Vívian Marler - Assessora de Comunicação CNBB Norte 2
Maria aparece no Evangelho sempre em movimento. Vai ao encontro de Isabel, percebe a falta de vinho em Caná, guarda no coração as palavras sobre o Filho e permanece de pé junto à cruz. Sua devoção não é feita apenas de imagens, procissões ou cânticos. É uma espiritualidade que conduz ao serviço, à sensibilidade e à fraternidade. Foi com esse olhar que a Diocese de Marabá realizou, no sábado, 29 de agosto, a ‘IX edição do Simpósio Mariano’, organizado pela Diretoria de Evangelização do Círio de Nazaré. O encontro reuniu mais de 800 participantes dos 15 municípios que integram a Diocese, entre leigos, leigas, catequistas, futuros diáconos e agentes envolvidos na evangelização.
A programação começou com a celebração eucarística presidida por Dom Vital Corbellini, bispo da Diocese de Marabá, e prosseguiu com a apresentação do tema do Círio “Em Maria, Jesus veio morar entre nós”, proferida pelo bispo diocesano, e a palestra do padre Leonardo Silveira, da Diocese de Curitiba, sobre “Serva do Senhor: as contribuições da espiritualidade mariana para a fraternidade”. O encontro foi proposto como um momento de formação continuada, oração e fortalecimento da unidade entre as comunidades que participam do Círio de Nazaré. Ao reunir pessoas de diferentes municípios, o simpósio revelou a força de uma devoção que atravessa rios, estradas, famílias e gerações.
Para o padre Leonardo, olhar para Maria significa aprender com ela a viver como servos de Deus e, justamente por isso, como servidores das pessoas. “Maria foi tão serva de Deus que acabou se fazendo também serva dos homens e das mulheres que Deus ama, serva das pessoas”. Essa é uma das maiores riquezas da espiritualidade mariana, Maria nunca concentra o olhar sobre si mesma. Sua vida aponta para Jesus, mas também se volta para as necessidades concretas daqueles que estão ao seu redor.
No episódio da visita a Isabel, Maria não permanece parada depois de receber o anúncio do anjo. Ela se coloca a caminho, com pressa, para ajudar a prima que também esperava um filho. A jovem de Nazaré transforma a experiência da graça em presença e cuidado. Para o sacerdote, esse gesto ilumina a vida das comunidades cristãs. A devoção a Maria precisa despertar a capacidade de perceber quem necessita de ajuda e de agir antes mesmo que o pedido seja feito. “Precisamos ter pressa em socorrer quem precisa, aprender a enxergar a necessidade do outro e ajudá-lo antes mesmo que ele precise pedir”.
O padre Leonardo também relacionou a espiritualidade mariana ao episódio das Bodas de Caná. Maria percebe que o vinho havia acabado e apresenta a situação a Jesus. Ela não espera que os noivos ou os responsáveis pela festa lhe peçam ajuda. Seu olhar sensível identifica a necessidade e busca uma resposta. A atitude de Maria convida os cristãos a desenvolverem uma atenção semelhante diante das feridas do mundo. Muitas pessoas vivem situações de pobreza, solidão, violência e abandono sem conseguir expressar claramente o que estão enfrentando.
A fraternidade começa quando alguém percebe. Percebe a família que precisa de apoio, o jovem que perdeu a esperança, a mãe cansada, o idoso que vive sozinho, a comunidade ameaçada e o trabalhador que enfrenta condições indignas. Nesse sentido, rezar também significa comprometer-se. A oração pode levar à ajuda concreta, à defesa de direitos, à busca por condições mais justas e à construção de políticas e ações que protejam os mais vulneráveis.
O terceiro ponto apresentado pelo padre Leonardo foi a gratuidade da fraternidade. O cristão não é chamado a ajudar o outro pelo que poderá receber em troca, mas porque reconhece nele um filho amado de Deus. Essa dimensão aparece de forma intensa na presença de Maria aos pés da cruz. Ela permanece de pé diante da dor, mesmo sabendo que nada poderia substituir a perda do Filho. Naquele momento, Jesus lhe confia o discípulo amado, e Maria acolhe João como filho. O gesto não representa uma troca capaz de compensar o sofrimento. Maria não recebe algo que substitua Jesus. Ela permanece porque o amor é capaz de atravessar a dor e continuar aberto ao outro.
“A gente precisa até aprender a sofrer e a perder para socorrer o outro. Não socorremos pelo que será dado em troca, mas porque o outro precisa. E isso basta para nos mover enquanto cristãos”, essa reflexão toca o coração da missão cristã. Servir nem sempre traz reconhecimento. Cuidar pode exigir renúncia, tempo e perseverança. Muitas vezes, a pessoa que ajuda não verá imediatamente os frutos do seu gesto. Maria ensina, porém, que o amor verdadeiro não calcula. Ele permanece junto, protege, acompanha e se oferece porque reconhece a dignidade do outro.
O Círio reúne multidões, mas sua força não está apenas no tamanho da procissão. Está na capacidade de renovar vínculos, aproximar pessoas, fortalecer famílias e despertar a solidariedade. Em cada promessa, vela, oração e caminhada, existe uma história de gratidão, sofrimento e esperança. Há pessoas que chegam pedindo uma graça e outras que caminham agradecendo por uma bênção recebida. Todas, porém, são convidadas a voltar para a vida cotidiana com um coração mais disponível ao serviço.
