Roma

Itália, 10 anos depois em Amatrice: depoimentos de quem salvou vidas

Eugenio Murrali e Andrea De Angelis – Vatican News Há dez anos, em 24 de agosto de 2016, às 3h36min32s, um terremoto de magnitude 6.0 ao longo do Vale do Tronto fez tremer o coração da...

Itália, 10 anos depois em Amatrice: depoimentos de quem salvou vidas

Eugenio Murrali e Andrea De Angelis – Vatican News

Há dez anos, em 24 de agosto de 2016, às 3h36min32s, um terremoto de magnitude 6.0 ao longo do Vale do Tronto fez tremer o coração da Itália por 20 segundos intermináveis. Amatrice, Accumoli, Arquata e Pescara del Tronto, suas localidades, seu território e suas histórias sofreram destruição, escombros, 299 vítimas e 40 mil desabrigados. “A poeira é uma condenação que distorce os contornos das coisas e as torna ambíguas e incompreensíveis”, pode-se ler em Salvar Vidas. O terremoto de Amatrice e da Itália Central pelos bombeiros (Milão, Mondadori, 2026, 156 páginas, 18,50 euros), de Luca Cari. O autor — dirigente do Corpo Nacional de Bombeiros, que desde 2006 coordena no terreno a comunicação em situações de emergência na Itália e no exterior — foi testemunha e co-protagonista das operações de resgate daqueles dias intermináveis em que, segundo uma das vozes a quem Cari confia o relato, parecia que “subia, como Sísifo, minha montanha de escombros”.

A narrativa se concentra nos primeiros momentos da emergência: “é a situação — explica Cari à mídia do Vaticano — que os primeiros bombeiros que chegaram ao local encontraram”: vilarejos arrasados, um tipo de alvenaria que o terremoto havia desmoronado completamente. Para o autor, os escombros eram como “lama, água que havia submergido a vida das pessoas”. O livro é um oratório em dez vozes: “é um relato coral e é por isso que decidi não citar os nomes dos protagonistas, mencionando-os apenas no final, justamente para que cada um deles pudesse representar todos os bombeiros”. São muitas as imagens intensas do livro. “O trajeto até o local do hotel — revela a terceira voz — foi uma ‘via sacra’, partindo da igreja de Santo Agostinho, no início do centro histórico, com paradas em cada estação para atender aos pedidos de socorro”. E são muitas as paradas marcadas pelo desespero, pela fragilidade, pela luta contra o tempo, mas também aquelas que revelam força e alegria por uma vida salva contra todas as expectativas e probabilidades.

Cari traça o perfil de uma humanidade que reencontra seu sentido e seus valores em um esforço solidário impressionante nos momentos sombrios da desolação. O amor daqueles que colocam a vida alheia à frente da própria — tanto entre as vítimas quanto entre os socorristas —, a coragem daquelas mãos que não param de escavar, sem dar ouvidos ao medo, ao cansaço, ao desânimo. “Tentei com toda a força narrar — acrescenta Cari — o que cada bombeiro enfrenta quando se depara com essas situações, e o impacto emocional é considerável; embora cada um permaneça concentrado no trabalho que deve realizar, sabe que, naquele momento, sua mão é a única que a pessoa que está pedindo ajuda pode agarrar para tentar ser salva; se essa conexão falhar, não haverá mais nada a fazer”. São todas emoções que, como o autor deixa transparecer, os socorristas absorvem e terão de reelaborar posteriormente: “sentimentos que não desaparecem, que, ao final da intervenção, cada um deve colocar e reorganizar dentro de si para poder conviver, às vezes, com dores que são dilacerantes, que permanecem dentro de você, mas que você precisa saber lidar para se manter íntegro e pronto para enfrentar as situações que virão”.

Nas primeiras horas da emergência, um dos sons mais angustiantes, frequentemente relembrado por Cari, é o toque dos telefones, a enxurrada de pedidos de socorro, que revelam a desproporção entre a capacidade de ajuda que os bombeiros podem oferecer naquele momento e a pressão do desespero daqueles que procuram as centrais de operações. “Salvar vidas” é um relato equilibrado, denso e incisivo de uma vocação em prol do próximo e um testemunho sucinto — e, por isso, ainda mais comovente, significativo e doloroso — do que foi o terremoto do Vale do Tronto. Luca Cari sabe que as palavras mais simples e fiéis à verdade são capazes de descrever aquele momento de sofrimento, ao qual nada se deve acrescentar, mas também o espírito dos socorros, que é o espírito de fraternidade: “o bombeiro está sempre em grupo, está sempre em equipe. Não é retórica quando se diz que cada um confia sua vida nas mãos do outro, porque é o grupo que consegue enfrentar, coeso e unido, qualquer situação”.

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