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O embate sobre as reformas e o futuro da Ucrânia

No 36º ano de sua independência, a Ucrânia chegou a um ponto em que o simples crescimento do PIB já não garante o retorno de milhões de cidadãos que vivem no exterior. Uma parte signifi...

O embate sobre as reformas e o futuro da Ucrânia

No 36º ano de sua independência, a Ucrânia chegou a um ponto em que o simples crescimento do PIB já não garante o retorno de milhões de cidadãos que vivem no exterior. Uma parte significativa desse crescimento ainda é financiada por parceiros externos, e essa ajuda não durará para sempre. As contínuas acusações de corrupção nos mais altos níveis das estruturas de poder, bem como as hipóteses de possíveis eleições mesmo durante a vigência da lei marcial, impõem uma reflexão sobre as reformas indispensáveis para conduzir a Ucrânia a uma organização social e econômica mais eficiente.

Segundo uma análise da RBK-Ucrânia, baseada em consultas a diversos especialistas e economistas, existem algumas questões inadiáveis para o futuro do país. Antes de tudo, a ajuda externa deve ser considerada “como uma ponte, não como um modelo”: o país precisa de apoio externo, mas a base do crescimento deveria ser constituída pelos investimentos privados e pelas próprias atividades econômicas. Os salários, por si só, não são suficientes: segurança, moradia, emprego compatível com a qualificação profissional e qualidade de vida também são fatores importantes para o retorno das pessoas que vivem no exterior.

Para alcançar rendimentos mais elevados, é necessária uma nova economia: a Ucrânia precisa de tecnologia, investimentos, robotização e produção de alto valor agregado. A escassez de trabalhadores deverá persistir por muito tempo, e a solução passa pelo aumento da produtividade, pela automação e pela requalificação de trabalhadores mais velhos e de migrantes. O setor de tecnologia militar, o MilTech, pode também se tornar um centro de desenvolvimento para a produção de energia elétrica, mas isso exige tecnologias de uso dual, exportações e desenvolvimento dos setores civis. A chave continua sendo a qualidade das instituições: a proteção da propriedade e o Estado de Direito devem transformar a ajuda internacional em investimentos privados.

A Ucrânia celebrou mais um aniversário de sua independência com uma economia paradoxal: o complexo militar-industrial registra um crescimento recorde, enquanto o restante da economia está em retração. O país chegou a um ponto em que o simples crescimento do PIB já não garante nem o retorno de milhões de ucranianos que vivem no exterior, nem uma recuperação sustentável no pós-guerra. “Neste ano, o complexo militar-industrial continua sendo o principal motor do crescimento econômico, mas, ao mesmo tempo, o setor civil sofre cada vez mais com a escalada da guerra: já estamos assistindo a uma desaceleração do consumo e ao impacto da destruição de ativos empresariais e de infraestruturas logísticas. Isso significa que o crescimento do complexo militar-industrial ainda não é um indicador de crescimento saudável para toda a economia”, observou Elena Bilan, economista-chefe da empresa de investimentos Dragon Capital, durante um evento organizado pelo Centro para a Estratégia Econômica.

O Banco Nacional considera que o setor militar, por meio do MilTech, continuará sendo um exemplo fundamental e um novo motor de crescimento, estimulando o desenvolvimento de setores relacionados. Mas é justamente aqui que surge a questão central para os próximos anos: o que acontecerá com a economia ucraniana quando a guerra deixar de ser o principal obstáculo, mas permanecerem suas consequências — a escassez de mão de obra, as infraestruturas destruídas, a necessidade de capital e os riscos para a segurança? O crescimento econômico, por si só, não garante o retorno das pessoas que se mudaram para países europeus, e a razão não está apenas na guerra. Segundo Irina Ippolitova, economista sênior do Centro para a Estratégia Econômica, o que importa para os refugiados não é uma comparação direta entre os salários na Ucrânia e aqueles pagos na Alemanha, Polônia ou República Tcheca, mas “a relação entre renda e custo de vida”.

Mesmo sem um cálculo preciso, está claro que o patamar de exigência aumentou consideravelmente. Aleksij Poznjak, chefe do Departamento de Estudos Migratórios do Instituto de Demografia e Problemas da Qualidade de Vida da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia, lembrou que, antes mesmo da guerra, os pesquisadores consideravam que um salário correspondente a 70% daquele recebido no exterior seria um incentivo suficiente para manter uma pessoa na Ucrânia. Agora, a lógica é diferente: “antes, o objetivo era manter as pessoas na Ucrânia; agora, é preciso trazê-las de volta para casa, e talvez 70% já não seja suficiente para incentivar o retorno; uma taxa de 80% a 90% provavelmente seria mais estimulante”, afirma o cientista.

