“Nos últimos cinco anos, 1.468 jornalistas de mais de 60 países receberam apoio da organização após serem forçados a fugir de ameaças, detenção ou morte. Trata-se de um número impressionante, mas representa apenas uma fração de um fenômeno muito mais amplo”. É o que destaca Vianney Loriquet, responsável pelo Índice Mundial da Liberdade de Imprensa de Repórteres sem Fronteiras (RSF). Por ocasião do Dia Mundial dos Refugiados, a organização apresentou um quadro alarmante que ecoa os resultados do Índice Mundial de Liberdade de Imprensa 2026: “extorsões, expulsões e abusos administrativos são uma realidade cotidiana para muitos deles após terem sido forçados a fugir. Para defender o direito a uma informação confiável, os Estados devem oferecer proteção eficaz aos jornalistas no exílio — a última linha de defesa contra a desinformação e a propaganda, que estão ganhando terreno —, por meio de garantias contra a repulsão, vistos de emergência, autorizações de permanência, acesso a programas de reassentamento e apoio que lhes permita retomar seu trabalho”, continua Loriquet.
Os dados fornecidos por RSF indicam 677 jornalistas afegãos, 160 russos, 101 birmaneses e outras centenas provenientes de cerca de 60 países diferentes. Entre 2021 e 2025, o exílio afetou amplos setores do jornalismo independente. De acordo com os dados do escritório de assistência da organização, em 65 países pelo menos um jornalista foi forçado ao exílio; em 20 desses países, pelo menos 10 repórteres tiveram que deixar seu país. Longe de se limitar a uma única região do mundo, esse fenômeno continua a se espalhar. Em cinco anos, o número de países afetados dobrou, passando de 19 em 2021 para 40 em 2025. No mesmo período, o número de jornalistas no exílio que receberam assistência de Rsf permaneceu elevado: 235 em 2021 e 243 em 2025.
“Quando um jornalista é forçado a fugir de seu país, o exílio não põe fim às ameaças”, destaca Victoria Lavenue, responsável pelo Escritório de Assistência de Rsf, e acrescenta que “as condições de vida precárias, o isolamento e a repressão transnacional muitas vezes se somam às dificuldades administrativas e linguísticas que devem ser enfrentadas no país de acolhimento. No entanto, esses profissionais continuam a fornecer uma cobertura jornalística essencial, muitas vezes colocando em risco sua própria segurança. Garantir sua proteção e permitir que continuem seu trabalho jornalístico”, esclarece ela, “não é apenas uma obrigação humanitária: é um pressuposto fundamental para defender o direito à informação e manter vivo o debate democrático. Os Estados têm a responsabilidade de lhes proporcionar condições de acolhimento, proteção e integração à altura desse desafio.”
Entre as principais áreas de crise, RSF destaca a África Subsaariana, uma vez que o conflito no leste do Congo e a instabilidade no Sahel (Mali, Chade, Guiné, Burkina Faso, Senegal) abrem novas rotas de exílio. Em 2025, 21 jornalistas congoleses fugiram com o apoio da ONG internacional que luta pela liberdade de informação e pela liberdade de expressão, defendendo, ao mesmo tempo, jornalistas perseguidos em todo o mundo. Em seguida, vem a América Latina, onde os cartéis de drogas, a violência política e os regimes autoritários (Venezuela, El Salvador) alimentam as fugas. Somente desde o início de 2026, seis jornalistas já foram assassinados no México, na Colômbia e na Guatemala. Em seguida, vem o Afeganistão, onde, desde 2021, 677 profissionais fugiram com o apoio de RSF, quase metade do total global. Muitos, porém, permanecem vulneráveis: no Paquistão, sofrem expulsões forçadas e detenções arbitrárias. Em seguida, Mianmar, onde mais de 100 repórteres apoiados pela ONG fugiram após o golpe de 2021. Estima-se que cerca de 300 estejam refugiados na Tailândia, muitas vezes sem status legal nem proteção. E ainda, a Rússia. Desde 2022, 160 jornalistas russos foram exilados, mas o número real é dez vezes maior. Moscou persegue jornalistas mesmo além-fronteiras: 66 profissionais foram condenados ou presos entre 2022 e 2025. Por fim, o Egito e a Turquia, onde correspondentes que deixaram o Sudão, a Palestina, a Síria e o Afeganistão são acolhidos, mas, ao mesmo tempo, jornalistas locais independentes são perseguidos.
Diante desse quadro tão preocupante, Repórteres Sem Fronteiras propõe diversas medidas. Em primeiro lugar, proteções jurídicas, incluindo vistos de longa duração, autorizações de permanência e de trabalho, além de mecanismos contra a repressão transnacional e o assédio online. Em seguida, financiamento estrutural para redações no exílio, incentivos fiscais e apoio a pólos de mídia compartilhados. Por fim, a aplicação de tecnologias anticensura, a certificação editorial, a capacitação em segurança cibernética, as investigações de código aberto e a gestão jurídica.
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