Um grupo de pessoas de países latino-americanos, que participaram da elaboração e redação de um documento intitulado "Manual das Comunidades Eclesiais Latino-Americanas para enfrentar crise das dependências”, vai se encontrar, no fim deste mês de agosto, em Roma, de dois dias de trabalhos intensos. Ao término do encontro, os participantes serão recebidos pelo Papa Leão XIV, ao qual entregarão um exemplar do “Manual” e informarão sobre o amplo envolvimento das comunidades eclesiais latino-americanas.
O documento, em espanhol, intitulado "Manual de Adicciones" (“Manual das Dependências”), é uma iniciativa promovida e redigida pelo Setor de Pastoral Latino-Americana de Acompanhamento e Prevenção das Dependências (PLAPA) do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM).
O "Manual" é um instrumento de trabalho de utilidade universal, que será oferecido a todas as organizações, instituições e grupos envolvidos no cuidado e apoio pessoal dos que vivem em condições de dependência. O documento, fruto e testemunho de uma realidade eclesial nova, vital e fecunda, em contínuo crescimento espontâneo na América Latina, há quase vinte anos, aborda o trabalho de acolhimento e apoio fraterno às pessoas vulneráveis, sobretudo em bairros urbanos.
O “Manual” foi apresentado na sede do CELAM, em Bogotá, em 25 de junho, véspera do “Dia Internacional contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas”, instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1987.
O documento foi ilustrado por Emilce Cuda, secretária da Pontifícia Comissão para a América Latina, e pelo Padre Charly Olivero, coordenador do PLAPA.
Em conversa com a Agência Fides, o Padre Charly, sacerdote de Buenos Aires, descreve a origem e a finalidade do Manual, concebido, inicialmente, como auxílio pastoral, teológico e metodológico para que as comunidades possam acompanhar as pessoas, que enfrentam o problema do uso de substâncias químicas.
O Manual, segundo o Padre Charly, nasceu também do desejo das comunidades cristãs, em diferentes territórios da América Latina, de enfrentar, em conjunto, o grave problema da disseminação das drogas, apoiando-se mutuamente em uma visão e um percurso comuns.
O Manual anterior, intitulado "Igreja, droga e toxicodependência", publicado em 2001, durante o pontificado de João Paulo II, foi, por muito tempo, um texto de referência e uma ajuda valiosa. Hoje, porém, era preciso ser atualizado, levando em consideração os avanços científicos e as respostas pastorais desenvolvidas ao longo dos anos.
Diversos territórios solicitavam um novo instrumento, que levasse em conta as características culturais de cada país e, ao mesmo tempo, nunca perdesse de vista as causas estruturais da disseminação generalizada da toxicodependência.
Durante muitos anos de trabalho neste setor, nas povoações mais pobres e bairros populares da Argentina, Padre Charly experimentou a importância de um olhar e de acolher a pessoa em sua totalidade: sem esta perspectiva, nenhuma técnica, baseada em uma visão parcial, pode ser realmente eficaz. Assim, ele começou a dialogar com as muitas pessoas das diversas comunidades, que, dia após dia, compartilhavam as vidas dos mais afetados pela dependência.
Desta forma, mais de trezentas pessoas se envolveram com o PLAPA, a ponto de constituir uma rede capilar, que começou a dar vida ao Manual.
"Este instrumento, - afirma o sacerdote argentino - permite minimizar o que chamamos de reducionismo, que nos impede de caminhar juntos. Quando limitamos nosso olhar ao nosso sotaque, ao modo de fazer as coisas, sem o ampliar para a totalidade da realidade, nós nos limitamos em nossa capacidade de interpretar uma realidade completa e complexa. Com a contribuição de todos, o Manual começou a acatar esta complexidade".
O percurso que guiou a elaboração conjunta do Manual remete a um dos princípios repropostos na Exortação apostólica "Evangelii Gaudium" do Papa Francisco: a realidade vai bem mais além das ideias. Não se trata de comparar ideias, mas experiências vividas.
