Neste ano de 2026 comemoram-se os 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis, um marco fundamental para compreender a formação histórica, cultural e territorial do sul do Brasil e da América Latina. Inseridas no contexto da expansão europeia e da ação evangelizadora da Companhia de Jesus, as Missões contribuíram para a definição de fronteiras, para o desenvolvimento de modelos econômicos coletivos e para o florescimento das artes, da música, da arquitetura e da educação. Mais do que um projeto religioso, as reduções constituíram uma experiência complexa de convivência intercultural, na qual jesuítas e guaranis estabeleceram relações de cooperação, negociação e adaptação cultural.
Para falar deste tema, a Rádio Vaticano/Vatican News conversou com a Prof. Claudete Boff*, docente do curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI - Santo Ângelo, RS). Detentora de um longo curriculum na área acadêmica e do Patrimônio Histórico e Cultura é, entre outros, autora do livro "Imaginária Guarani, o acervo do Museu das Missões".
Na entrevista, a Prof. Claudete enfatiza o protagonismo dos povos guaranis, rejeitando interpretações que os tratam como meros coadjuvantes da história. Pesquisas recentes mostram sua participação ativa na construção dos povoados, na produção artística, na cartografia, na administração política e até na elaboração de documentos oficiais. A historiografia contemporânea tem revisitado as Missões a partir dessa perspectiva, reconhecendo-as como espaços de intercâmbio cultural, resistência indígena e disputas de poder, superando tanto as visões romantizadas quanto as leituras simplificadas do passado missioneiro.
A docente da URI também destaca que o legado das Missões permanece vivo na identidade regional, na cultura, no cooperativismo, na religiosidade popular e em práticas cotidianas ligadas à alimentação e ao uso da erva-mate. Neste contexto, as comemorações dos 400 anos convidam a refletir sobre diversidade cultural, direitos indígenas e interculturalidade, mostrando que a experiência missioneira continua relevante para os desafios contemporâneos. Também a universidade - como recordou a professora - desempenha papel essencial na preservação da memória e na produção de conhecimento, por meio da pesquisa, da arqueologia, da formação acadêmica e da valorização do patrimônio histórico e cultural da região.
Neste ano em que celebramos os 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis, qual é a importância desse marco para a história do Brasil, da América Latina e, especialmente, da região das Missões?
O marco das comemorações dos 400 anos nos leva a pensar e revisar o que almejava a Companhia de Jesus e como era o ambiente dos séculos XVI e XVII na Europa. O mundo ocidental estava ávido por novas conquistas territoriais, somado a isso, o espírito contrarreformista da Igreja Católica na conquista de novos fiéis. A Renascença e o Barroco que foram as grandes expressões da arte e da arquitetura naquela época. Nesse contexto, os Jesuítas se lançaram com tanta coragem e amor à conquista espiritual num mundo desconhecido. Encontraram na América uma população indígena com uma cosmovisão muito diferente do homem ocidental. O nativo, entende o mundo como criação de Ñhanderu e outros seres divinos todos ligados à natureza. O eixo central da cosmologia guarani é a busca da “Terra Sem Males”, que movia as migrações guarani a encontrar lugares melhores para plantar e viver. Este pensamento no espaço reducional se fundiu “com a busca pelo Paraiso.
Salientando porque este marco é tão relevante para o Brasil, América Latina e Região: a) questão geopolítica e território por ter influenciado na definição das fronteiras, no desenho geográfico atual; b) reconhecimento como Patrimônio da Humanidade; c) modelo socioeconômico e cultural tendo como exemplo a produção coletiva, mão de obra qualificada e especialmente no uso da madeira e mais tarde fundição e o florescimento nas artes nas suas diversas expressões: escultura, pintura, teatro, dança e música com produção de instrumentos musicais.
De que forma as Missões Jesuítico-Guaranis podem ser compreendidas hoje: mais como um projeto religioso, político, cultural ou como uma experiência singular de convivência intercultural?
Inicialmente foi um grande projeto religioso. Primeiramente com a criação dos colégios para dar formação religiosa, em seguida a conquista das aldeias levando pinturas da Virgem Maria e dos Arcanjos, acompanhados de cantos e música. Pode-se considerar nesse momento também a proteção dada pelo jesuíta para evitar a escravidão colonial.
Na questão política formaram povoados autossuficientes, com administração própria tendo os caciques como líderes junto às famílias para atuarem no bom andamento da vida social e religiosa. Souberam se impor na questão do Tratado de Madrid, assim como também lutaram do lado espanhol na defesa da Colônia do Sacramennto.
Na convivência intercultural, os jesuítas foram muito hábeis na condução dos costumes e das crenças, substituindo algumas e adaptando outras.
Qual foi o papel dos povos guaranis na construção das Missões e como podemos evitar uma leitura que os coloque apenas como coadjuvantes da história?
Existem vários relatos que comprovam que os Guarani não foram meros coadjuvantes da história no espaço reducional e nem no desenvolvimento da América Colonial. Podemos citar aqui o relato das Cartas Ânuas escrita pelos jesuítas e correspondências privadas entre os padres dos povoados missioneiros ou ainda com o Bispo de Buenos Aires em 1677 como afirma Susterstic (2000, p. 4) em seu livro “Templos Jesuítico”.
