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Papa no 47º Encontro pela Amizade entre os Povos em Rimini

Estou feliz por, em Rimini, me reunir convosco num ambiente que vos é tão caro pelo empenho, criatividade e diálogo que o vosso encontro em finais de agosto consegue mobilizar há anos...

Papa no 47º Encontro pela Amizade entre os Povos em Rimini

Estou feliz por, em Rimini, me reunir convosco num ambiente que vos é tão caro pelo empenho, criatividade e diálogo que o vosso encontro em finais de agosto consegue mobilizar há anos. Agradeço ao Presidente Scholz e ao Doutor Prosperi as palavras de boas-vindas.

Neste momento histórico, compreendemos mais profundamente a profecia que, há quase meio século, foi inscrita no nome dado a estes dias: “Encontro pela Amizade entre os Povos”. Como vos disse São João Paulo II, «já só pronunciar estas palavras alegra o coração: “Encontro”! “Encontro de amizade”! “Amizade entre os povos”! Palavras que adquirem particular significado nestas horas, muitas vezes dramáticas, da história do mundo».[1]

Também hoje a paz é preservada e difundida por pessoas que gostam de se encontrar e não têm medo de dialogar. O Papa Francisco, com a Encíclica Fratelli tutti, ensinou-nos a cultivar a amizade social, que representa o rosto público, dinâmico e concreto da fraternidade. Com efeito, ao reconhecermos em nós a dignidade de filhos de Deus, entramos em contacto com aquilo que, desde as origens, une os seres humanos, para além de qualquer diversidade, separação ou conflito. Podemos identificar-nos uns com os outros, ouvir-nos e tornar-nos amigos: isto entre pessoas e, portanto, também entre povos. Antes das fronteiras, das definições e das instituições, estão sempre as pessoas. Esta consciência está no coração do cristianismo: vós sabeis disso, porque fostes educados a ler o Evangelho como revelação de Deus que se faz encontro, acontecimento, olhar, experiência, despertando em cada um o desejo de ser amado e de amar. Desta forma, não fizestes do “Meeting” uma espécie de enclave: muito pelo contrário, tornou-se um cruzamento para a Igreja e a sociedade, um encontro que multiplica encontros e inspira novos caminhos.

Agradecemos ao Senhor por esta herança viva, que vos confere uma grande responsabilidade histórica, na comunhão maior da Igreja, ao serviço de uma humanidade que tem fome e sede de justiça. Efetivamente, como nos ensinou o Concílio Vaticano II, «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração».[2] Sim, queridos amigos, é hora da responsabilidade, especialmente para quem muito recebeu de uma tradição milenar de fé que se faz cultura. As diversas edições deste “Meeting” souberam beber, no grande património do passado, as razões que hoje vos comprometem no diálogo com a arte, a música, a literatura, a ciência, a economia e com todas as expressões da alma humana. Também o título escolhido para esta edição, retirado do último verso da Divina Comédia, nos impele para a história da qual Deus é Senhor. «O amor que move o sol e as outras estrelas» não desapareceu, nem perdeu vigor nem intensidade, embora seja um amor que permanece silencioso de bom grado, ao contrário das forças ruidosas que abalam a terra, o céu e todas as criaturas.

Sim, o amor move! «Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores» (Mt 5, 45). Assim Jesus descreve a perfeição de Deus, revelando a diferença entre a generosidade da sua ação e a estreiteza dos pensamentos humanos. A realidade é sufocada pelos nossos cálculos, mas respira na gratuidade de Deus. Não foi por acaso que os meus antecessores – São João Paulo II, Bento XVI e Francisco – apontaram a misericórdia divina como o ponto de encontro entre o Evangelho e as “coisas novas” desta época dramática e maravilhosa. Seguir Jesus Cristo após as tragédias e os recomeços do século XX implica, na verdade, uma consciência lúcida: o mal não se combate com o mal. Assim na terra como no céu, o amor é a lei da vida, o método da redenção, do Messias crucificado. Ao falso realismo, que rearma mentes, palavras e nações, a cultura católica tem hoje de opor o realismo da misericórdia, segundo o qual não podem existir inimigos e todos, mesmo os adversários, são irmãos e irmãs que devem ser olhados nos olhos e encontrados na verdade. O pecado existe, sem dúvida, mas mais forte do que ele é o amor redentor de Cristo, que nos empenha a purificar pensamentos, interesses, hábitos, companhias, projetos, investimentos – todos os aspectos da vida – de tudo o que a cultura do poder contaminou.