A coordenadora de Pastoral da Diocese de Marabá, Lady Anne Souza, destacou que o Simpósio Mariano foi pensado como um espaço de formação e fortalecimento da evangelização. “Realizamos a nona edição do Simpósio Mariano, organizado pela Diretoria de Evangelização do Círio de Nazaré, com o objetivo de promover formação continuada para as comunidades e também para a equipe que trabalha no Círio”. Segundo Lady Anne, a espiritualidade mariana tem sua centralidade na pessoa de Jesus Cristo. Maria não é compreendida separadamente do Filho, mas como aquela que conduz a Ele e ajuda a comunidade a viver o Evangelho.
A presença dos participantes dos 15 municípios da Diocese demonstrou a dimensão regional da iniciativa. Catequistas, futuros diáconos, leigos, leigas e agentes de pastoral participaram de um momento de oração, formação e unidade. “Foi um momento de oração, de espiritualidade, de fortalecimento e de unidade para a evangelização no Círio de Nazaré”. A espiritualidade mariana é profundamente evangélica porque nasce da escuta. Maria acolhe a Palavra, guarda-a no coração e a transforma em atitude.
No anúncio do anjo, ela responde com confiança. Na visita a Isabel, coloca-se a caminho. Em Caná, orienta os servidores para Jesus. “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5)**. Aos pés da cruz, permanece fiel. No Pentecostes, está reunida com os discípulos em oração. Esses momentos revelam uma mulher atenta, corajosa, disponível e profundamente comprometida com a missão de Deus. Maria não é apresentada como alguém distante da realidade, mas como uma mulher que conhece a alegria, a insegurança, o sofrimento e a esperança. Por isso, ela pode ser modelo para jovens, mulheres e mães. Sua vida ensina que a fé não significa ausência de medo, mas capacidade de confiar e continuar caminhando mesmo quando o futuro não está totalmente claro.
As mulheres que participam das comunidades, das pastorais e da organização do Círio encontram em Maria uma inspiração para servir com coragem e sensibilidade. Assim como Maria, muitas mulheres sustentam a vida cotidiana de suas famílias, acompanham os filhos, cuidam dos idosos, participam das celebrações, organizam ações comunitárias e mantêm viva a fé em momentos de dificuldade. A espiritualidade mariana não deve reforçar uma imagem de mulher silenciosa e sem voz. Maria foi uma mulher capaz de dizer “sim”, mas também de cantar sua esperança e sua denúncia no Magnificat, proclamando que Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes. Seu cântico revela que a fé também possui uma dimensão social. O amor a Deus não está separado da justiça, da defesa dos pobres e da transformação da realidade.
Para os jovens, Maria apresenta um caminho de disponibilidade e protagonismo. Ela era jovem quando recebeu o chamado de Deus, mas não permitiu que sua idade fosse um impedimento para assumir uma grande missão. Sua juventude não foi vivida na passividade. Maria escutou, discerniu, decidiu e colocou-se a caminho. Esse itinerário fala diretamente aos jovens de hoje, que buscam sentido em meio às incertezas e desejam participar da construção de um mundo mais justo. O modelo mariano convida a juventude a não ter medo de servir, de participar da comunidade, de defender a vida e de assumir responsabilidades. A fé não é uma experiência reservada ao passado; ela continua sendo uma força capaz de renovar o presente e abrir caminhos para o futuro.
O Simpósio Mariano deixou como proposta uma fraternidade com rosto mariano, atenta às necessidades, rápida no socorro, generosa no serviço e capaz de permanecer junto aos que sofrem. Essa fraternidade não nasce apenas de discursos. Ela se constrói na visita, na escuta, na partilha, na defesa dos mais frágeis e na disposição de reconhecer cada pessoa como filho e filha amado de Deus. Maria ensina que a devoção precisa sair do coração e alcançar as mãos, os pés e as escolhas. Quem contempla a Senhora de Nazaré é chamado a enxergar melhor, aproximar-se mais e servir com gratuidade. Ao reunir mais de 800 pessoas, o encontro mostrou que a devoção mariana permanece viva na Diocese de Marabá. Uma devoção que não se limita a pedir proteção, mas também aceita o convite para tornar-se presença protetora na vida dos outros.
O Círio passa, mas sua mensagem permanece. A imagem de Maria retorna ao altar, mas sua presença continua nas famílias, nas comunidades e na vida daqueles que aprenderam com ela a confiar. A mulher de Nazaré continua ensinando que Deus se revela na simplicidade, que a grandeza pode nascer do serviço e que a fraternidade começa quando alguém se dispõe a cuidar. No Evangelho, Maria aponta para Jesus. Na vida do povo, ela também aponta para os irmãos e irmãs que precisam ser acolhidos. Sua devoção, quando verdadeiramente vivida, transforma a oração em compromisso e a fé em serviço. Que o Círio de Nazaré continue sendo, para o Pará, o Amapá e toda a Amazônia, uma escola de fraternidade. E que cada jovem, mulher, mãe, catequista e agente de pastoral possa aprender com Maria a responder ao chamado de Deus com coragem, ternura e disponibilidade. Porque Maria foi serva do Senhor. E, justamente por isso, tornou-se serva da vida, da esperança e de todos aqueles que Deus ama.
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