Os pesquisadores Eduardo Neumann e Artur Barcelos (2022) nos trazem dados de guaranis “exercendo ofícios em obras públicas em diversas cidades colônias”. Percebe-se que foram ativos participantes, mesmo fazendo parte da redução eles se deslocavam para as atividades servindo às solicitações da cidade colonial. “ Não foram passivos frente à liderança inconteste dos jesuítas” Neumann e Barcelos (2022). A sua contribuição na cartografia é outro exemplo. Nesse espaço de tempo de cinco gerações nas reduções, uma elite de intelectuais guaranis foi muito bem preparada. Escreviam em latim e espanhol tinham conhecimento e facilidade do desenho do território, marcando rios, lagos e os demais acidentes geográficos. Não foi difícil de registrar essa topografia, pois tinham especial interesse em estabelecer o seu espaço frente o avanço da colonização.
Então, de vários modos podemos afirmar sua participação como protagonista, contribuindo nas artes, música, escultura, na arquitetura. Eram exímios obreiros construindo tetos de madeira das grandes igrejas. Tinham facilidade para este tipo de talha, pois talhavam os troncos de madeira para a feitura de seus barcos, construíam suas choças, antes da chegada do jesuíta e espanhóis.
Observando hoje os remanescentes da arquitetura, da arte, pode-se afirmar que o guarani foi ativo e criativo não só na construção dos povoados missioneiros, como também nas cidades coloniais espanholas.
Muitas vezes as Missões são romantizadas ou, ao contrário, criticadas de forma simplificada. Como a pesquisa histórica contemporânea tem revisitado esse período?
A pesquisa histórica contemporânea tem revisitado as Missões, especialmente o Sistema de Reduções. Percebe-se que as pesquisas do final do século XX e atualmente no XXI, mostram a contemporaneidade dessa cultura tendo o indígena como protagonista. O julgamento simples e único das Missões em narrativas mais lineares está superada, tanto pelas pesquisas realizadas por historiadores, arqueólogos, antropólogos, arquitetos e teólogos que tem apontado a participação dos indígenas em trabalhos de cartografia, prestação de serviços às cidades coloniais com mão de obra especializada no uso da madeira, na arte e na fabricação de instrumentos musicais, tudo isso mostra o quanto o Guarani foi protagonista. Nesse sentido, a historiografia recente entende as Missões como sistema político, simbólico, religioso, e também com espaços de negociação.
A visão romantizada do indígena, no espaço reducional, era erroneamente interpretada como de obediência e harmonia, quando, na realidade, não era assim que a vida acontecia. E essa visão romantizada perdurou até a primeira metade do século XX, quando esta visão foi sendo modificada. As Cartas Ânuas, documentos protocolares enviadas para o Geral da Ordem, com relatos detalhados dos acontecimentos das Reduções, como fonte de pesquisa também colaboraram para se ter essa percepção atual de que a visão romantizada, de passividade dos guaranis, não era correta. E a evidência de que os guaranis tinham atividade participativa nas Reduções, ao contrário da visão romantizada, está na participação nas grandes comemorações dos Santos, o teatro e as procissões, festas que se realizavam na grande praça, festas estas que faziam parte do gosto e da cultura Guarani.
Quais legados das Missões Jesuítico-Guaranis ainda estão presentes na cultura, na identidade e na organização social da região missioneira hoje?
O legado dos Guaranis Missioneiros ultrapassa a cronologia histórica para se tornar o alicerce de um modo de ser, sentir e falar que define o povo da região. É uma herança que flui entre o sagrado e o cotidiano, unindo a bravura da resistência à sabedoria da terra.
A identidade missioneira é forjada no verbo. Expressões que ecoam em galpões, festivais de música, na poesia e na literatura regional, como o brado imortal de Sepé Tiarajú: “ Esta terra tem dono”. Não são meros chichês linguísticos. Representam a gênese de um patriotismo espiritual. O termo “ sangue missioneiro”, que ouvimos com frequência ao se referir a uma pessoa brava, carrega em si a mística da valentia e da liberdade, herança direta dos índios que, na Guerra Guaranítica, preferiram o enfrentamento ao desterro.
Esse sentimento de pertencimento está profundamente ligado à crença de que este território foi uma concessão divina entregue por Deus a São Miguel para o florescimento dos Sete Povos. É essa conexão que alimenta a figura do "índio valente", cujo espírito de luta se manifesta hoje na resiliência do povo missioneiro perante as adversidades, mantendo viva a chama de uma autonomia cultural singular.
A base material dessa civilização ainda sustenta o nosso dia a dia. O legado botânico e alimentar do povo Guarani é o pilar da culinária e da economia regional. A erva-mate: o "ouro verde" que se transformou no símbolo da hospitalidade sulina, do encontro da paz e da tranquilidade. Ninguém briga ou discute tomando mate, dito popular.