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A empatia é um recurso que as Universidades Católicas trazem em si

Quando o Papa Leão XIV assinou, a 15 de maio de 2026, a sua primeira encíclica — significativamente no 135.º aniversário da Rerum Novarum de Leão XIII —, a sua intenção não foi apenas a...

A empatia é um recurso que as Universidades Católicas trazem em si

Quando o Papa Leão XIV assinou, a 15 de maio de 2026, a sua primeira encíclica — significativamente no 135.º aniversário da Rerum Novarum de Leão XIII —, a sua intenção não foi apenas a de construir um documento programático. Ele pretendia identificar com precisão a encruzilhada epocal em que os Seres Humanos hoje se encontram.  O avanço da inteligência artificial promete ser capaz de simular aquilo que a tecnologia nùao poder+a jamis substituir: a nossa própria humanidade. Por isso a Magnifica Humanitas não é um tratado sobre tecnologia. É, como oseu  subtítulo indica, um documento sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. E é exactamente aí, nesse ponto de tensão entre simulação e experiência, que o Papa situa a empatia como categoria em perigo, justificando assim a urgência do seu apelo a uma reflexão aberta: «Quando a palavra é simulada, mas não encarnada, ela não constrói uma relação, mas sim uma aparência dela» (MH, n.100). A primeira Trienal de Arte Contemporânea das Universidades Católicas — cem artistas, sete universidades, três continentes distintos —  brota deste apelo.

Se existisse uma palavra capaz de representar as Universidades Católicas e a sua visão integral sobre o significado da educação, essa palavra seria empatia. A empatia está presente na origem deste projeto universitário; define perfeitamente a sua competência específica; e traduz com eficácia a sua missão. Não se trata de um ornamento retórico, mas de um princípio estrutural: é a partir da capacidade de se colocar dentro da experiência do outro e de habitar o seu ponto de vista que a universidade pode cumprir a sua vocação mais própria, que é a de gerar comunidade em torno da verdade. Como recorda São João Paulo II na constituição apostólica Ex Corde Ecclesiae (1990), as universidades católicas nasceram «do coração da Igreja», como corporação de professores e estudantes empenhados na busca compartilhada da verdade e convictamente abertos à totalidade dos saberes humanos. É precisamente aqui que a empatia entra em cena como disposição estável que torna possível conjugar uma meticulosa atividade científica com o cuidado constante pela pessoa. Hannah Arendt, no seu ensaio A Crise da Educação (1954), escreveu que «a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o suficiente para assumir a responsabilidade por ele».  Esta intuição encontra na tradição das universidades católicas uma ressonância particular: educar não é apenas transmitir conteúdos, é um ato de amor de quem se sente responsável pelo presente e pelo futuro mundo encontrando respostas empáticas para as suas necessidades.  

A Trienal de Arte Contemporânea das Universidades Católicas dispõe-se, além disso, a fazer  rede entre universidades católicas, espalhadas em diferentes geografias, aceitando o repto de reconhecimento de uma identidade comum, que potencia a riqueza da relação. Juntos constituímos sistema — não uma federação de interesses, mas um corpo vivo, articulado, no qual cada instituição contribui com a sua própria estação, a sua própria linguagem, o seu próprio contexto histórico. Esta convergência de visões e de esforços constitui, em si mesma, um ato de empatia institucional.

O Papa Leão XIV encoraja as universidades a fazer da empatia a ferramenta da sua construção quotidiana. Como afirma de forma incisiva na Magnifica Humanitas,  a empatia é fundamental quando se trata de «relacionar e fundir os conhecimentos para interpretar a complexidade» (MH, n.137). E, do mesmo modo, é ela que permite à comunidade universitária ter impacto social e cultural, contribuindo para «o discernimento sobre as escolhas que afetam a vida das pessoas» (MH, n.72). Não é por acaso que estas duas dimensões — a capacidade de estabelecer o diálogo interdisciplinar e de realizar o discernimento ético — surgem associadas: só uma universidade capaz de empatia consegue transformar a fragmentação dos saberes especializados numa sabedoria orientada para o bem das pessoas e das sociedades concretas.

