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Quem somos diante de Deus? A vocação humana no Plano da Salvação

Diácono Adelino Barcellos Filho - Diocese de Campos/RJ Trata-se de um convite exigente para transpor a barreira do simples conhecimento teórico-histórico, do consabido “ouvir falar” ou...

Quem somos diante de Deus? A vocação humana no Plano da Salvação

Diácono Adelino Barcellos Filho - Diocese de Campos/RJ

Trata-se de um convite exigente para transpor a barreira do simples conhecimento teórico-histórico, do consabido “ouvir falar” ou “ouvir dizer”, e ingressar na maturidade de uma Fé vivida no imperativo da terceira pessoa do singular, “torne-se quem você é” (γένοι' οἷος ἐσσὶ μαθών - expressão advinda do poeta grego Píndaro - poeta lírico que usou a expressão pela primeira vez em sua “Pítica 2, verso 72”, no século V  - 490-462 a.C.).

O enfrentamento desse itinerário requer uma resposta eminentemente pessoal, singular e intransferível. O sentido literal da máxima de Píndaro expressa-se como “Torne-se quem você é, depois de o ter aprendido”. Por conseguinte, não se afigura suficiente reiterar fórmulas catequéticas memorizadas ou reproduzir o discurso alheio; a Comunhão com ‘o Divino’ exige uma vivência autêntica de encontro pessoal e conversão ‘continuada’.

É no silêncio da oração, no exame sincero de consciência e  na contrição que a pergunta de Jesus Cristo deixa de ser uma mera sondagem de opinião pública (enquete) para se tornar o espelho límpido e exigente da nossa própria vocação: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mateus 16, 13).

Nesse recinto sagrado de recolhimento, desprovido dos ruídos e das distrações seculares, o ser humano é confrontado com a Verdade da sua interioridade — a semente do Verbo encarnado —, ensejando que a voz divina ecoe e manifeste a essência do Seu chamado singular no âmbito do Plano da Salvação, precipuamente “aos que O buscam com sinceridade de coração” (Jeremias 29, 13; Salmo 145, 18; 1 Crônicas 29, 17; Salmo 119(118), 2; e, Hebreus 10, 22).

Para trilhar esse caminho, é essencial vivenciar estas etapas de interiorização espiritual: O desassossego da opinião alheia: superar visões coletivas para buscar a revelação do Espírito Santo; A identidade em Deus: responder a “Quem é Jesus?” revela nossa identidade e missão na Salvação; O compromisso existencial: Amar e testemunhar a Verdade e Amar o próximo sem fingimento.

O Papa Leão XIV ratifica essa premissa ao ensinar que a humanidade é constituída por filhos amados de Deus, pelo Batismo, vocacionados à amizade e à confiança incondicional. A existência humana configura-se como um projeto dinâmico de felicidade, cujas origens remontam à interioridade e cuja concretização se dá mediante a doação generosa ao próximo, ao serviço da construção do Reino de Deus.

Sob essa perspectiva, o Sumo Pontífice enfatiza a imperiosa necessidade de a vida espiritual superar os ruídos e a superficialidade inerentes à pós-modernidade, almejando o cultivo de um ambiente interior propício à oração, à reflexão e ao aprofundamento da fé.

Esse exercício de autoconhecimento faculta ao cristão batizado o reconhecimento de sua dignidade transcendental, o valor inestimável do sacrifício remidor de Jesus Cristo e a Sua presença real e viva, tanto na Mesa da Palavra quanto na Mesa da Eucaristia.

A confissão de Pedro lhe rendeu o Primado Petrino. Suas imperfeições revelam que Deus governa por instrumentos humanos, enquanto o Espírito Santo confirma que a autoridade pertence a Jesus Cristo (disto depende a fecundidade do Ministério): “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16, 18). Mesmo sob provações influenciadas pelo demônio e falhas humanas (Lucas 22, 31-32), a Glória é do Deus Uno e Trino.

