar o que encorajou São Tiago a seguir até os confins do mundo e, depois, até a Jerusalém Celeste. Uma multidão de anjos ainda rodeia aquele pilar, quase dois mil anos após a primeira aparição. E do alto dos céus, Nossa Senhora, difundindo uma luz inefável, segue revelando aos seus filhos na terra o que os aguarda no fim desta peregrinação: a alegria perene do encontro com Jesus. Sim, em Zaragoza, temos a graça de tocar o pilar da Cidade Celeste.

(*) Fábio Tucci Farah é jornalista especializado em arqueologia sacra, perito em relíquias da Arquidiocese de São Paulo e da Diocese de São Carlos membro da Academia Brasileira de Hagiologia.

(1) Em 13 de setembro de 1756, o arquiteto Dom José Julián de Yarza y Lafuente analisou o pilar e tomou suas medidas, aproveitando que a relíquia havia sido descoberta durante a construção da Santa Capela.

(3) SÃO MÁXIMO, o Confessor. A Vida da Virgem. Dois Irmãos/RS: Minha Biblioteca Católica, 2020, p. 148.

(4) ÁGREDA, María de Jesús de. Mística cidade de Deus. Disponível em: https://www.concepcionistasaranzazu.com/wp-content/uploads/2018/01/Mistica-Ciudad-de-Dios.pdf. Acesso em: 29 jan. 2026. Trata-se de uma obra de caráter místico-devocional, inserida no âmbito das revelações privadas.

(7) Em 1766, Dom Manuel Vicente Aramburu fez a primeira descrição detalhada conhecida até hoje: “É de jaspe, de duas varas de altura... A coluna de jaspe está coberta de bronze e, sobre o bronze, de prata; e seu diâmetro mede 24 centímetros.”

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