Para o inteletual cabo-verdiano, Filinto Elísio que, semanalmente colabora com a Rádio Vaticano no programa "África em Clave Cultural: personagens e eventos", o pensamento de Amadou Hampâté Bâ permanece uma referência que a África e o mundo não podem ignorar. Pois, foi imenso o contributo dele para a valorização da oralidade como fonte de conhecimento da história antiga do continente, Berço da Humanidade.
Assim sendo, neste ano de 2026, 35º aniversário da morte de Amadou Hampâté Bâ (Costa do Marfim, 15/5/1991), o programa acima mencionado, de 20 de agosto, foi a ele dedicado, tendo como fulcro a crónica que agora aqui disponibilizados:
"Amadou Hampâté Bâ - Um pensamento que permanece como referência
Amadou Hampâté Bâ foi uma das figuras intelectuais e literárias mais importantes da África do século XX, tendo produzido pensamentos, interlocuções e epistemologias que transcendem no tempo.
Tradicionalista, professor, etnólogo, escritor, historiador e filósofo, o seu legado permanece central nos Estudos Africanos/Tradição Oral, e foi referência para figuras como, Leopold Sédar Senghor, Birago Diop, Alioune Diop, Cheikh Anta Diop, Cheikh Hamidou Kane e Camara Laye.
Hampâté Bâ nasceu na cidade de Bandiagara, antiga capital do Império Toucouleur de Macina, no Mali, território do lendário Mansa Musa e onde foi forjada a Carta Mandé, documento precursor da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
A data do seu nascimento situa-se entre 1900 e 1901. A sua vida centenária atravessou a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a Guerra Fria e as Lutas de Independência Africanas. Descendente de uma família nobre fulani, ou fula, perdeu o pai ainda jovem, tendo sido adotado pelo seu padrasto, Tidjani Thiam, aristocrata de Bandiagara.
Estudou primeiro numa escola corânica sob orientação de Tierno Bokar, e depois numa escola colonial, que Tierno chamava de “école des otages” (escola dos sequestrados). Mais tarde, ingressou na Universidade Sorbonne, em França, assim como boa parte da elite intelectual africana da sua geração.
Optou por aprofundar os estudos sobre as culturas tradicionais africanas, islâmicas e europeias; não se deixando influenciar pela ideologia e valores disseminados pelo ideário eurocêntrico. O seu grande objetivo era revelar uma África complexa, de tradição milenar, mas que, assim como o resto do mundo, se articula e dialoga com fatores e realidades internas e externas.
Após a independência do Mali, trabalhou no Instituto Francês da África Negra (IFAN), em Dakar, no mesmo ambiente onde atuou Cheikh Anta Diop. Foi cofundador do Instituto de Ciências Humanas de Bamako.
A sua projeção internacional cresceu ao representar o Mali na UNESCO entre 1962 e 1970, onde defendeu a valorização das tradições orais como património imaterial da Humanidade.
A sua atuação e esforços para coletar e registar as várias histórias, lendas, contos, provérbios, etc., com o intuito de valorizar e divulgar as culturas do continente africano, rendeu-lhe o título de "mestre da palavra", ou "mestre da transmissão oral".
Autor de obras literárias premiadas e amplamente lidas (dois volumes de suas memórias e um romance ambientado na África Ocidental Francesa colonial), além de porta-voz das interpretações sufistas do Islão e do ecumenismo religioso. Um desses escritos, a sua autobiografia, Amkoullel, o menino fula, tornou-se umas das obras-referência nos estudos sobre a África e a complexidade da Africanidade.
Na verdade, Amadou Hampâté Bâ personifica a biblioteca intemporal africana que defendia que “Neste mundo moderno, ninguém se pode refugiar na sua torre de marfim. Quer queiram ou não, os homens navegam na mesma jangada.”
Amadou Hampâté Ba era um africano consciente e estudioso que colocava a África no centro da sua construção teórica e epistemológica, rejeitando a narrativa colonial e neocolonial de uma África sem história, sem erudição, sem valores e cultura.
A Fundação Amadou Hampâté Bâ perpetua o seu legado, depois da sua morte em 1991, preservando os seus arquivos e ampliando o acesso a este património extraordinário, através de um projeto de preservação apoiado pelo Programa Memória do Mundo da UNESCO."
Filinto Elísio, poeta, ensaísta, editor (Rosa de Porcelana Editora)
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