A despeito das limitações inerentes à condição humana do primeiro Papa, a Igreja e a comunidade apostólica mantiveram irrefragável respeito à sua autoridade, porquanto a sua escolha emanou diretamente de Jesus Cristo. Não obstante as imperfeições observadas ao longo da sucessão pontifícia, desde São Pedro, subsiste a promessa divina de que “as portas do inferno jamais prevalecerão sobre a Igreja”; escolhe quem Ele quer.

Apesar da fragilidade humana e do livre-arbítrio ao longo da sucessão dos 267 Pontífices— de Simão  Pedro a Leão XIV —, o depósito da Fé (depositum fidei) permanece intacto. A condução da Igreja por homens falíveis confirma que sua governança pertence à Providência Divina, preservando a Tradição, Doutrina e o Sagrado Magistério contra divisões e a redução da eleição papal como mera política secular.

Ao acolher a Graça divina no cotidiano e afastar-se do egoísmo ou do formalismo exterior, a vocação individual ganha sentido pleno, transfigurando a própria vida em um testemunho vivo de esperança, verdade e caridade fraterna, cotidianamente, em conformidade com a Vontade de Deus.

A vocação da pessoa humana no plano de Deus é apresentada de modo central nas constituições do Concílio Vaticano II: a constituição dogmática Lumen Gentium e a constituição pastoral Gaudium et Spes. Ambas enfatizam o chamado universal à santidade e à manifestação da Graça nas tarefas do dia a dia.

A Gaudium et Spes destaca que o ser humano tem uma vocação sublime voltada ao Criador, uma vez que "Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou." (Gênesis 1, 27) . Suas ações no mundo e o trabalho diário ganham valor de cooperação com o plano divino que ‘quer precisar de nós’, superando o egoísmo, enquanto a fraternidade constrói uma comunidade universal no Amor Esponsal.

No tocante à Santidade no Cotidiano, a Lumen Gentium estabelece as seguintes diretrizes: no tocante à vocação universal, postula que todos os batizados, independentemente do estado de vida, são exortados a alcançar a plenitude da vida cristã e a perfeição da caridade; referente ao testemunho vivo, assinala que a santidade transfigura a existência cotidiana mediante a congruência entre a confiança (Fé de Jesus Cristo professada) e a prática de ações fraternas e amorosas.

No concernente à superação do formalismo — a qual extirpa radicalmente a hipocrisia e a mera exterioridade (Mateus 23, 23-26) —, o Magistério Conciliar estabelece que a vivência autêntica da Graça transcende o mero cumprimento de ritos e preceitos externos (SC - Sacrosanctum Concilium).

Tal vivência exige uma - μετάνοια - metanoia permanente e intrínseca, alimentada assiduamente pela recepção dos Sacramentos e pela escuta e meditação da Palavra evangélica. Mediante a contínua renovação do intelecto e do coração, o fiel é capacitado a transcender o egoísmo, convertendo sua existência em um testemunho idôneo de Amor, Verdade, Justiça e Esperança no âmbito eclesial e civil.

Senhor Deus, somos o pó da terra, mas habitados pelo Teu sopro de vida. Pequenos diante da Tua imensidão, somos, contudo, amados e chamados por Teu nome para participar do Teu grande Plano de Salvação selado pelo Sangue de Cristo e confirmado na Ação do Espírito Santo. Amém.

Ó Maria, Mãe do Redentor, ensinai-nos a reconhecer a nossa verdadeira condição perante Deus: a de seres pequeninos, todavia infinitamente amados. Manifestai-nos que a nossa existência constitui um dom precioso e que fomos concebidos, por puro Amor, para a glória do Pai, por intermédio do Filho e no Espírito Santo. Pelo sacramento do Batismo, purifica-se em nós a mancha do pecado original, assegurando-nos a venturosa perspectiva da Eternidade Feliz. Obrigado Mãe querida! Amém.

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