No frágil e fragmentado contexto do presente, marcado por polarizações crescentes e por formas cada vez mais sofisticadas de comunicação que, paradoxalmente, isolam mais do que unem,  ela configura-se como uma necessária operação cultural de resgate. A empatia é uma ferramenta cada vez mais indispensável para construir e partilhar conhecimento, para tecer reciprocidades, para relançar práticas colaborativas, e não apenas no âmbito restrito das relações pessoais, mas também, ou sobretudo, no polifónico e alargado entrelaçar da vida coletiva.

As diferentes tipologias de comunidade que compõem a sociedade global — a família, a escola e a universidade, as instituições políticas e os espaços da vida cívica — só têm a ganhar no aprofundamento desta forma de saber onde o humano se exprime de maneira privilegiada. Uma família que educa para a empatia forma pessoas capazes de habitar a diferença sem medo; uma universidade que a cultiva forma profissionais que não reduzem o outro a um dado ou a uma função; um ambiente de trabalho atravessado pela empatia transforma-se em lugar de reconhecimento e não apenas de produtividade. Como chama a atenção o Papa Leão XIV, um sistema artificial pode reproduzir os sinais externos da compaixão, mas não pode sofrer com quem sofre, nem alegrar-se verdadeiramente com quem se alegra. É por isso que, num tempo em que tantos processos — informativos, relacionais, até afetivos — são delegados a algoritmos, reafirmar a centralidade da empatia humana se torna um ato de consciência cultural e, ao mesmo tempo, de esperança.

O termo empatia é relativamente recente. Não existe, por exemplo, no grego antigo, nem no latim clássico com o sentido que hoje lhe atribuímos. Surge, sim, cunhado no final do século XIX e o seu uso mais recorrente regista-se curiosamente no domínio da estética.  Quando contemplamos um objeto artístico projetamos nele um dinamismo que pertence à nossa existência psíquica, mas que nos faz sentir dentro daquilo que observamos. Mas, do vocabulário próprio da estética, a aplicação do termo empatia transitou depois para o campo das relações interpessoais, pois quando olhamos para o rosto de alguém projetamos também nesse rosto o nosso próprio repertório de estados internos, e podemos mapear, por analogia, sentimentos semelhantes que já experimentámos. Esta teoria geral sobre a empatia, conhecida como “teoria da imitação interior", teve como autor o filósofo alemão Theodor Lipps e viria a ser retomada pela escola de Husserl.

Deve-se dizer que o círculo fenomenológico de Edmund Husserl percebeu rapidamente que a teoria de Lipps, ao explicar a compreensão do outro como projeção do eu, corria o risco de não alcançar o outro na sua singular alteridade. Se tudo o que reconheço no rosto alheio é uma projeção da minha própria experiência interior, nunca saio, de facto, de mim mesmo — o outro permanece, no fundo, um reflexo meu, e não um sujeito autónomo com uma vida interior genuinamente distinta da minha.

Foi precisamente sobre este problema que Edith Stein, filósofa, santa e doutora da Igreja, um dos referentes fundamentais para o diálogo entre a fé e a razão na contemporaneidade, escreveu a sua dissertação de doutoramento, intitulada Zum Problem der Einfühlung — "Sobre o problema da empatia". Stein insiste num ponto decisivo: nunca vivemos a dor ou a alegria do outro como o outro a vive; vivemo-las como sendo do outro. É esta humildade constitutiva — o facto da empatia nunca anular a alteridade do outro, nunca a absorver banalmente na minha própria experiência — que torna a empatia um ato de conhecimento respeitoso, e não uma forma de relativismo ou de apropriação. O treino paciente daquela proximidade em que o outro pode ser verdadeiramente reconhecido como outro é um ensinamento importante para a nossa época, marcada por novas formas de incompreensão cultural ou de despersonalização algorítmica.  

Estou convencido de que o conceito de empatia oferece à primeira Trienal de Arte Contemporânea das Universidades Católicas um fértil estímulo para colocar em diálogo a estética e a ética e, ao mesmo tempo, para estimular todos os saberes a uma conversação interdisciplinar, aproximando-nos uns dos outros para realizarmos juntos esse exercício exigente, lento, mas apaixonante que é, no fundo, o reconhecimento mútuo. Não é casual que tenha sido justamente no domínio da estética que o conceito de empatia nasceu: a experiência da obra de arte continua a ser, ainda hoje, um dos treinos mais eficazes para a capacidade de nos deixarmos afetar por algo — ou por alguém — que nos excede.