Entre vós não faltam competências, responsabilidades e recursos para colocar ao serviço de uma autêntica conversão do povo. «A obsessão de preservar a própria glória, a própria “dignidade”, a própria influência não deve fazer parte dos nossos sentimentos. Devemos perseguir a glória de Deus, e ela coincide com a nossa. A glória de Deus que brilha na humildade da gruta de Belém ou na desonra da cruz de Cristo surpreende-nos sempre».[3] Libertemos, portanto, a convivência da suspeita, a cultura da prepotência, a educação da ideologia, o trabalho da idolatria do lucro, a tecnologia e as finanças dos negócios de morte. A partir das organizações que criámos e nas quais atuamos, desmascaremos as injustas relações de poder, que estão na origem da pobreza e das desigualdades, da guerra e dos desastres ambientais. Desarmemos o desenvolvimento tecnológico quando este se torna invasivo e destrutivo. Precisamos de pioneiros corajosos, que comecem pela sua inversão de rota a tornar convincente e verosímil a conversão pedida a todos.

Que não haja apenas quem atice o fogo do cansaço e do desespero; que haja também quem reacenda sonhos e visões! São dois caminhos incompatíveis, porque um explora a divisão, a alienação e o desespero; o outro serve o Reino de Deus e a sua justiça. «Num mundo marcado por tantas estratégias que visam conquistar mercados e espaços de influência, muitas vezes revestidas de retóricas apaziguadoras e construções ideológicas sedutoras, o nosso coração sente a necessidade de descobrir um desígnio diferente, sábio e benevolente, semelhante ao que Maria contempla no Magnificat, quando proclama que, de geração em geração, a misericórdia de Deus se estende sobre aqueles que o temem. Este desígnio de misericórdia permeia a história também hoje, no meio de mudanças rápidas e inquietantes marcadas por algoritmos, redes globais, e torna-se a bússola para uma existência evangélica na era digital. No centro está o mistério da Encarnação».[4]

Queridos amigos, a beleza desarmada deste Mistério exige assumir que “educar é um risco”, como vos falou o padre Giussani. Ele intuiu que «o método educativamente mais capaz de fazer bem, não é o que foge da realidade para afirmar separadamente o bem, mas aquele que vive da promoção da vitória do bem no mundo».[5] E insistia: «“No mundo” significa em confronto com a realidade inteira, confronto “arriscado”, se se quer chamá-lo assim, mas melhor seria dizer “comprometido”».[6] Irmãos e irmãs, assumamos agora esta responsabilidade, que é um compromisso com Cristo e um compromisso com o nosso mundo!

Queridos jovens, a vossa presença aqui é numerosa e muitos de vós estais como voluntários. Sois o sinal de que o futuro é uma promessa, não uma ameaça! Muitos deixaram de acreditar nisto, tanto entre os adultos como entre os vossos coetâneos. Silenciosamente, porém, «o amor que move o sol e as outras estrelas» incentiva ainda à esperança. Senti-o intensamente entre os vossos colegas no Líbano, na África e na Espanha. O amor move, impele, desperta do torpor, suscita novas vocações e convida a arriscar. Deixai-vos envolver! Abri-vos a uma verdadeira catolicidade, alargando os vossos vínculos para além de qualquer pertença demasiado restrita. O Movimento, os grupos, as comunidades sejam um trampolim a partir do qual possais mergulhar na realidade inteira. Contrastai o que pretende afastar-vos dos irmãos e irmãs com culturas, sensibilidades e origens diferentes, especialmente dos mais pobres. Em vez disso, saí ao encontro de todos!

Em todas as latitudes, especialmente nas margens e entre aqueles que sofrem, encontrareis quem já está pronto para construir a civilização do amor. Não permitais que ninguém menospreze esta palavra, que é o próprio nome de Deus: «Deus é amor» (1 Jo 4, 16). No amor nunca há coação, nem doutrinação; nunca há sedução, engano ou recrutamento. O amor só existe na liberdade, no diálogo vivo, no dom generoso de si mesmo.

Queridos jovens, hoje o mundo parece surpreender-se com a vossa adesão a Cristo, com a atração que sentis por Ele e pela sua Palavra, com a vossa pertença à Igreja. Para muitos, hoje, o serdes cristãos é uma surpresa! No entanto, como escrevia São Paulo à jovem comunidade de Tessalónica, sem fazer alarido, «partindo de vós, a palavra do Senhor não só ecoou» (1 Ts 1, 8), mas – acrescentava – «por toda a parte se propagou a fama da vossa fé em Deus, de tal modo que não temos necessidade de falar disso» (ibid.). Não é uma questão de números, embora seja comovente ver milhares dos vossos coetâneos a pedir o Batismo em sociedades consideradas entre as mais secularizadas do mundo. É uma questão de liberdade: a verdade só se encontra na liberdade.

