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Cardeal Scherer: Procurando o tesouro

Cardeal Odilo Pedro Scherer - arcebispo metropolitano de São Paulo Afinal, qual é o grande bem e o maior tesouro da vida? O que move as motivações, os interesses, as buscas e as metas?...

Cardeal Scherer: Procurando o tesouro

Cardeal Odilo Pedro Scherer - arcebispo metropolitano de São Paulo

Afinal, qual é o grande bem e o maior tesouro da vida? O que move as motivações, os interesses, as buscas e as metas? Jesus anuncia o Reino de Deus com parábolas, desejando que todos compreendam que esse é o maior bem da vida e, portanto, que todos o acolham de coração aberto e desejosos de participarem dele.

As duas parábolas bem curtas trazem ensinamentos preciosos. Nós somos eternos buscadores e andamos inquietos à procura daquilo que realmente pode dar sentido à nossa vida e pacificar nosso coração. Santo Agostinho, “coração inquieto”, andou procurando muito e se debateu entre ilusões e escolhas erradas. Mas quando encontrou a fé em Cristo, seu coração inquieto sossegou e ele escreveu no seu livro Confissões: “Tu nos fizeste para Ti, Senhor, e nosso coração anda inquieto até que não repouse em ti.”  Ele buscou o tesouro e o encontrou, deixando-se conduzir pela sede de verdade e pela beleza que dela resplandece: “Tarde te amei, ó beleza antiga e sempre nova!”

Lamentavelmente, como reconhece Santo Agostinho na história da própria vida, somos atraídos por quimeras, falsos tesouros e promessas enganosas, e nosso coração se deixa prender por esses tesouros pequenos, quando não, falsos. E perdemos um tempo precioso na vida com nosso interesse focado naquilo que não pode dar paz e plenitude à nossa vida. Podemos valorizar, certamente, os pequenos tesouros do dia a dia, mas sem deixar que nosso coração se prenda a eles, como se fossem o objetivo maior de nossa vida. Nenhum dos bens deste mundo, nem o conjunto deles, pode saciar a sede de felicidade, de vida e de plenitude da existência humana.

Ao contar essas parábolas, Jesus ensina o que é o Reino de Deus e como devemos nos posicionar em relação a ele. No caso das duas parábolas em foco, Jesus convida os ouvintes, que somos nós também, a buscar esse tesouro tão precioso e essa pérola que vale tudo o que temos. Por eles, vale a pena empenhar nossos melhores esforços. E, pelo contrário, quem não se interessa pelo Reino de Deus arrisca perder tudo na vida. De fato, o objetivo supremo da vida é ter parte no Reino de Deus, que já está presente neste mundo, mas ainda não de maneira plena. O Reino de Deus é dom e, também, é conquista.

Há, porém, ainda um outro sentido muito belo e profundo nessas parábolas. Que tesouro é esse? E quem é, acima de tudo, o buscador desse tesouro? Na verdade, o próprio Deus e seu Filho buscam o precioso tesouro, que é cada um de nós e a humanidade inteira; Deus Pai e seu Filho Salvador saem à procura da ovelha perdida, do filho pródigo, da moeda perdida, do homem caído à beira do caminho, do ladrão crucificado, de todo mortal submetido à lei da morte. O homem é esse tesouro precioso, pelo qual Deus procura no seu infinito amor. Ao encontrá-lo, o Pai e o Filho, com o Espírito santificador, fazem festa, como se tivessem encontrado um tesouro e a pérola de grande valor.

São João reporta estas palavras de Jesus no diálogo com Nicodemos: “Tanto Deus amou o mundo que lhe enviou seu Filho unigênito, para que não pereça todo aquele que nele crê, mas tenha a vida eterna.” (cf. Jo 3,16). Somos preciosos aos olhos de Deus (cf. Is 43,4), a tal ponto que fomos “resgatados da vida sem sentido graças ao precioso sangue de Cristo (cf. 1Pd 1,19). As parábolas do tesouro escondido no campo e da pérola preciosa falam do amor infinito pelo homem e da dignidade altíssima de cada pessoa humana. 

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