Sebastián Sansón Ferrari - Cidade do Vaticano
O administrador apostólico da Diocese de Cádiz e Ceuta, arcebispo Ramón Valdivia, dirigiu uma carta aos sacerdotes, religiosos e fiéis da diocese após os recentes acontecimentos em Ceuta, para compartilhar suas reflexões sobre a crise humanitária e institucional e propor uma resposta da Igreja centrada na oração, na unidade e na reconstrução da confiança.
Em sua carta publicada no site da diocese, o prelado reconhece que levou mais de uma semana para "repousar e compreender a dimensão" dos acontecimentos e suas repercussões, para além do que foi retratado pela mídia. Dom Valdivia descreve uma situação marcada por sofrimento, medo e incerteza, mas também pela serenidade do povo de Ceuta, que, segundo ele, impediu que as tensões se intensificassem e se transformassem em um conflito mais grave.
O administrador apostólico denunciou a "catástrofe humanitária" que atribuiu à ambição e à corrupção. Ele descreveu, por um lado, a situação difícil dos jovens sem futuro, dos adultos que supostamente se aproveitaram do caos para se esquivar de suas responsabilidades e dos menores expostos a situações de vulnerabilidade; e, por outro lado, o medo sentido por famílias e comerciantes em Ceuta diante da chegada de pessoas às suas casas e estabelecimentos comerciais.
"Um verdadeiro turbilhão de emoções que poderia ter levado a um conflito mais grave", enfatizou, antes de reconhecer que "graças à calma dos moradores de Ceuta, isso não aconteceu".
Diante dessa situação, o arcebispo Valdivia apresenta a fé como uma das principais fontes de esperança. Ele enfatiza particularmente o papel desempenhado por Santa Maria da África, padroeira de Ceuta, a quem descreve como um lugar de refúgio e um sinal de conforto para a comunidade.
O prelado evoca a passagem bíblica do profeta Elias para explicar sua experiência da presença de Deus em meio à crise. “Onde está Deus?”, pergunta ele, antes de responder que Ele não se encontra “nem no furacão nem no terremoto”, mas na “mansidão de uma Mãe”.
Para dom Valdivia, Santa Maria da África tornou-se mais uma vez o “farol” que guia Ceuta através de suas dificuldades. Nesse sentido, ele interpreta as celebrações ligadas à padroeira – a oferta floral, a Missa e a procissão – não como um evento passageiro, mas como uma oportunidade de reconhecer a contribuição da fé para a reconstrução da cidade.
“Quero acreditar que (...) esta não tenha sido uma faísca passageira, mas um catalisador para quebrar a inércia gerada pelo medo, a faísca que nos permite perceber o que a fé traz para a reconstrução da cidade, o maior desafio que a sociedade e a Igreja enfrentam neste tempo que o Senhor nos oferece.”
De fato, na terça-feira, 4 de agosto, muitos moradores de Ceuta foram ao Santuário de Nossa Senhora da África para depositar flores aos pés da Virgem e confiar a ela a cidade, suas famílias e, em particular, aqueles que sofrem as consequências dos acontecimentos recentes.
A imagem da padroeira foi levada para o pátio do santuário para receber o carinho de seu povo durante uma cerimônia que contou com a presença do administrador apostólico, dom Ramón Valdivia; do vigário de Ceuta, Pe. Francisco J. Fernández Alcedo; dos sacerdotes da cidade; de representantes de instituições civis, bem como de muitos membros das confrarias e associações de Ceuta.
O administrador apostólico também expressou sua gratidão ao Papa Leão XIV pela mensagem proferida após a oração do Angelus no domingo, 2 de agosto de 2026, na qual declarou que guardava Ceuta “em seu coração”. Ele também elogiou o trabalho dos sacerdotes, paróquias, religiosos e religiosas, voluntários da Casa San Antonio e da Cáritas, bem como a confraria do santo padroeiro.
O arcebispo Valdivia acredita que a resposta desses grupos proporcionou “um exemplo de unidade em meio a tanta tensão”. Portanto, ele pede a toda a diocese que apoie e encoraje a comunidade cristã de Ceuta para que ela continue a testemunhar sua fé.
Em resposta à crise, o dom Valdivia propõe dirigir o olhar para Deus e exorta todas as paróquias da diocese a celebrarem uma vigília de oração pela paz, estabilidade e justiça em Ceuta, na véspera da Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, em conformidade com a proposta do Papa Leão XIV.
A vigília também se realizará no Santuário de Santa Maria da África. O administrador apostólico espera que esta iniciativa seja realizada da maneira mais adequada, para que todos os católicos da diocese possam se unir em oração desde o início das Vésperas.
A intenção, explica ele, não será apenas pedir a proteção da cidade, mas também fomentar a consciência da necessidade de "nutrir a fé recebida" e pedir a luz necessária para enfrentarmos juntos a situação atual.
Para o prelado espanhol, os acontecimentos em Ceuta revelam uma profunda transformação cultural. Por isso, ele nos exorta a não simplesmente esperar que a crise seja temporária, mas a ver esses eventos como uma oportunidade para começar um novo capítulo.
"Esses eventos me parecem demonstrar a profundidade da mudança cultural que está ocorrendo", alerta ele. Diante desse desafio, conclui exortando a comunidade diocesana a elevar o olhar e recitar em conjunto a Oração do Senhor: "Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu!"
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