Estamos a compreendê-lo cada vez melhor, em circunstâncias históricas que reavivam as questões mais humanas e um desejo infinito de sentido, justiça e paz. Assim, uma certa perda de influência, que nós, adultos, talvez tenhamos temido e combatido, deveria mostrar-nos que podemos valorizar mais o poder do Evangelho, os laços que ele gera, a lógica que acende e a vida que faz surgir. Como repetiram várias vezes os meus antecessores, «a Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por “atração”».[7] É a atração por um modo de estar no mundo, a respeito do qual o padre Giussani perguntava de forma provocadora: «É possível viver assim?».[8]

Já no século II, por outro lado, o autor anónimo da Carta a Diogneto reconhecia que os cristãos «revelam um modo de vida maravilhoso e, sem dúvida, paradoxal» (V, 4). Claro, temos de admitir que trazemos este tesouro «em vasos de barro» (2 Cor 4, 7) e que, frequentemente, a credibilidade do nosso testemunho pessoal e comunitário é marcada por limites e pelo pecado. Mas é o Senhor que nos levanta sempre, enquanto indivíduos e comunidades!

Queridos amigos, amai sempre a Igreja! Amai e preservai a unidade. Merece ser pronunciado de novo "Amai sempre a Igreja!". Queridos amigos, amai e preservai a unidade da “companhia” através da qual Cristo vos alcançou e vos atrai para Si. Como vos disse o Papa Francisco, por ocasião do centenário do nascimento do vosso fundador, «até os momentos difíceis podem ser momentos de graça, momentos de renascimento! O nome Comunhão e Libertação nasceu precisamente numa época de crise, como foi o ano de 1968. E mais tarde o padre Giussani não se assustou com os momentos de passagem e crescimento da Fraternidade, mas enfrentou-os com coragem evangélica, confiança em Cristo e em comunhão com a Mãe Igreja».[9]

Pois bem, caríssimos, precisamente nos tormentos desta mudança de época, neste mundo dilacerado por múltiplas crises, podemos redescobrir «o “prazer espiritual” de ser Povo de Deus, reunido de todas as tribos, línguas, povos e nações, vivendo em contextos e culturas diversas […] ainda peregrino no tempo e já em comunhão com a Igreja do céu».[10] Nos últimos anos, redescobrimos a dimensão sinodal e missionária do nosso ser Igreja, que nos chama, antes de mais nada, a aprender a escutarmo-nos uns aos outros. «O dom da escuta é algo que, penso eu, todos consideramos, mas que muitas vezes se perdeu em alguns setores da Igreja. Temos de descobrir continuamente o quanto é precioso, a começar pela escuta da Palavra de Deus, pela escuta recíproca, pela escuta da sabedoria que encontramos nos homens e nas mulheres, nos membros da Igreja e naqueles que procuram a verdade, mas que ainda não são – ou talvez nunca cheguem a ser – membros da Igreja».[11]

Trata-se dum caminho que exige também a renovação de todas as realidades associativas e movimentos eclesiais. Tanto no seio do Movimento Comunhão e Libertação, como nas Igrejas particulares às quais cada um de vós pertence, convido-vos a viver esta experiência de caminhar juntos: cada um escuta, deixa-se transformar pela fé dos outros e, juntos, sob a orientação dos pastores, amadurecem-se novas consciências, passos sucessivos, obediências corajosas ao Espírito Santo. A sinodalidade não é o nome de um processo, mas a natureza de um povo que, na amizade e no encontro com o outro, reconhece a sua pertença exclusiva a Deus. Então, a autoridade transforma-se em serviço, que honra as diversidades e facilita a harmonia entre elas. Nesta época conturbada, este estilo constitui um verdadeiro sinal dos tempos. Testemunhamos que cada carisma é útil para todos, que cada riqueza se multiplica quando é partilhada, que cada medo pode ser superado: devemos tornar este testemunho tangível, confiável, desejável. Sabereis fazê-lo, queridos amigos, na esteira do vosso fundador, cultivando a unidade entre vós, com aqueles que são chamados a guiar o Movimento, com a Sé Apostólica que vos reconheceu e com o Sucessor de Pedro. Que o Espírito Santo nos eduque à prática da comunhão. Que dela nos conceda o gosto, a estima e a esperança. Que nos continue a guiar, queridos irmãos e irmãs, aquele Amor «que move o sol e as outras estrelas». Obrigado!

Obrigado! Obrigado! A oração é um elemento fundamental em toda comunidade cristã. Por isso, agora, convido todos a rezarem a oração que Jesus nos ensinou (Pai Nosso e a bênção). Obrigado e boa jornada!

[1] S. João Paulo II, Discurso ao III Meeting para a amizade entre os povos, Rimini, 29 de agosto de 1982.

[2] Conc. Ecum. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, 1.

[3] Francisco, Discurso no Encontro com os participantes do V Congresso da Igreja Italiana, Florença, 10 de novembro de 2015.

[5] Luigi Giussani, Educar é um risco, Lisboa, 1998, 103.

[7] Bento XVI, Homilia na Missa de inauguração da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, Aparecida, 13 de maio de 2007. Francisco, Catequese,11 de janeiro de 2023.

[8] Cf. Luigi Giussani, É possível viver assim?, Coimbra, 2008-2010.

[9] Francisco, Discurso aos membros da Comunhão e Libertação, 15 de outubro de 2022.