Pe. Danilo dos Santos - Vice-presidente da Sociedade Brasileira dos Cientistas Católicos
O terceiro capítulo da encíclica Magnifica humanitas (2026) constitui o núcleo da reflexão do Papa Leão XIV acerca da inteligência artificial. A reflexão recolhe inspirações nas escrituras judaico-cristãs ao propor a contraposição entre a Torre de Babel, paradigma do domínio que desumaniza, e a reconstrução de Jerusalém por Neemias, modelo de responsabilidade partilhada.
Neste horizonte, o texto retoma a crítica ao "paradigma tecnocrático" formulada em Laudato si', advertindo que a técnica, ao converter-se de instrumento em critério, tende a determinar o que é relevante e o que pode ser descartado.
A reflexão distingue a inteligência artificial da inteligência humana. Os sistemas algorítmicos, descritos como "mais cultivados do que construídos", imitam funções cognitivas e superam o humano na velocidade de cálculo, mas carecem de corporeidade, experiência e consciência moral. Daí decorre uma importante contribuição do Papa Leão XIV ao tema, a saber, a não-neutralidade da IA, uma vez que, inscreve escolhas, prioridades e interesses, exige mecanismos de transparência, responsabilização e regulação pública que não favoreçam a concentração de poder e seus desdobramentos.
Por fim, a proposta de "desarmar" a IA, ou seja, subtraí-la à competição econômica e cognitiva, articula-se com os princípios da Doutrina Social: bem comum, subsidiariedade e justiça. De modo que, o capítulo oferece significativa contribuição ao tema ao reconduzir o problema técnico a uma questão antropológica, ao retomar a interrogação de João Paulo II sobre se a tecnologia torna a vida "mais digna do homem".
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