Jairzinho Lopes Pereira é um intelectual multifacetado. Amante da leitura de clássicos da literatura cabo-verdiana, portuguesa, italiana e outros, não há dia em que não escreva algumas linhas de literatura, embora só recentemente tenha decidido, graças a um amigo já com mais de cem anos, publicar a sua primeira obra literário-poética: “Ao pé da montanha, mandam as palavras”.
Embora o apetite pela literatura lhe tire algum tempo precioso para a pesquisa científica, é sobretudo à investigação no domínio da História e da Igreja que se tem dedicado mais e publicado estudos, o que o tem levado também a várias e importantes conferências internacionais.
É o caso da 9ª Conferência anual da Academia Europeia de Religiões que teve lugar em Roma, na Universidade Luiss Guido Carli, de 30 de junho a 3 de julho de 2026 e na qual participou enquanto Investigador da Universidade Católica de Lovaino.
A sua intervenção foi no âmbito do painel sobre Mulheres e Desigualdades de vários pontos de vista, incluindo a violência histórica contra as mulheres, tudo enquadrado no âmbito da “Violência colonial em África no século XX”, particularmente em Angola e Moçambique, sem deixar de fora os mecanismos usados pela PIDE para o controlo de várias categorias de indivíduos nos territórios colonizados por Portugal.
Na entrevista com a Rádio Vaticano, Jairzinho Lopes Pereira estabelece uma ligação entre as violências do passado e as que afetam ainda hoje as mulheres, afirmando que embora seja necessário distinguir diversos planos há, sim, uma certa continuidade. É que se nenhuma religião, nem cultura se gabe de ser violenta contra a mulher, na realidade, tanto uma como outra são instrumentalizadas para justificar narrações misóginas e falocráticas que, ao longo do tempo, foram abafando o espaço e o valor que as religiões atribuíam, na origem, às mulheres.
Então - sustenta este investigador - há que voltar a dar espaço e voz às mulheres no âmbito das religiões como forma de contribuir para acabar com a violência contra elas. E dá exemplos de como tanto o cristianismo como o islão na sua origem eram mais abertas à inclusão e participação da mulher. Progressista, Jairzinho vê na plena integração da mulher na Igreja, passando, por exemplo, pela ordenação diaconal, algo favorável a uma sociedade mais pacífica, mas também à sobrevivência da própria Igreja.
De salientar, todavia, que sobre o diaconado feminino, a Igreja católica se pronunciou negativamente em finais de 2025.
Quanto ao contributo, nos dias de hoje, das religiões para uma sociedade pacífica, sem violências, Jairzinho vê sinais positivos, como a sinodalidade, mas também negativos, sobretudo no âmbito de certas religiões, onde lutar por um lugar digno é já um grande perigo para a mulher. Há, na sua opinião, que explorar a potencialidade de bem que têm as religiões e não fazer um uso instrumental delas a favor da exclusão, sofrimento, martírio do ser humano.
Após essa conversa sobre o tema de que discutiu com os colegas nessa Conferência da Academia Europeia de Religiões; sobre o grande valor dessas conferências anuais e sobre o vastíssimo, importante e atual leque de temas abordados na 9ª edição, Jairzinho Lopes Pereira, deteve-se sobre o amplo projeto em que está a trabalhar e que prevê a publicação de pelo menos dez volumes de recolha de documentos sobre a Diocese de Santiago de Cabo Verde nos arquivos europeus. Um trabalho com que quer brindar os 500 anos da criação dessa Diocese em 2033, e que já vai no terceiro volume.
Se o I volume parava 1859, o segundo vai de 1859 a 1871 e abrange os episcopados de Dom Amorim Pessoa, de Santa Bárbara, (que não fora confirmado por Roma) e de Dom José Luís Alves Feijó, que fundou o famoso Seminário de São Nicolau.
Já o terceiro volume, em fase de ultimação, abrange a parte final do século XIX e é sobre o todo o episcopado de Dom José Joaquim Correia de Carvalho que dinamizou o referido Seminário e privilegiou as visitas pastorais.
Embora este amplo projeto esteja a caminhar um pouco devagar, mantem-se de pé e poderá continuar mesmo depois do Jubileu da Diocese em 2033 - revela o autor que, ultimamente, se lançou, como acima mencionado, também à literatura...
“Ao pé da montanha, mandam as palavras” é um livro de poemas e prosa poética em que cultura popular e erudita se misturam e dialogam e resta ainda espaço para expressões mais espontâneas e íntimas.
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