“É tempo de reconhecer e afirmar que a pertença religiosa nunca deve tornar-se motivo de discriminação, como se a fé tivesse fronteiras e não fosse, pelo contrário, um chamamento universal à salvação. Onde havia muros de separação, Cristo derrubou-os! (Papa Leão XIV)”
"Sim, este é um lugar onde, mais do que as palavras, falam os gestos": a breve mas significativa visita do Papa Leão XIV à Lampedusa neste sábado, tem um profundo significado pastoral, humanitário e simbólico. Ela reforça a ideia de que a questão dos migrantes continua sendo uma prioridade do seu pontificado e estabelece uma clara continuidade com o legado do Papa Francisco, que com sua visita a este pedaço de terra mais ao sul do continente europeu, realizada em 8 de julho de 2013, colocou a atenção da Igreja e os holofotes da mídia internacional sobre o fenômeno migratório.
Sì, questo è un luogo in cui, più che le parole, parlano i gesti.
E em agradecimento àquela histórica visita e à sua atenção ao fenômeno migratório, o cais do Porto Novo de Lampedusa – que é o primeiro pedaço de terra firme em que os migrantes vindos principalmente do continente africano colocam os pés, após arriscarem suas vidas em travessias perigosas - foi intitulado ao Papa Francisco, com o descerramento de uma placa por Leão XIV.
“O fato de vocês terem escolhido dar o nome do Papa Francisco ao Cais Favaloro é um sinal do vínculo que meu antecessor estabeleceu com a sua comunidade e com nossos irmãos e irmãs migrantes: o Papa esteve perto de vocês durante este período tão desafiador. E hoje estou aqui para dizer que o Papa continua a acompanhá-los, a apoiá-los e a encorajá-los. (Leão XIV antes do início da Missa em Lampedusa)”
Mas antes disso, após deixar o aeroporto, o Papa passou pelo Cemitério local, para um momento de oração silenciosa e deposição de flores, inicialmente no túmulo do pequeno Yousuf, que morreu na travessia do Mediterrâneo. Dezenas de igrantes estão ali sepultados, muitos dos quais não se conhece sequer o nome.
Depois do Cemitério e do Cais, a visita ao símbolo da passagem entre dois mundos, a Porta d’Europa, onde encontrou uma família de migrantes. Para além de uma simples obra de arte, a Porta é um dos símbolos mais fortes da crise migratória no Mediterrâneo e da relação entre a Europa e os migrantes que chegam às suas fronteiras. Para quem chega pelo mar, o monumento localizado no ponto mais meridional da Itália representa a esperança de um recomeço; e para quem não conseguiu completar a travessia, funciona como um memorial das vidas perdidas.
A visita a maior das três ilhas que formam o arquipélago das pelágias foi concluída com a Missa celebrada no Campo Esportivo, sob os olhos da imagem de Nossa Senhora de Porto Salvo, padroeira de Lampedusa.
Em sua homilia, inspirando-se na Parábola do Bom Samaritano, o Papa apresentou Lampedusa como símbolo do drama migratório contemporâneo, mostrando que os migrantes são os homens e mulheres caídos à beira do caminho, necessitados não apenas de assistência material, mas também de reconhecimento da sua dignidade humana. Assim, o verdadeiro seguimento de Cristo exige vencer a indiferença e transformar a compaixão em ações concretas.
Leão XIV também denunciou as causas e responsabilidades que alimentam a crise migratória: a injustiça, a pobreza, a corrupção, os conflitos, os interesses econômicos e a omissão de quem "passa adiante", tal como o sacerdote e o levita da parábola. Ao mesmo tempo, presta homenagem aos habitantes de Lampedusa, aos voluntários e às instituições que escolheram acolher os migrantes, mostrando que o amor ao próximo é sempre fruto de uma decisão livre e constitui o caminho para construir uma sociedade mais humana e fraterna.
“Quem se deixa conduzir por esta dinâmica de compaixão e misericórdia começa a viver de forma diferente, a ser cidadão de forma diferente, a trabalhar de forma diferente...Só a misericórdia sabe responder com novos começos. (Leão XIV)”
Por fim, o Santo Padre dirigiu um apelo especial à Europa, à Igreja e a toda a sociedade para que promovam uma verdadeira "civilização do amor", baseada na hospitalidade, na justiça e no cuidado pelos mais vulneráveis. Em vez de responder ao fenômeno migratório com medo ou exclusão, é necessário desenvolver políticas e atitudes que acolham, protejam, promovam e integrem os migrantes, reconhecendo em cada pessoa um irmão ou irmã. Dessa forma, as comunidades cristãs tornam-se sinal vivo do Evangelho e testemunhas da esperança, da fé e da caridade.
Com esta sua visita a Lampedusa – e na sequência da viagem às Ilhas Canárias - Leão XIV volta a colocar o drama das migrações no centro da consciência moral europeia e global e confirmar a opção da Igreja pelos mais vulneráveis, em continuidade com o gesto emblemático de Francisco em 2013. Ademais, seu gesto estimula as iniciativas de cooperação entre países mediterrâneos e o fortalecimento de organizações humanitárias que atuam na região.
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