Uma odisseia que durou quase um mês, amontoados como animais, sem comida nem reservas de água potável, antes de desaparecerem, engolidos pelo Oceano Atlântico. Parece o enredo de um filme de terror, mas, na verdade, é a tragédia que se abateu sobre 144 migrantes na costa da Mauritânia. O barco havia partido de Bufalo, uma localidade no interior da pequena República da Gâmbia, na tentativa de chegar à Espanha, mais precisamente ao arquipélago das Canárias, explicou o porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), Matthew Saltmarsh. No total, naquela embarcação improvisada, havia 144 passageiros, entre mulheres e crianças, mas apenas 38 sobreviveram; os demais estão mortos ou desaparecidos.
A reconstituição fornecida pelo porta-voz do Escritório da ONU e pelos migrantes, em sua maioria provenientes da África Ocidental, revela detalhes assustadores sobre a viagem. O motor da embarcação teria, de fato, parado após poucos dias de navegação devido a uma falha mecânica, deixando o barco à mercê das correntes oceânicas imprevisíveis e violentas. Pouco tempo depois, a embarcação ficou completamente sem combustível, sem sistemas de posicionamento GPS e sem provisões alimentares. Com o passar das semanas, o drama se desenrolou a bordo da embarcação: os passageiros, exaustos pelo calor e pelo cansaço, esgotaram a água potável e foram obrigados a beber a água salgada do oceano apenas para sobreviver. A fome, a desidratação grave e o esgotamento mataram a maioria dos migrantes. Quem sobreviveu também relata o desembarque ocorrido em 14 de julho em Nouadhibou, na Mauritânia, onde, no total, a Guarda Costeira, em três operações de resgate diferentes, somente neste mês, conseguiu salvar, entre 14 e 18 de julho, cerca de 390 pessoas. “Não é um número pequeno, mas nossos pensamentos vão para aqueles que não conseguiram”, continua Saltmarsh, lamentando mais uma vez o custo humano dessas rotas migratórias perigosas e reiterando que as buscas pelos desaparecidos se estenderam por 5 dias. Dois migrantes morreram logo após chegarem à terra firme.
Para o ACNUR, essas tragédias devem servir de alerta e nos lembram que “a rota atlântica que liga a África Ocidental às Ilhas Canárias continua sendo um dos corredores de migração mista mais letais do mundo”, como também foi reiterado pelo Papa Leão XIV em sua recente viagem à Espanha e, posteriormente, a Lampedusa, outro ponto de chegada para quem foge da guerra, da fome e das consequências devastadoras das mudanças climáticas. “O que explica esse perigo são, sobretudo, as longas distâncias, as condições oceânicas imprevisíveis, as embarcações superlotadas e inseguras, bem como as dificuldades de acesso a intervenções rápidas de resgate”, continua o porta-voz do Escritório da ONU, que clama por corredores humanitários seguros e também denuncia as dificuldades de patrulhamento daquele trecho de mar tão extenso.
O porto de Nouadhibou tornou-se, de fato, o epicentro logístico da assistência humanitária, embora não disponha de recursos suficientes para garantir atendimento médico. Os médicos do hospital local assumiram o atendimento aos sobreviventes do barco vindo da Gâmbia, providenciando internação de emergência para os casos que apresentavam quadros mais críticos de desnutrição e desidratação. Desde o início do ano, a Mauritânia registrou um total de 17 desembarques entre Nouadhibou e a capital Nouakchott, somando 2.147 pessoas resgatadas pelas autoridades. Do ponto de vista estatístico macro, os dados globais da ONU revelam um paradoxo numérico: se, por um lado, os naufrágios mantêm um nível de mortalidade alarmante, por outro, as chegadas totais por mar às Ilhas Canárias diminuíram 61% em relação ao mesmo período de 2025, situando-se em cerca de 4.400 entradas totais até 15 de julho de 2026. Uma tendência visível em toda a Europa, onde as chegadas pelas principais rotas marítimas somam pouco mais de 40 mil pessoas, contra 65.407 no primeiro semestre de 2025.
Apesar da redução dos fluxos de entrada na Europa, as razões por trás da letalidade dessa rota continuam evidentes. A forte militarização e as patrulhas conjuntas ao longo das fronteiras tradicionais também obrigam os traficantes de pessoas a alterar os pontos de partida, avançando cada vez mais para o sul, em direção ao Senegal ou à zona rural da Gâmbia. Essa mudança obriga embarcações frágeis — velhos barcos de pesca superlotados e sem equipamentos de segurança — a percorrer trechos de mais de 2.000 quilômetros em mar aberto, distâncias que elas não têm condições de suportar. Longas distâncias, isolamento total de rádio e a impossibilidade de serem interceptados rapidamente em caso de avaria mecânica transformam a travessia do Atlântico em uma roleta russa a céu aberto, onde a fome e as ondas continuam a cobrar um tributo inaceitável em vidas.
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