O dinheiro não é o único fator, nem mesmo o principal. Poznjak destaca a existência de uma “barreira psicológica”, uma vez que muitas mulheres ucranianas que vivem no exterior trabalham fora de sua área de especialização, como vendedoras ou trabalhadoras sazonais, e nem mesmo os salários mais elevados no exterior compensam a perda de status social. Ao mesmo tempo, a possibilidade de recuperar na Ucrânia o status que tinham anteriormente pode estimular o retorno, mesmo com um salário menor.

Os setores fundamentais são “a melhoria da qualidade da educação, que está se deteriorando rapidamente, a retenção de talentos e a criação de ecossistemas favoráveis à inovação”, afirma o economista. Mesmo que o duelo em torno da industrialização terminasse em favor das fábricas, não haveria ninguém para construí-las: a escassez de mão de obra já não é um problema temporário e está se tornando uma limitação estrutural para a economia. Segundo as estimativas de Poznjak, há cerca de 5 milhões de migrantes forçados ucranianos no exterior. Mesmo em um cenário otimista, não mais de 50% a 60% deles retornariam. O problema, porém, não está apenas na quantidade, mas também na “qualidade” daqueles que partiram. “Há uma escassez particularmente aguda de mão de obra na Ucrânia entre trabalhadores qualificados: motoristas, costureiras, eletricistas, soldadores, mecânicos... a maioria dos ucranianos adultos que foram para o exterior possui ensino superior, portanto, seu retorno não conseguiria preencher essa carência, que se concentra nas profissões de trabalhadores manuais”, afirma Irina Ippolitova.

Aleksej Poznjak propõe, portanto, uma solução complexa, que começa pela incorporação ao mercado de trabalho de pessoas idosas que “ainda conservam capacidade laboral suficiente”, passa por uma maior robotização dos processos produtivos — as tecnologias experimentadas no front podem ser transferidas para a economia civil — e chega, finalmente, à importação de mão de obra, porque “não existem países ricos no mundo sem migrantes”. O especialista alerta, contudo, que a proporção de migrantes não deveria ultrapassar 10% da população, pois, acima desse nível, o problema de sua integração aumenta consideravelmente. O tempo trabalha contra a Ucrânia: uma analogia com estudos realizados antes da guerra sobre a migração de trabalhadores para a França mostra que, depois de aproximadamente cinco anos no exterior, a probabilidade de retorno de um migrante diminui drasticamente.

Enquanto a economia civil procura um novo modelo de crescimento, o setor de defesa já se tornou sua locomotiva e tem condições de permanecer como um ator fundamental mesmo depois da guerra. O presidente do conselho de supervisão do cluster de defesa ucraniano Brave1, Aleksandr Bornjakov, apresenta os números: a Ucrânia produz entre 4 e 5 milhões de drones por ano, e o potencial de produção do setor de defesa em 2026 é estimado em US$ 50 bilhões a US$ 55 bilhões. Ao mesmo tempo, o orçamento interno cobre apenas cerca de um terço dessa capacidade produtiva, enquanto a capacidade excedente em algumas categorias chega a 50%. Por isso, a liberação de exportações controladas tornou-se uma questão de sobrevivência do setor, e não apenas de crescimento.

O programa Drone Deals já produziu os primeiros resultados: foram assinados acordos com Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Países Baixos, Lituânia e Letônia. Em julho de 2026, Estados Unidos e Ucrânia também assinaram uma declaração bilateral de intenções para a cooperação no campo dos drones. Trata-se do nascimento de uma nova indústria, com vantagens competitivas sem paralelo em nenhum outro país: testes de tecnologias em combate, um ciclo de desenvolvimento acelerado — semanas em vez de anos — e um retorno direto de informações entre o front e a produção. O uso dual “representa um mercado adicional para as empresas ucranianas e novas oportunidades para atrair capital privado”, destaca a especialista Oksana Ferčuk. A esperança no futuro da Ucrânia depende da guerra, tanto da resistência ao invasor russo quanto da capacidade de sua indústria militar prevalecer, no âmbito interno e internacional.

*Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, com especialização em Estudos Russos. Entre outros, é autor do livro "Lo Czar di vetro. La Russia di Putin". (Esse artigo publicado pela Agência AsiaNews)

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