Já São John Henry Newman, em The Idea of a University (1852), tinha descrito com clarividência este mesmo movimento como o verdadeiro fruto da vida universitária: eruditos zelosos das suas próprias ciências e, por isso mesmo, rivais entre si, são levados pelo convívio a ajustar as pretensões e as fronteiras dos respetivos campos de investigação, e assim «aprendem a respeitar-se, a consultar-se, a auxiliar-se uns aos outros». É esta mesma passagem — da rivalidade das especializações ao respeito mútuo, do isolamento disciplinar ao auxílio recíproco — que a Trienal se propõe fazer percorrer, não apenas entre saberes, mas entre pessoas, instituições e culturas.

Afirmar a amizade como fermento cultural é uma tarefa urgente que nos deve congregar a todos, no interior das nossas comunidades universitárias e fora delas. A criatividade artística pode potencializar novos exercícios de empatia institucional e pessoal, inspirar o pensamento e o gesto, motivar a escuta e a circulação da vida. A obra de arte está sustentada por uma estrutura paradoxal que faz dela, simultaneamente, uma coisa física, visível e tangível — tela, pedra, vídeo, som — e o veículo de uma intencionalidade, de uma ferida, de uma interioridade que a excede e que não se deixa reduzir à pura materialidade. É precisamente esta tensão entre matéria e sentido que faz da obra de arte um lugar privilegiado de exercício empático: diante dela, somos convidados a suspender o juízo imediato, a demorar o olhar, a deixar que algo de outro nos interpele antes de o classificarmos ou de o instrumentalizarmos.

Do mesmo modo, nas relações humanas, o momento transformador é quando deixamos de olhar para o outro em função da sua utilidade e nos tornamos capazes de o reconhecer no seu próprio ser, de forma gratuita, não instrumentalizável. Por isso, a Trienal pode legitimamente propor-se como escola de empatia, porque aprofunda transversalmente a mesma capacidade percetiva e afetiva que somos chamados a exercer nas relações concretas da vida social, académica e política. A própria arquitetura internacional do projeto é já, em si mesma, um exercício de empatia institucional, um convite a habitar uma escuta comum do bem, da verdade e da beleza.

Uma palavra de gratidão é devida às sete universidades que aderiram ao projeto desta primeira edição da Trienal e a sonharam empaticamente: à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, na pessoa do seu Reitor P. Anderson Antonio Pedroso, S.J.; à Pontifícia Universidade Católica do Chile e ao seu Reitor, Prof. Juan Carlos de la Llera; à Pontifícia Universidade Javeriana e ao Reitor P. Luis Fernando Múnera Congote, S.J.; ao Boston College e ao Reitor P. John T. "Jack" Butler, S.J.; à Universidade Católica do Sacro Cuore e à Reitora Prof.ª Elena Beccalli; à Universidade Católica Portuguesa e à Reitora Prof.ª Isabel Capeloa Gil; e à Universidade Católica de Angola e à Reitora Prof.ª Irmã Maria da Assunção.

O extraordinário artesão desta Trienal é o Prof. Nuno Crespo, a quem o Dicastério para a Cultura e a Educação confiou a curadoria geral, e a sua equipa de trabalho, em particular o curador assistente João Pedro Amorim. A ele se juntou um criativo colégio de curadores que representam as sete estações desta Trienal: o nosso agradecimento a Luiz Camillo Osorio e Cadu (Rio de Janeiro); a Alexia Tala (Santiago); a Lucía Parias e Sylvia Suárez (Bogotá); a Sheila Gallagher (Boston); a Elena di Raddo e Alessandra Squizzato (Milão); a Filipa Oliveira e João Sarmento, S.J. (Lisboa); e a Kiluanji Kia Henda, Mehak Vieira, Osvaldo Sebastião da Silva e Suzana Sousa (Luanda). Eles selecionaram uma centena de artistas que são verdadeiros mestres da empatia — artistas capazes, cada um à sua maneira, de nos ensinar a sair de nós mesmos para habitar, com respeito e sem pressa, o mundo do outro.

Que a Trienal possa partir e reforçar o papel internacional das Universidades Católicas como laboratórios culturais capazes de contribuir para a tarefa da humanização, ativando dinâmicas de pensamento em favor da paz, do progresso espiritual e da fraternidade.  

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