Para reconstruir Gaza, será necessária uma quantia sem precedentes, equivalente a cerca de sete vezes o custo total das reconstruções realizadas após as principais ofensivas militares que atingiram a Faixa de Gaza nos últimos vinte anos. Essa é a estimativa contida no novo relatório apresentado pela Oxfam, elaborado em parceria com o Instituto de Pesquisa em Política Econômica da Palestina (MAS) e o Centro de Comércio da Palestina, que destaca como o custo da guerra não pode ser medido apenas pelos danos materiais.
De acordo com o relatório, o conflito iniciado em 2023 fez Gaza retroceder 77 anos, anulando em menos de três anos grande parte dos avanços econômicos e sociais conquistados ao longo de décadas. A estimativa dos danos e das perdas econômicas chega a 57,9 bilhões de dólares, enquanto as necessidades para a recuperação ao longo da próxima década ultrapassam os 71 bilhões. “A Faixa foi praticamente arrasada: quase a totalidade dos edifícios residenciais, das ruas, das redes elétricas, de água e de esgoto precisa ser reconstruída. Mas, além dos danos físicos, há os danos psicológicos e sociais”, observa Paolo Pezzati, porta-voz para crises humanitárias da Oxfam Itália, ao comentar os resultados do relatório. “Levará gerações para vermos resultados, pois foram destruídas universidades, escolas, locais de culto e centros de convivência: tudo o que contribui para construir a identidade de um povo não existe mais.”
O relatório destaca, de fato, que a guerra comprometeu não apenas moradias e infraestruturas, mas também os sistemas educacional, de saúde, cultural e ambiental da Faixa de Gaza. Quase todas as escolas estão destruídas ou gravemente danificadas, as universidades foram totalmente arrasadas e milhares de professores e pesquisadores perderam a vida. A isso se soma uma grave crise social: mais de 58.600 famílias são hoje chefiadas por mulheres, enquanto o desemprego feminino chega a 92%. Mais de 50 mil pessoas necessitam de tratamentos de reabilitação de longo prazo e grande parte das pessoas com deficiência vive sem assistência adequada. O território também foi profundamente afetado, com terrenos contaminados, aquíferos deteriorados e graves riscos à saúde.
O cerne da proposta apresentada pela Oxfam diz respeito ao método a ser adotado para a reconstrução. A organização pede que o processo não seja imposto de fora, mas sim construído a partir das instituições, da sociedade civil e dos atores econômicos palestinos. “Seja qual for o valor destinado, a reconstrução estará fadada ao fracasso se for imposta de cima para baixo. É necessário um envolvimento real das instituições locais, da sociedade civil e dos atores econômicos, com total autonomia palestina desde o planejamento até a avaliação das intervenções”, afirma Pezzati. Esse mesmo conceito está no centro do relatório, que convida o Conselho de Paz, presidido pelos Estados Unidos, e a comunidade internacional a adotarem um modelo baseado no reconhecimento do direito dos palestinos de conduzir seu próprio futuro, evitando planos impostos de cima que, segundo a Oxfam, repetiriam os erros do passado.
Para a organização humanitária, as reconstruções anteriores foram sistematicamente frustradas pelo bloqueio da Faixa de Gaza, pela insuficiência de recursos financeiros e pela sucessão de operações militares. Por isso, o novo plano insiste na necessidade de inserir a reconstrução em um processo político mais amplo. “A história nos ensinou que as reconstruções anteriores nunca foram concluídas, pois novas operações militares impediram que a população se beneficiasse delas. Hoje é necessária uma estabilização real, e a reconstrução deve se tornar uma oportunidade para alcançar a autodeterminação do povo palestino e o fortalecimento de suas instituições”, destaca Pezzati. O plano delineado no relatório prevê uma primeira fase dedicada à atendimento às necessidades essenciais da população, seguida pela restauração dos serviços fundamentais — saúde, educação, redes de água, eletricidade e esgoto — antes de abordar a reconstrução das infraestruturas e a retomada da economia. Um caminho que, segundo a Oxfam, levará pelo menos cinco anos para iniciar a recuperação, mas várias décadas para ser concluído.
Para a Oxfam, a reconstrução de Gaza não pode ser dissociada do futuro da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental. “Não podemos permitir uma fragmentação ainda maior do território palestino. É preciso criar as condições para que o futuro da Palestina seja unitário e baseado na autodeterminação, envolvendo instituições, a sociedade civil, organizações femininas e os jovens”, conclui Pezzati. No relatório, a organização faz, por fim, um apelo à comunidade internacional para que apoie um processo baseado no direito internacional, na superação do bloqueio da Faixa de Gaza e no pleno reconhecimento do direito dos palestinos de determinar seu próprio futuro, na convicção de que somente uma reconstrução inclusiva e compartilhada poderá evitar que Gaza seja novamente devastada por um novo conflito.
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