Papa

Shevchuk: perdão e reconciliação para curar a memória dos povos

É também no “contexto da guerra que descobrimos a força da oração”. Hoje, mais do que nunca, há necessidade de “perdão, concedido e recebido, para curar a memória histórica dos povos eu...

Shevchuk: perdão e reconciliação para curar a memória dos povos

É também no “contexto da guerra que descobrimos a força da oração”. Hoje, mais do que nunca, há necessidade de “perdão, concedido e recebido, para curar a memória histórica dos povos europeus”. A mídia do Vaticano recebe as palavras do líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, Sua Beatitude Sviatoslav Shevchuk, à margem de seu encontro com o arcebispo Paul Richard Gallagher, no segundo dia de missão na Ucrânia, e com o núncio apostólico no país, Visvaldas Kulbokas.

O enviado especial do Papa Leão XIV para as celebrações do 35º aniversário da reabertura das estruturas da Igreja Católica de rito latino, a serem realizadas neste domingo (19/07) no Santuário do Monte Carmelo em Berdychiv, chegou na noite de sexta-feira (1/07) a Kiev, após uma visita à Igreja de São João Paulo II em Rivne, no meio do caminho entre Lviv e a capital.

Sua Beatitude, qual é a importância neste momento da oração conjunta e da proximidade do Santo Padre por meio de seus representantes aqui — o arcebispo Gallagher como enviado especial para as celebrações no Santuário de Berdychiv e, há poucos dias, o cardeal Zuppi?

Nos contextos de guerra, redescobrimos o sentido e a força da oração. Rezar juntos significa encontrar um espaço que cura as feridas: a oração é um bálsamo, a graça curativa do Espírito Santo, que preenche o coração de uma pessoa que sofre. Rezar juntos significa partilhar dons. O próprio Jesus disse: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali no meio deles”. Mas rezar junto com os enviados especiais do Santo Padre é rezar no seio da Igreja universal, é rezar com o próprio Santo Padre. É sentir-se acariciado pelo pai. Por isso, a presença do cardeal Zuppi e do arcebispo Gallagher é para nós um sinal visível da Igreja universal e católica que nos abraça e reza por nós”.

No contexto da guerra na Ucrânia, como é a colaboração entre as diferentes comunidades católicas em prol da população que sofre?

Na Ucrânia, temos as mesmas tragédias, os mesmos desafios, pastorais e humanitários, não apenas entre os católicos, mas também com os irmãos ortodoxos, protestantes, judeus e muçulmanos, que fazem parte do Conselho Pan-Ucraniano de Igrejas, o qual celebra justamente nestes dias 30 anos de atividade. Colaborar juntos significa literalmente salvar vidas, e às vezes a caridade cristã realmente ultrapassa os limites confessionais ou rituais. Sabemos testemunhar juntos, católicos do rito bizantino e do rito latino – como dizia João Paulo II –, a autenticidade do amor católico, que abraça, cura, salva e serve a todos.

Quais são as principais necessidades da população em um momento no qual os bombardeios e a guerra estão se intensificando?

As necessidades são muitas. Segundo os dados fornecidos pelos escritórios das Nações Unidas, hoje na Ucrânia existem 5 milhões de pessoas que enfrentam uma emergência humanitária, e apenas 2 milhões podem ser assistidas com os recursos concedidos por essas estruturas internacionais. Mas, como me disse certa vez o prefeito da cidade de Kiev, da Igreja, mais do que roupas, pão e alimentos, nós precisamos da palavra de esperança. Sendo assim, este momento de grande sofrimento para milhões de ucranianos é um momento de nova evangelização, é o momento, o kairos de uma grande conversão: é fome e sede de Deus. Somente a Igreja de Cristo é capaz de curar essas feridas e responder, dando o pão da vida, a eucaristia, a palavra de Deus àqueles que estão famintos e sedentos de Deus.

No encontro com o arcebispo Gallagher, o senhor abordou o tema da reconciliação e do perdão. Como se tornar portador e promotor desses dois grandes dons em uma situação internacional tão difícil?

Nestes meses, na Ucrânia, estamos comemorando o 25º aniversário da histórica visita de João Paulo II. Como parte integrante de seu ministério petrino para a Europa, ele procurava estar a serviço da reconciliação entre os povos do continente. E ele próprio dizia que seu dever era curar a memória histórica dos povos europeus, sobretudo quando se trata das feridas que ainda hoje são muito profundas em nossos corações, após a Segunda Guerra Mundial. A essas feridas antigas, somam-se agora as desta guerra blasfema que vivemos na Ucrânia. Mas qual é o remédio que o Papa Wojtyla nos deixou? Ele nos disse que esse bálsamo para curar a memória é o perdão, concedido e recebido. Todos somos pecadores, todos temos consciência de que ofendemos o nosso próximo: os povos vizinhos quase sempre guardam uma memória negativa de um passado doloroso. Mas não devemos ser escravos disso. É um passado que não podemos refazer. Mas podemos, por meio do perdão, construir um futuro melhor. Por isso, o dom do perdão, concedido e recebido, é o remédio que cura a memória histórica dos povos europeus.

Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui.