Após a apresentação da saudação e Bênção do Papa Leão XIV aos Dirigentes e a toda a Nação cabo-verdiana, pelos os 50 anos de relações plenas entre a Santa Sé e Cabo Verde, Dom Gallagher na sua saudação manifestou-se antes de tudo feliz por este, disse, meio século de diálogo sereno, cooperação legal e amizade autêntica entre um Estado soberano jovem e uma das instituições diplomáticas mais antigas do mundo,
A diplomacia da Santa Sé insere-se numa longa tradição histórica, cujo objetivo central sempre foi o serviço em favor da paz e da defesa e promoção da dignidade da pessoa humana, disse o prelado, sublinhando que foi a partir da Reforma Gregoriana que o direito de legação foi institucionalizado no âmbito da Igreja, e se tornou elemento essencial de seu governo. Este processo inaugurou, na prática, os fundamentos do serviço diplomático propriamente dito, ao introduzir a ideia de representação regular, continuada e juridicamente reconhecida, explicou o arcebispo.
Para Dom Gallagher, porém, a diplomacia da Santa Sé consolidou-se mais tarde com a distinção entre Núncios, Legados e Internúncios, antecipando práticas posteriormente incorporadas pelo direito internacional clássico porque, de fato, a Igreja é, sim, uma realidade espiritual, mas também uma sociedade organizada sui generis, e é enquanto tal que ela, por meio da Santa Sé, se faz sujeito de direito internacional.
Neste sentido, prosseguiu o também Secretário para as Relações com as Organizações internacionais, a Santa Sé mantém relações diplomáticas com 184 os Estados e foi, na sua experiência de serviço à paz, à justiça e à defesa e promoção da dignidade humana, que ela não tardou em reconhecer Cabo Verde e estabelecer com ela relações diplomáticas plenas.
Como sinal dessa determinação da Igreja pelo reconhecimento da Nação caboverdiana, mesmo antes da declaração da independência, o prelado citou a audiência que o Papa Paulo VI concedeu, em 1º de julho de 1970, no Vaticano, a alguns líderes dos movimentos de luta pela independência dos países africanos.
Este encontro, observou Gallagher, custou à Santa Sé o rompimento temporário das relações diplomáticas com Portugal, mas também revelou a determinação corajosa da Igreja e do Santo Padre em dar visibilidade internacional à questão Africana e à sede pela libertação dos povos colonizados.
Mesmo em tempos muito anteriores à independência ou ao início das relações diplomáticas entre as duas Partes, sublinhou ainda Dom Gallagher, a presença da Igreja Católica não se fez um elemento periférico ou limitado ao âmbito meramente religioso, ela é parte constitutiva essencial de todo o Cabo Verde.
Na verdade, apenas 70 anos após a chegada dos primeiros habitantes nas ilhas, foi criada a Diocese de Santiago de Cabo Verde, a primeira da África subsaariana, em 31 de janeiro de 1533. E bem cedo, Cabo Verde – e, sobretudo, a Diocese de Santiago de Cabo Verde – se converteu em centro irradiador de evangelização e organização eclesial, e também de organização social, com a construção de centros sanitários e de formação. Porque educação e instrução foram seriamente tratadas pela Igreja desde o início do processo de povoamento destas ilhas, enfatizou ainda Dom Gallagher
E, para o arcebispo Gallagher, Cabo Verde soube transmitir e exportar a sua cultura, a sua identidade e a sua fé, não só ao Continente africano, mas ao mundo todo e em todo o tempo. Entre tantos exemplos, o de Manuel Costa de los Ríos, o Negro Emanuel, levado e vendido como escravizado (para a Argentina, onde é venerado), mas que, graças à sua fé e à sua perseverança, conseguiu dar resposta ao sofrimento ao qual estava condenado, de escravo dos homens fez-se “escravo da Virgem e de mais ninguém”, como ele se apresentava, e sobre quem no Vaticano segue o processo canônico em vista da sua beatificação, afirmou o arcebispo.
Gallagher referiu-se igualmente à diáspora cabo-verdiana: onde os Cabo-verdianos chegam, destacou, não só buscam melhores condições de vida, mas também levam a sua música, os seus costumes e a sua identidade, a sua fé, em fim, a sua cabo-verdianidade. Pelo que eles merecem ser adequadamente acompanhados e assistidos por todas as instituições, sejam elas civis, políticas ou religiosas, insistiu.
“E podeis estar certos de que os canais da Igreja sempre estarão abertos e disponíveis, seja em Cabo Verde que na diáspora, para facilitar o encontro e a assistência dos filhos desta nobre Nação”, assegurou o prelado.
Porque a Igreja, não sendo estrangeira em parte nenhuma, “ela preconiza, onde se encontra implantada, o desenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens [...]; fá-lo sempre em plano de subsidiariedade; não reclama privilégios, pede simplesmente que se respeite o espaço de liberdade que lhe cabe e que é direito inalienável daqueles a quem ela procura beneficiar”, reiterou Dom Gallagher citando São João Paulo II.
Exemplo concreto nestes dias, desta expressão, é a aprovação da parte do Governo do Protocolo de aplicação do Acordo entre a Santa Sé e a República de Cabo Verde, em vigor desde maio de 2014, observou Dom Gallagher, e cuja finalidade não é privilegiar a Igreja, mas garantir a assistência devida a quem a ela acorre, em vista do bem comum e do desenvolvimento humano integral de toda a população.
E isto porque a Santa Sé e Cabo Verde partilham numerosos valores prioritários, mas também as preocupações, tanto estruturais quanto antropológicas e culturais, entre as quais os conflitos armados e a instabilidade geopolítica; a crise climática e ambiental; as desigualdades econômicas e a pobreza; o problema da migração ilegal e da exploração do trabalho, e outros.
Porém, o quadro mundial muitas vezes dramático em que vivemos nos deve encorajar ainda mais a promover a diplomacia da esperança e dos valores, na qual se tem empenhado a Santa Sé, mas que também faz parte do empenho da diplomacia de Cabo Verde, disse Dom Gallagher a terminar, citando o constante apelo do Papa Leão XIV por uma “paz desarmada e desarmante”, um renovado convite a reconhecer que outro futuro é possível se convertermos as nossas intenções e interações, baseando-as no amor e na verdade e não na força e na arrogante ganância por domínio e poder.
Inspirados pela vossa cabo-verdianidade, como concidadão do mundo e irmãos na fé, encorajo-vos, dirigentes e população em geral, a perseverar na vossa contínua busca do bem comum e da convivência social pacífica, superando conflitos e divisões e baseando-vos na justiça, na igualdade, na verdade e na solidariedade fraterna, exortou Dom Gallagher.
Volto-me confiante a Deus agradecido pelos já quase 51 anos de independência da vossa Nação e 50 de boas relações diplomáticas entre a República de Cabo Verde e a Santa Sé, que hoje comemoramos, concluiu o arcebispo, confiando todos à proteção materna de Nossa Senhora, e à intercessão de São Tiago Menor e dos Santos Padroeiros das ilhas que compõem o arquipélago.
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