O mundo no qual somos chamados a anunciar o Evangelho não é um lugar, mas uma pessoa. Ou melhor, dois: dois homens. Um deles é o Bom Samaritano, protagonista da parábola do Evangelho de Lucas. O outro é o seu “próximo”: a pessoa diante de quem o “estrangeiro” para para cuidar. Ambos nos descrevem profundamente e de ambos temos algo a aprender: as feridas, a solidão, o sofrimento e as suas causas, por um lado; a preocupação em se abaixar para cuidar dele, por outro.
Este é o coração da meditação bíblica realizada na manhã desta sexta-feira, 26 de junho, pelo cardeal Grzegorz Ryś, arcebispo metropolita de Cracóvia, na presença de Leão XIV, durante os trabalhos do Consistório Extraordinário na Sala Paulo VI e intitulado Em que mundo somos chamados a anunciar o Evangelho?.
O cardeal inspira-se no discurso final de São Paulo VI ao Concílio Vaticano II. Ao querer descrever o "mundo moderno", o então Pontífice afirmou que "a antiga história do Samaritano" era um modelo e um paradigma. Assim, a dimensão mundana é reduzida ao indivíduo: "Pensemos em homens e mulheres reais, lembrando que ambos são cocriadores do mundo e responsáveis por ele, e que, em última análise, são 'o primeiro e fundamental caminho da Igreja'", explica o cardeal, citando a encíclica Redemptor Hominis de São João Paulo II.
O primeiro rosto humano, narrado pelo evangelista Lucas, desce de Jerusalém a Jericó e cai "vítima de ladrões". "Ser vítima da violência - enfatiza o cardeal polonês - é a descrição de quase todos nós hoje", vivendo em um "macromundo" assolado por 32 guerras em curso. Essa agressão também afeta o "micromundo de hoje", no qual "crianças e jovens" são cada vez mais "vítimas de violência por parte de seus colegas na escola". O bullying começa com linguagem agressiva e depois escala para "assassinato" e "suicídio".
O homem também é "roubado", "despojado", "reduzido à escravidão". Essa perda de dignidade pode ser literal — na escravidão sofrida, por exemplo, pelos migrantes — ou simbólica e "mais sofisticada", como a causada por "drogas, pornografia, vícios de todos os tipos e até mesmo tecnologias modernas, como ensinado na Magnifica humanitas". Além disso, o homem da parábola, continua o arcebispo de Cracóvia, "é espancado e ferido" e "precisa de um hospital de campanha".
Precisamente o estar ferido é "o diagnóstico mais comum hoje em dia": algumas dessas lesões são visíveis — traumas físicos, psicológicos ou espirituais — outras são "profundamente ocultas e nunca mostradas, mas determinam o comportamento e as ações de uma pessoa". O homem que é vítima de bandidos também é "deixado para trás", isto é, sozinho, vítima, como tantos homens e mulheres hoje em dia, da indiferença. O cardeal Ryś, citando o Pe. Timothy Radcliffe, destaca a contradição de uma sociedade onde "meios sofisticados de comunicação" estão disponíveis, enquanto "o homem hoje sofre um tsunami de solidão".
Ele está "meio morto", vive à margem da vida e, em última análise, caminha na direção "oposta ao templo", isto é, para longe de Jerusalém: uma imagem "de nossas sociedades ocidentais secularizadas" ou das distorções da religião, destinadas a "promover ideias e ações absolutamente alheias a ela".
O outro ícone do homem moderno é o "Bom Samaritano", um "estranho, um forasteiro, até mesmo um inimigo, sempre tratado com suspeita e cautela". Cristo, aponta o cardeal Riś, nos convida a "aprender com ele". "Agora - reflete o cardeal - somos chamados a construir um hospital moderno para o homem maltratado, a conhecer todas as suas feridas, mas também a ir à sua escola e humildemente aprender com ele, deixando-o ser nosso mestre".
Desse homem, deduz o purpurado, compreendemos o significado de "compaixão": precisamente "a misericórdia e a caridade podem ser um ponto de encontro entre a Igreja e o mundo". Ele também nos ensina "proximidade" e "intimidade", "generosidade" e "dedicação".
A passagem final da reflexão do cardeal é, ao mesmo tempo, uma análise das duas figuras apresentadas no Evangelho e um incentivo para realizar o trabalho de evangelização dentro dessas duas dimensões da humanidade: "Duas faces do homem e da mulher modernos, do mundo de hoje: um homem quase morto e um estrangeiro que nos ensinam onde reside a verdadeira vida! Ambos são importantes. Ambos são igualmente verdadeiros. Ambos são exigentes. Em ambos", conclui o cardeal, "Deus nos chama a proclamar o Evangelho no mundo."
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