O Manual, - continua o Padre Charly - é composto, segundo uma abordagem pastoral e social, em três fases: ver, julgar e agir, historicamente adotada pelas Igrejas da América Latina e codificada por João XXIII na encíclica "Mater et Magistra".
Aqui, o Padre Charly explica: "A fase ‘Ver’, analisa-se a situação; o 'Julgar' baseia-se nas questões, que surgem no coração de uma pessoa, que quer responder, a partir de um lugar concreto: paróquia, diocese, escola, rua. No impacto com esta realidade, começam a surgir questões, que, por sua vez, abrem outras questões. Escolhemos o método escolar para dar uma estrutura ao Manual: analisar as questões, as respostas e as possíveis objeções, sempre com a intenção de ampliar a perspectiva para a complexidade da realidade”. E o sacerdote acrescenta: "Sobre o tema das drogas, há muitas hipóteses, muitas tentativas e muitas objeções. Deste modo, nós as examinamos para iniciar um processo de discernimento. Queremos que o nosso modo de ver seja abrangente, não abstrato, levando em consideração todos os fatores da realidade. Assim, o Manual nasce de lugares concretos e de nossos territórios. Fomos tocados por uma realidade que, de diferentes maneiras, condicionou nossas vidas".
Revelando a origem do documento, o Padre Charly explica que tudo começou em 2018, quando o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral convocou uma reunião da qual ele participou como representante da “Grande Família - Lar de Cristo”.
"Participaram da reunião também membros da Secretaria de Estado dos Estados Unidos, que falaram da sua intenção de elaborar um texto sobre o tema das dependências, que pudesse ser utilizado pela Igreja".
Sucessivamente, a ideia foi retomada em outra reunião, organizada pela CICAD — Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas — junto à Organização dos Estados Americanos (OEA). Na ocasião, foi apresentada a proposta de formação, na qual estavam trabalhando, mas o material tinha um grande acento científico, ao qual tentaram acrescentar um componente espiritual.
De acordo com o Padre Charly, aquela impostação estava distante da abertura de horizontes, necessária para ver a pessoa como um todo, porque reduzia a complexidade. Uma abordagem puramente empírica abordaria algumas dimensões da realidade, negligenciando outras. "Por exemplo, não fala de amor. No entanto, quantas pessoas começam um caminho, para se afastar das drogas, graças à presença de pessoas que as amam!"
Aqui, o sacerdote observa: “Muitos cursos, promovidos por organizações internacionais, ignoram elementos cruciais e fatores reais, que têm impacto sobre a vida e as escolhas das pessoas. Por exemplo, postulam, a priori, um dualismo entre a vida real e o significado religioso, como se este último fosse uma reflexão tardia e não uma dimensão constitutiva do coração humano.
Diante da rejeição de adotar tal perspectiva, pediram que fossem envolvidas pessoas, que já trabalhavam neste campo, para escreverem um texto próprio. Assim, nasceu um primeiro rascunho, que, em 2023, também se desenvolveu em módulos formativos.
Graças à proposta de atividades de formação, o grupo percorreu os países da América Latina, aprofundando seu conhecimento sobre os territórios. Com o passar do tempo, formou-se uma rede de pessoas envolvidas no trabalho do Manual e na nascente PLAPA.
Daquele percurso surgiu a necessidade de desenvolver, também no âmbito do CELAM, uma abordagem específica para o cuidado pastoral das pessoas, que lutam contra as dependências. O tema foi compartilhado com o bispo, Dom Jorge Lozano, então secretário do CELAM, que deu início ao processo nesta direção. Gradualmente, os envolvidos nas atividades de formação começaram a fazer parte da PLAPA.
Comunidades espalhadas por todo o continente começaram a unir-se a este corpo eclesial, para participar e trocar ideias. O diálogo revelou a necessidade de uma visão partilhada, que também gerasse um instrumento comum, moldado pela troca e entrelaçamento de diversas experiências.