Dom Eloy Santiago, bispo de San Cristóbal de La Laguna, em Tenerife, na Espanha, mostra o grande quadro pendurado na entrada da casa episcopal que retrata o Papa Leão e que foi abençoado pelo próprio Pontífice quando esteve hospedado no local. Aos pés do Papa estão representados os muitos migrantes que chegam à ilha e clamam por ajuda. O bispo comenta com a mídia vaticana a visita do Sucessor de Pedro à ilha e, de maneira geral, a viagem apostólica de Leão XIV à Espanha.
Excelência, que balanço o senhor pode fazer da visita do Papa, pela primeira vez neste pedaço de terra no Atlântico?
O balanço é muito positivo: isso ficou evidente em todos os lugares, na alegria das pessoas. Foi realmente um momento de graça e de bênção para nós, como povo, mas também para toda a sociedade das Ilhas Canárias. Um momento vivido com profundidade também pelos não católicos. Um evento que foi além da nossa pertença à fé, pois o Papa é visto como uma figura de referência internacional que defende a paz e a dignidade humana, como aliás já nos mostrou em sua primeira encíclica. Muitas pessoas queriam vê-lo e ouvi-lo.
O apelo à conversão dos traficantes foi particularmente forte. Como essas palavras de Leão XIV ressoaram no senhor? Acredita que elas vão surtir efeito?
Quero acreditar que sim. Foram palavras muito fortes, e a maneira como ele as proferiu me fez pensar imediatamente naquele apelo que João Paulo II fez na Sicília aos mafiosos. Espero que isso toque o coração dessas pessoas que são capazes de se aproveitar da vulnerabilidade alheia para obter ganhos. Que suas ações maléficas cessem. Quantas vidas são perdidas por causa desses interesses econômicos que lucram com o sofrimento alheio... Quantas pessoas tratadas como objetos e não como pessoas! Foi um dos momentos mais intensos que me comoveu profundamente.
O encontro em Las Raíces ofereceu a oportunidade de chamar a atenção para uma realidade talvez pouco divulgada. Qual será o destino desse lugar, na sua opinião?
Espero que ele esteja destinado a desaparecer, que não haja mais necessidade dele. Quando as nações estiverem abertas ao acolhimento oficial e regular de migrantes, não haverá mais necessidade dessas estruturas tão grandes e, de certa forma, até desumanas, devido à quantidade de pessoas que nelas vivem. Hoje há cerca de 600, mas já houve períodos em que chegaram a ser 4 mil. Não é o lugar adequado para eles. Infelizmente, nossas ilhas se tornaram uma espécie de jaula para eles. Isso não é normal. Acho que, quando se olha para os rostos deles, o coração humano não consegue fazer distinções, e todos os discursos ideológicos acabam perdendo sentido.
Há alguma imagem que tenha impressionado particularmente o senhor?
Certamente a proximidade do Papa com as crianças migrantes. Aquela menina em Las Raíces… o Papa não tinha pressa, dava importância a cada um… Seus gestos foram lindos.
Dois grupos de migrantes — somalis, sudaneses, liberianos e gambianos — foram resgatados na noite desta segunda-feira (15/06) por navios de duas ONGs e levados até Lampedusa. Como o senhor vê essas viagens de esperança, o resgate feito pelas ONGs que é tanto criminalizado por alguns líderes políticos?
É difícil aceitar essa atitude dos políticos que demonstram não ter sentimentos de compaixão pelas pessoas que sofrem. Não os entendo, de forma alguma. É preciso continuar falando, dando voz aos migrantes, para mostrar que se trata de um problema mundial. E é necessária uma resposta igualmente global, inspirada em critérios de humanidade.
A visita do Papa às Ilhas Canárias está ligada à que ocorrerá em Lampedusa. Como o senhor comenta a decisão de Leão XIV de se deslocar à ilha no próximo dia 4 de julho?
Acho que a data e o local escolhidos falam por si mesmos. A mensagem que o Papa quer transmitir é evidente. Na rota do Atlântico, infelizmente, também morrem mil pessoas por ano. A visita a Lampedusa será muito significativa, pois o Mediterrâneo é um mar onde, da mesma forma, morrem muitas pessoas na tentativa de chegar às costas europeias. Será uma oportunidade para relembrar o que o Papa Francisco já fez. Espero que seja renovado um apelo importante para que possamos seguir no caminho da fraternidade universal e da amizade; somos uma única família humana e precisamos acolher uns aos outros.
Então, como soa para o senhor a palavra “remigração”?
Não quero ouvi-la, porque é um sinal de que a humanidade falhou. Não se pode falar nesses termos. A vida humana, desde o início do mundo, sempre esteve em movimento. O direito de emigrar com segurança deve ser garantido. Muitas vezes, trata-se de migrações forçadas: é preciso fazer de tudo para que as pessoas não se vejam obrigadas a fugir, mas, uma vez que partem, não podem voltar atrás. Elas devem poder viver com dignidade.
De maneira geral, qual o seu balanço da viagem apostólica de Leão à Espanha?
Fiquei impressionado. Houve uma resposta excepcional. Acho que o Papa conseguiu conquistar o coração dos espanhóis. Ele me disse que ficou particularmente impressionado com o entusiasmo. Espero que isso seja um impulso para seguir em frente na evangelização, em uma Igreja que seja servidora dos mais pobres e viva.
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